# A primeira casa de shibari da África: a história do Embodiment Rope Space

> Como uma praticante sul-africana transformou aprendizados obtidos no exterior em uma comunidade de cordas na Cidade do Cabo, superando isolamento geográfico, custo da juta e falta de professores até abrir um espaço físico em 2021.

- Tema: Grupos e comunidades
- Tags: shibari, comunidade, áfrica do sul, corda de juta, espaço de cordas, cidade do cabo, ensino
- URL: https://arcanobdsm.com.br/a/a-primeira-casa-de-shibari-da-africa-a-historia-do-embodiment-rope-space
- Fonte original: Shibari Study (blog) (https://shibaristudy.com/blog/post/my-journey-to-opening-the-first-shibari-dojo-in-africa)
- Atualizado: 2026-11-02

## Um primeiro contato longe de casa

Em 2016, aos 23 anos, uma estudante sul-africana deixou seu país pela primeira vez para fazer pesquisa de mestrado em Brisbane, na Austrália. Foi lá que ela viu bondage com cordas de estilo japonês pela primeira vez — e descreve o impacto como algo difícil de esquecer. Para ela, o shibari é ao mesmo tempo técnico e emocional, simples e complexo: uma linguagem corporal que se aprende praticando com outras pessoas.

O detalhe curioso é de onde veio o dinheiro para as aulas. Ela costuma brincar que a Universidade da Cidade do Cabo financiou, sem saber, sua formação em cordas: a cada congresso acadêmico ou intercâmbio no exterior, ela usava parte da bolsa para pagar aulas particulares e workshops. Mesmo com preços considerados acessíveis para o mercado australiano, o câmbio era um obstáculo constante — os rands sul-africanos não rendiam muito longe.

Ainda assim, ela frequentou o máximo de encontros comunitários de corda que pôde e chegou a ajudar a fundar um coletivo local chamado RopeyThings, cujo nome escolheu por soar leve, convidativo e sem pressão para quem chega.

## Voltar para casa com vontade de ensinar

De volta à África do Sul, a vontade de compartilhar o que havia aprendido era grande. Com dois parceiros de prática — entre eles um artista de cordas africano cuja abordagem não é moldada pelas tradições ocidentais ou orientais —, ela criou o coletivo RopeyThings em solo sul-africano. A proposta era baixar a barreira de entrada para pessoas que, como ela na Austrália, não podiam pagar muito.

Os encontros aconteciam de forma irregular, quando havia energia e conteúdo para dividir. Durante anos, o grupo ensinou apenas amarrações muito básicas, todas no chão. Nada de suspensões.

### Os obstáculos dos primeiros tempos

Dois problemas se destacaram:

- **Corda de qualidade.** O melhor material disponível localmente era uma juta de 7 mm vendida em lojas de ferragens, com fibras curtas e ásperas, que exigia tratamento intenso para ficar minimamente utilizável — e que, por ser grossa, deixava pouca margem de erro sobre o corpo. As alternativas eram cordas de algodão ou cânhamo muito macio, que prendiam os nós com força demais e dificultavam desfazê-los. A situação melhorou com a abertura de um fornecedor local especializado em juta para bondage, mas o preço continua sendo um luxo para boa parte do público: comprar uma única corda boa já é caro para muitos praticantes.

- **Falta de professores.** Isolamento geográfico e econômico significavam que educadores de shibari simplesmente não visitavam o país — e não havia verba para trazê-los ou hospedá-los. Em 2018, um encontro casual mudou o jogo: o artista americano Benjamin Langholz, de passagem pelo evento regional AfrikaBurn, foi convencido a ensinar o TK de estilo Kinoko e algumas formas de suspensão. Entender corretamente o TK destravou outros nós e tornou estruturas mais complexas compreensíveis. Foi um divisor de águas que sustentou sua prática por anos e renovou o ânimo para continuar ensinando o básico.

## A pandemia e o desejo de um lugar fixo

A crise sanitária interrompeu encontros presenciais em todo o mundo e também paralisou a cena sul-africana. Foi nesse período de pausa forçada que ela começou a imaginar o que gostaria de ver: um espaço físico capaz de receber tanto instrutores locais quanto internacionais, mesmo que o projeto não desse certo — só para mostrar à comunidade o que era possível.

Havia também uma escolha de abordagem. Ela queria um espaço com um tom mais suave, que abrisse lugar para a delicadeza e o cuidado. Em um país que convive com índices altíssimos de violência sexual, reproduzir estéticas de dor importadas de outras cenas parecia deslocado; o que o público local pedia era um pouso macio. A crença que sustenta o projeto é a de que a corda pode ser um meio de cura e de construção de vínculo comunitário.

Assim, em 2021, ela e a parceira de corda e de vida, Simone (conhecida como Vroeteldier), fundaram o **Embodiment Rope Space**.

## Como o espaço funciona hoje

A constância de um endereço fixo fez a comunidade crescer depressa. O que era uma dupla virou um time de três pessoas, com mais cinco voluntários ajudando a sustentar o espaço — um grupo com experiências de vida bastante diversas.

A programação inclui encontros de corda às quintas-feiras e workshops em fins de semana, a cada dois meses aproximadamente. Nos últimos tempos, o espaço recebeu convidados que antes pareciam inalcançáveis, como Mango, instrutora certificada de Kanna-ryu e educadora ligada ao CORE-Ottawa, e Caritia, de Berlim.

Uma preocupação declarada é não transformar o lugar em um playground autoindulgente para os mais privilegiados da sociedade. O objetivo é um espaço sustentável onde as pessoas desenvolvam habilidades técnicas e interpessoais, questionem suas premissas e experimentem prazer. A ideia de que o prazer é um direito de nascimento, defendida pela ativista feminista queer Mamello Sejake, amiga do espaço, é um dos lemas que orientam o trabalho.

### Educação a distância como ponte

Num contexto em que trazer professores do exterior é caro e burocrático, plataformas online de ensino de shibari se tornaram uma alternativa realista — mesmo sendo a assinatura um gasto significativo para muita gente. A equipe estuda formas de integrar esse tipo de conteúdo aos encontros presenciais, reconhecendo com honestidade os limites do que pode oferecer e usando essa transparência para construir confiança com quem busca evoluir na prática.

Quem estiver na Cidade do Cabo pode conhecer o projeto pelo site embodimentropespace.co.za ou pelo perfil @embodiment_ct no Instagram.

## O que essa história ensina sobre prática segura

A trajetória do Embodiment Rope Space reforça alguns princípios que valem para qualquer comunidade de cordas:

- **Progressão importa.** Anos de amarrações apenas no chão antes de qualquer suspensão é um sinal de respeito ao corpo e à curva de aprendizado.

- **Consentimento e negociação vêm antes da estética.** Toda prática deve ser conversada entre as pessoas envolvidas, com limites claros e palavras de segurança combinadas.

- **Cuidado posterior é parte da prática.** Sessões de cordas mexem com emoções; reservar tempo para acolhimento, conversa e água depois é parte do que torna a experiência sustentável.

- **Adaptar-se ao contexto local não é abrir mão de rigor técnico**, é reconhecer que necessidades emocionais e culturais variam.

## Segurança

- Aprenda amarrações de solo antes de tentar suspensões; suspensão exige supervisão de pessoa experiente e equipamento adequado.
- Combine limites, intenção e palavras de segurança antes de qualquer sessão de cordas.
- Reserve tempo para cuidados posteriores: conversa, água, aquecimento e verificação de marcas na pele.
- Interrompa imediatamente diante de formigamento, dormência ou mudança de cor — sinais de compressão nervosa ou circulatória.
