Do que trata este episódio
Em fevereiro de 2015, o educador e autor Lee Harrington publicou no podcast Passion & Soul um episódio dedicado a uma polêmica recorrente nas comunidades kink: beber e usar drogas durante eventos de BDSM. A conversa parte de um relato de ouvinte que se incomodou ao ver um bar montado justamente numa noite de experimentação, em que pessoas testavam práticas pela primeira vez — e ouviu alguém dizer que precisava de alguns drinques para criar coragem para uma perfuração.
Harrington não faz campanha pela abstinência total. Ele distingue situações: tomar uma taça de vinho no jantar, compartilhar uma cerveja com parceiros de confiança ou fumar cannabis em um acampamento são escolhas pessoais e, em muitos lugares, legais. O problema, segundo ele, é outro: usar substâncias para vencer a própria hesitação diante de algo que a pessoa ainda não decidiu fazer.
Por que o estado alterado importa
O argumento central é fisiológico. BDSM já induz, por si só, estados alterados de consciência — o chamado subspace, a euforia de endorfinas, a mudança na percepção de dor e de intensidade. Álcool e outras drogas mexem na química cerebral de modo semelhante, alterando como os estímulos são captados e traduzidos pelo sistema nervoso.
A consequência prática é que a pessoa pode não perceber o quanto está sendo machucada, ou pode não reagir a tempo de sinalizar desconforto. Harrington relata ter aprendido isso na própria pele: sob efeito de substâncias, nem sempre notou o quanto estava sendo danificado. Ele também lembra que o tema não se limita a drogas ilícitas — remédios psiquiátricos, analgésicos como a hidrocodona, até um comprimido de aspirina mudam a forma como o corpo processa sensações.
A pergunta que substitui o julgamento
Em demonstrações públicas, Harrington conta que prefere perguntar "o que você tomou?" em vez de "você tomou alguma coisa?". A segunda formulação, diz ele, tende a gerar vergonha e a levar as pessoas a esconder o consumo — o que é pior para todos. Saber o que a pessoa ingeriu permite adaptar ou recusar a cena:
- alguém que bebeu pode vomitar se for girado ou suspenso de cabeça para baixo;
- quem fumou cannabis tem reflexos mais lentos e pode não conseguir sinalizar entre golpes de bastão;
- alguém sob efeito de êxtase pode se envolver emocionalmente com a experiência, e não com o parceiro;
- quem está em viagem psicodélica costuma precisar de um espaço seguro e contido, não de uma cena.
Em todos os casos, a decisão passa pela negociação prévia e pelo consentimento informado. Se as duas partes escolhem conscientemente jogar com a pessoa em estado alterado, isso é uma forma de edge play — uma conversa diferente, com riscos assumidos explicitamente. O que não pode acontecer é alguém acreditar que está vivendo uma experiência de conexão profunda quando, na verdade, o outro está respondendo à química e não consegue consentir plenamente com aquilo.
Bar no evento: logística, não incentivo
Harrington também explica por que muitos eventos têm bar. Hotéis frequentemente exigem um mínimo de consumo no bar como cláusula do contrato de conferência; se a meta não é atingida, o valor é acrescentado à conta e o organizador pode ter prejuízo ou não conseguir repetir o evento. Montar um bar na área social é, muitas vezes, uma exigência contratual — e não um convite para beber antes de jogar.
Ele também reconhece que encontros sociais em bares e pubs fazem parte da cultura leather e de diversas cenas locais. A crítica não é à socialização, e sim ao risco de que ela normalize a ideia de que é preciso estar alterado para participar.
O que fica de aprendizado
A mensagem final é de redução de riscos, não de moralismo: seja transparente sobre o que consumiu, combine limites antes da cena, defina palavras de segurança que funcionem mesmo sob estresse e cuide do outro depois. Se o estado alterado compromete a capacidade de negociar ou de perceber sinais do corpo, a recomendação é adiar a prática — não aumentar a dose de coragem.
Segurança
- Nunca use álcool ou drogas para vencer a hesitação em relação a uma prática; a dúvida merece ser conversada, não anestesiada.
- Substâncias alteram a percepção de dor e a capacidade de sinalizar; negocie previamente e informe qualquer medicação em uso.
- Se você ou seu parceiro estão em estado alterado, priorize cuidados básicos, hidratação e um espaço seguro em vez de iniciar uma cena.
- Combine palavras de segurança e um plano de cuidados posteriores antes de qualquer prática com impacto ou restrição.
Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Lee Harrington. Recomendamos a leitura do original.
Discussão
Ainda não há discussão sobre este conteúdo.
Começar a discussão





