O BDSM — sigla inglesa para bondage e disciplina, dominação e submissão e sadomasoquismo — é um tema recorrente na cultura popular. Ele aparece em romances, filmes, séries, videoclipes, revistas, campanhas publicitárias, performances ao vivo e, mais recentemente, em mídias digitais. Este texto reúne exemplos dessa presença e discute por que a forma como o assunto é retratado merece atenção.

Imprensa e revistas

Entre o fim do século 20 e o começo do 21, circularam diversas publicações dedicadas ao tema, produzidas tanto por pequenas editoras independentes quanto por grupos organizados. Muitas encerraram as atividades ou migraram para o formato online. A revista germanófona Schlagzeilen, criada em 1988 como jornal interno de um grupo, segue sendo uma publicação relevante nos países de língua alemã.

Figuras ligadas ao meio também já ocuparam espaço na grande imprensa. Em 2002, um artigo do Washington Post destacou a liderança de Jack McGeorge — analista de munições da Comissão de Monitoramento, Verificação e Inspeção da ONU — na comunidade BDSM e leather de Washington, D.C. A partir disso, comentaristas compararam suas atividades com técnicas de tortura usadas pelo regime de Saddam Hussein no Iraque; outros aproximaram a discriminação sofrida por praticantes de BDSM à situação vivida por homossexuais no passado.

Na Alemanha, a revista feminista EMMA, editada por Alice Schwarzer, conduziu a campanha PorNO contra a pornografia violenta e o ódio às mulheres, defendendo a proibição da pornografia no país. Na argumentação, Schwarzer equipara práticas sadomasoquistas à violência contra a mulher, e sua frase sobre masoquismo feminino como "colaboração" foi bastante criticada por sugerir uma guerra entre os gêneros. A mesma publicação acusou o fotógrafo Helmut Newton de "pornografizar a fotografia de moda". Grupos de apoio e publicações do meio criticam com frequência a cobertura enviesada da imprensa.

Literatura

O sadomasoquismo é tema recorrente na ficção. Entre os clássicos estão História de O, de Anne Desclos (sob o pseudônimo Pauline Réage), Vênus das Peles, de Leopold von Sacher-Masoch, e os quadrinhos de Eric Stanton. Há curiosidades literárias, como a carta de Martha a Leopold Bloom em Ulisses, de James Joyce.

Nine and a Half Weeks: A Memoir of a Love Affair, publicado em 1978 por Ingeborg Day sob o pseudônimo Elizabeth McNeill, serviu de base para o filme 9 Semanas e Meia. Já The River Ophelia (1995), de Justine Ettler, retrata a vida sexual vazia e por vezes violenta de universitários e jovens executivos. Anne Rice assinou, como A. N. Roquelaure, a Trilogia da Bela Adormecida (1983–1985), com temas explícitos de BDSM.

O potencial comercial do assunto ficou evidente em 2006, quando o tabloide alemão Bild lançou, com a Random House, uma coleção de nove volumes: três deles tinham ênfase clara em sadomasoquismo, incluindo Exit to Eden (também de Anne Rice, como Anne Rampling), o clássico História de O e Topping from Below, de Laura Reese.

A trilogia Cinquenta Tons, de E. L. James, levou o tema ao grande público e recebeu reações divididas dentro da própria comunidade: foi elogiada por ampliar a visibilidade, mas criticada por retratar a subcultura de forma imprecisa. Como reação, obras posteriores passaram a dar mais peso a consentimento e autonomia — caso de For the Love of April French, de Penny Aimes. Vale lembrar que, já em 1953, Alfred Kinsey relatou em Sexual Behavior in the Human Female que 12% das mulheres e 22% dos homens diziam ter resposta erótica a histórias sadomasoquistas.

Editoras e livros especializados

Nas últimas décadas surgiram selos dedicados à ficção e à não ficção sobre o tema, como Circlet Press, Daedalus Publishing, Greenery Press e Nexus Books (selo da Virgin Books).

Em 1981, o coletivo Samois publicou Coming to Power: Writing and graphics on Lesbian S/M, reeditado no ano seguinte pela Alyson Publications e distribuído internacionalmente. A obra combinava contos com explicações básicas e dicas de segurança, sendo considerada o primeiro livro introdutório sobre o assunto; seu formato foi adotado por muitas publicações depois.

