Por que estudar ficção sobre dor e prazer

O interesse por temas sadomasoquistas na literatura não é curiosidade recente nem fenômeno restrito a um nicho: pesquisadores já se debruçaram sobre o assunto. O psiquiatra Anthony Storr observou que o volume de material pornográfico com temática sadomasoquista indicaria que esse interesse é bastante difundido na sociedade ocidental. Já o crítico John Kucich destacou o peso do masoquismo na ficção colonial britânica do fim do século XIX.

Este texto percorre, em ordem cronológica, obras de ficção que trataram de disciplina, dominação e submissão — do século XVII ao início do século XX. Muitos desses títulos circularam como literatura clandestina ou pornográfica em sua época, e vários descrevem violências que hoje seriam inaceitáveis. Ler esse acervo com olhar crítico é parte do exercício.

Antes do século XIX: os primeiros registros

Um dos textos mais antigos citados é o diálogo latino de Nicolas Chorier, publicado em 1660 e depois traduzido como A Dialogue between a Married Woman and a Maid. Nele, uma mulher mais velha instrui uma mais jovem e recomenda os supostos benefícios espirituais e eróticos dos açoites.

Em 1749, Fanny Hill, de John Cleland, traz cenas de flagelação mútua. O detalhe interessante é a transição de mentalidade que a obra registra: o açoite deixa de ser visto apenas como estimulante para o desempenho sexual e passa a ser encarado como atividade com valor próprio.

Pouco depois, por volta de 1750, Fashionable Lectures reúne palestras ficcionais atribuídas a mulheres dominantes em posições de autoridade, sempre em torno do tema da disciplina com varas.

O marco mais conhecido é o do Marquês de Sade (1740–1814), nobre francês preso por sua libertinagem e por escrever romances como Justine (1791) e Juliette (1797). Sua obra associa prazer sexual a infligir dor, humilhação e crueldade — e é dela que vem o termo "sadismo". Em 1798, Nicolas-Edme Rétif publicou Anti-Justine, uma resposta política em sentido oposto, mas escrita em estilo semelhante.

Século XIX: a era dos folhetins de disciplina

O século XIX foi prolífico. The Lustful Turk (1828) ganhou notoriedade ao ser reeditado em 1893 e rendeu até uma adaptação cinematográfica exploitation em 1968. Exhibition of Female Flagellants (1830), atribuído provavelmente de forma falsa a Theresa Berkley, descreve a flagelação entre mulheres em estilo teatral e fetichista.

A partir de 1866 aparecem títulos como The New Ladies' Tickler, de Edward Sellon, e The Romance of Chastisement, assinado pelo provável pseudônimo St George Stock. Seguem-se Revelries! and Devilries!! (1867), Personal Recollections of the Use of the Rod (1868) — escrito por James Glass Bertram sob nome feminino, recurso comum no gênero — e Flagellation & the Flagellants (1868), que se tornou um best-seller clandestino.

O livro mais influente do período, porém, é Venus in Furs (1870), de Leopold von Sacher-Masoch: um romance autobiográfico em que o protagonista convence sua amante a escravizá-lo e maltratá-lo. Dele vem o termo "masoquismo". O autor explorou o tema da dominação feminina em várias outras obras.

A lista continua com The Romance of Lust (1873–1876), The Convent School (1876), Experimental Lecture (1878–1879), Miss Coote's Confession (1879–1880) e The Mysteries of Verbena House (1882). Há também The Whippingham Papers (1888), com versos atribuídos a Algernon Charles Swinburne, The Yellow Room (1891), Gynecocracy (1893), A Full and True Account of the Wonderful Mission of Earl Lavender (1895), de John Davidson, e Tales of Fun and Flagellation (1896).

Nem tudo era literatura de circulação restrita. Em Os Irmãos Karamazov (1880), Dostoiévski coloca na boca de uma personagem uma fala sobre o gosto de castigar meninas — um retrato crítico e desconfortável da crueldade social. Já O Jardim dos Suplícios (1899), de Octave Mirbeau, usa a violência como alegoria sobre a sociedade ocidental e a condição humana.

Vale registrar que vários desses enredos incluem sequestros, estupros e castigos apresentados como diversão — temas que hoje seriam inaceitáveis e que, na época, alimentavam o mercado pornográfico. A ficção contemporânea de BDSM se distancia justamente desse modelo ao colocar o consentimento no centro.

Século XX: continuidade e novas camadas

O novo século abre com "Frank" and I (1902), romance eduardiano sobre um homem apaixonado pela vara que acolhe uma jovem disfarçada de rapaz — adaptado para o cinema em 1983 sob os títulos Frank and I e Lady Libertine. Seguem-se Woman and Her Master (1904), de Jean de Villiot, e La Flagellation Passionnelle (1906), de Paul Guérard, autor que assinou cerca de uma centena de obras do tipo entre 1903 e 1936.

Guillaume Apollinaire escreveu Les Onze Mille Verges por volta de 1906–1907, edição sem assinatura nem data; Picasso teria dito que era o melhor livro que já lera. Sadopaideia (1907) narra a trajetória de um personagem que experimenta tanto a dominação quanto a submissão. The Beautiful Flagellants of New York (1907) e The Way of a Man with a Maid (cerca de 1908) — este adaptado ao cinema em 1975 como What the Swedish Butler Saw — completam o quadro.

Pierre Mac Orlan, sob pseudônimos, publicou títulos populares entre 1905 e 1913, incluindo relatos de disciplina em internatos. Paul Guérard, como Don Brennus Aléra, escreveu Fred: The True History of a Boy Raised as a Girl (1913) e suas continuações, retratando humilhação e roupas femininas impostas. E James Joyce levou temas masoquistas para a alta literatura: o capítulo "Circe" de Ulysses (1922) é o exemplo mais citado.

Cinema, teatro e outras mídias

O levantamento original também mapeia filmes de grande circulação, programas de televisão, peças de teatro, poesia, música e ópera que tocaram no tema. Adaptações cinematográficas de romances vitorianos, como as citadas acima, mostram como esse imaginário migrou do mercado clandestino para a cultura de massa ao longo do século XX.

Ficção não é manual de prática

É importante separar literatura de prática real. As obras aqui mencionadas são documentos históricos e artísticos, muitas vezes escritos para chocar ou excitar — e retratam, em boa parte, violência sem consentimento. BDSM praticado hoje se apoia em princípios opostos: negociação prévia detalhada, consentimento contínuo e revogável, palavras de segurança combinadas e cuidados posteriores (aftercare) para todos os envolvidos.

Para quem quer continuar a pesquisa

Uma boa porta de entrada é ler esses títulos acompanhados de comentário crítico, atentando para o contexto de publicação, a censura da época e as convenções do gênero. Entender de onde vêm os termos "sadismo" e "masoquismo" ajuda a compreender por que a cultura kink contemporânea faz questão de se definir em outro vocabulário: o do acordo mútuo, e não o da crueldade.

Segurança

  • As obras citadas são ficção histórica e muitas retratam violência sem consentimento; não servem como modelo de prática.
  • Práticas de BDSM reais exigem negociação prévia, consentimento contínuo, palavras de segurança e cuidados posteriores.
  • Conteúdo destinado a pessoas adultas.
Fonte original

Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Wikipedia (EN) - BDSM (CC BY-SA 4.0). Recomendamos a leitura do original.

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