Entre os títulos de referência estão SM 101, de Jay Wiseman; Screw the Roses, Send Me the Thorns, de Philip Miller e Molly Devon; The New Topping Book e The New Bottoming Book, de Dossie Easton e Janet W. Hardy; The Second Coming: A Leatherdyke Reader, organizado por Patrick Califia e Robin Sweeney; Leatherfolk, editado por Mark Thompson; Kinky Crafts, de Lady Green e Jaymes Easton; Different Loving, de Gloria Brame, William Brame e John Jacobs; Sadomasochism – Powerful Pleasures, de Peggy J. Kleinplatz e Charles Allen Moser; Playing On The Edge, de Staci Newmahr; Techniques of Pleasure, de Margot Weiss; The S&M Feminist, de Clarisse Thorn; Playing Well With Others, de Lee Harrington e Mollena Williams; The History & Arts of the Dominatrix, de Anne O. Nomis; e Welcome to the Darkside, de Rajan Dominari.

Publicidade e moda

Desde o início dos anos 1990, imagens de BDSM aparecem em grandes campanhas publicitárias na Europa continental. Na Alemanha, outdoors das marcas de cigarro Camel e West trouxeram, respectivamente, um camelo em trajes de couro e uma dominatrix com chicote; a West precisou retirar o anúncio sob a alegação de ofensa à moral. Em 2007, a H&M promoveu na televisão alemã uma coleção assinada por Madonna, com a cantora no papel de ícone dominante instruindo uma aluna "inadequadamente" vestida.

No Canadá, a Mini apresentou o pacote de inverno 2005 do Mini Cooper como uma sessão interativa, na qual o usuário testava diferentes instrumentos sobre o carro para conhecer os opcionais, sob o slogan "Dominate winter". Nos Estados Unidos, a Anheuser-Busch patrocinou repetidamente a Folsom Street Fair, e a Diesel veiculou anúncios de temática sadomasoquista em revistas de moda.

Música

A canção "Venus in Furs", do Velvet Underground, inspira-se no livro homônimo de Sacher-Masoch — o próprio nome da banda vem de um livro sobre parafilias. "Sweet Dreams (Are Made of This)", dos Eurythmics, é provavelmente o maior sucesso pop com conotações de BDSM, sobretudo por causa do videoclipe.

Diversas faixas adotam o ponto de vista de quem domina, como "For Your Entertainment" (Adam Lambert), "Control" (Puddle of Mudd), "Erotica" (Madonna) e "Baby Let's Play Rough" (Unknown Hinson); outras falam a partir de quem se submete, como "Alligator Food" (Nedra Johnson) e "Teeth" (Lady Gaga). "Bad Things", de Jace Everett, tema da série True Blood, faz alusão ao universo BDSM.

A banda punk alemã Die Ärzte gravou "Sweet, Sweet Gwendoline", apresentando a personagem homônima a um público amplo; o grupo gótico Umbra et Imago tem uma faixa de mesmo nome. A música industrial concentra muitos temas do gênero, com exemplos como "Ich Tu Dir Weh", do Rammstein, e "Master and Servant", do Depeche Mode. Rihanna explorou o imaginário em "S&M" e na turnê Loud. A lista inclui ainda nomes como 2 Live Crew, Blue Öyster Cult, Green Day, Guns N' Roses ("Pretty Tied Up"), Janet Jackson ("Rope Burn"), Måneskin, Nine Inch Nails e Christina Aguilera, cujo clipe de "Not Myself Tonight" é repleto de imagens agressivas do universo fetichista. O vídeo de "Hurricane", dos Thirty Seconds to Mars, dirigido por Jared Leto sob o pseudônimo Bartholomew Cubbins, foi inicialmente banido em várias emissoras e recebeu três indicações ao MTV Video Music Awards de 2011.

Artes visuais

Nos quadrinhos, destacam-se Adventures of Sweet Gwendoline, de John Willie (publicada na revista Wink entre 1947 e 1950), e a adaptação de Histoire d'O por Guido Crepax (1975). No design gráfico, são referências as obras de Eric Stanton e Hajime S.

Fantasia e prática real

A presença constante do BDSM na cultura popular não transforma filmes, clipes ou campanhas em manuais. A representação midiática costuma privilegiar o espetáculo, enquanto a prática efetiva se apoia em conversa prévia, limites combinados, palavras de segurança e cuidados posteriores. Eventos públicos como a Folsom Street Fair e performances em festivais, como a do grupo Umbra et Imago no Wave Gotik Treffen de 2014, mostram que o tema também ocupa o espaço do entretenimento e da sociabilidade — sempre entre adultos que consentiram.

Segurança

  • Cenas de BDSM em filmes, clipes e publicidade são fantasia: não servem como manual de prática.
  • Toda prática deve envolver adultos consententes, com limites negociados antes e palavras de segurança combinadas.
  • Reserve tempo para os cuidados posteriores (aftercare) e para conversar sobre o que funcionou ou não.
  • Não reproduza técnicas vistas em vídeos ou imagens sem conhecer os riscos e as formas seguras de executá-las.
Fonte original

Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Wikipedia (EN) - BDSM (CC BY-SA 4.0). Recomendamos a leitura do original.

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