# BDSM na ficção: um passeio pela história literária do sadomasoquismo

> Da libertinagem do século XVII aos romances vitorianos de disciplina, a ficção sempre flirtou com dor, poder e prazer. Um panorama histórico da literatura que deu origem aos termos 'sadismo' e 'masoquismo'.

- Tema: Livros
- Tags: literatura, história, ficção, sade, sacher-masoch, livros, cultura
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- Fonte original: Wikipedia (EN) - BDSM (https://en.wikipedia.org/wiki/Sadism_and_masochism_in_fiction)
- Atualizado: 2026-10-29

## Por que estudar ficção sobre dor e prazer

O interesse por temas sadomasoquistas na literatura não é curiosidade recente nem fenômeno restrito a um nicho: pesquisadores já se debruçaram sobre o assunto. O psiquiatra Anthony Storr observou que o volume de material pornográfico com temática sadomasoquista indicaria que esse interesse é bastante difundido na sociedade ocidental. Já o crítico John Kucich destacou o peso do masoquismo na ficção colonial britânica do fim do século XIX.

Este texto percorre, em ordem cronológica, obras de ficção que trataram de disciplina, dominação e submissão — do século XVII ao início do século XX. Muitos desses títulos circularam como literatura clandestina ou pornográfica em sua época, e vários descrevem violências que hoje seriam inaceitáveis. Ler esse acervo com olhar crítico é parte do exercício.

## Antes do século XIX: os primeiros registros

Um dos textos mais antigos citados é o diálogo latino de Nicolas Chorier, publicado em 1660 e depois traduzido como *A Dialogue between a Married Woman and a Maid*. Nele, uma mulher mais velha instrui uma mais jovem e recomenda os supostos benefícios espirituais e eróticos dos açoites.

Em 1749, *Fanny Hill*, de John Cleland, traz cenas de flagelação mútua. O detalhe interessante é a transição de mentalidade que a obra registra: o açoite deixa de ser visto apenas como estimulante para o desempenho sexual e passa a ser encarado como atividade com valor próprio.

Pouco depois, por volta de 1750, *Fashionable Lectures* reúne palestras ficcionais atribuídas a mulheres dominantes em posições de autoridade, sempre em torno do tema da disciplina com varas.

O marco mais conhecido é o do Marquês de Sade (1740–1814), nobre francês preso por sua libertinagem e por escrever romances como *Justine* (1791) e *Juliette* (1797). Sua obra associa prazer sexual a infligir dor, humilhação e crueldade — e é dela que vem o termo "sadismo". Em 1798, Nicolas-Edme Rétif publicou *Anti-Justine*, uma resposta política em sentido oposto, mas escrita em estilo semelhante.

## Século XIX: a era dos folhetins de disciplina

O século XIX foi prolífico. *The Lustful Turk* (1828) ganhou notoriedade ao ser reeditado em 1893 e rendeu até uma adaptação cinematográfica exploitation em 1968. *Exhibition of Female Flagellants* (1830), atribuído provavelmente de forma falsa a Theresa Berkley, descreve a flagelação entre mulheres em estilo teatral e fetichista.

A partir de 1866 aparecem títulos como *The New Ladies' Tickler*, de Edward Sellon, e *The Romance of Chastisement*, assinado pelo provável pseudônimo St George Stock. Seguem-se *Revelries! and Devilries!!* (1867), *Personal Recollections of the Use of the Rod* (1868) — escrito por James Glass Bertram sob nome feminino, recurso comum no gênero — e *Flagellation & the Flagellants* (1868), que se tornou um best-seller clandestino.

O livro mais influente do período, porém, é *Venus in Furs* (1870), de Leopold von Sacher-Masoch: um romance autobiográfico em que o protagonista convence sua amante a escravizá-lo e maltratá-lo. Dele vem o termo "masoquismo". O autor explorou o tema da dominação feminina em várias outras obras.

A lista continua com *The Romance of Lust* (1873–1876), *The Convent School* (1876), *Experimental Lecture* (1878–1879), *Miss Coote's Confession* (1879–1880) e *The Mysteries of Verbena House* (1882). Há também *The Whippingham Papers* (1888), com versos atribuídos a Algernon Charles Swinburne, *The Yellow Room* (1891), *Gynecocracy* (1893), *A Full and True Account of the Wonderful Mission of Earl Lavender* (1895), de John Davidson, e *Tales of Fun and Flagellation* (1896).

Nem tudo era literatura de circulação restrita. Em *Os Irmãos Karamazov* (1880), Dostoiévski coloca na boca de uma personagem uma fala sobre o gosto de castigar meninas — um retrato crítico e desconfortável da crueldade social. Já *O Jardim dos Suplícios* (1899), de Octave Mirbeau, usa a violência como alegoria sobre a sociedade ocidental e a condição humana.

Vale registrar que vários desses enredos incluem sequestros, estupros e castigos apresentados como diversão — temas que hoje seriam inaceitáveis e que, na época, alimentavam o mercado pornográfico. A ficção contemporânea de BDSM se distancia justamente desse modelo ao colocar o consentimento no centro.

## Século XX: continuidade e novas camadas

O novo século abre com *"Frank" and I* (1902), romance eduardiano sobre um homem apaixonado pela vara que acolhe uma jovem disfarçada de rapaz — adaptado para o cinema em 1983 sob os títulos *Frank and I* e *Lady Libertine*. Seguem-se *Woman and Her Master* (1904), de Jean de Villiot, e *La Flagellation Passionnelle* (1906), de Paul Guérard, autor que assinou cerca de uma centena de obras do tipo entre 1903 e 1936.

Guillaume Apollinaire escreveu *Les Onze Mille Verges* por volta de 1906–1907, edição sem assinatura nem data; Picasso teria dito que era o melhor livro que já lera. *Sadopaideia* (1907) narra a trajetória de um personagem que experimenta tanto a dominação quanto a submissão. *The Beautiful Flagellants of New York* (1907) e *The Way of a Man with a Maid* (cerca de 1908) — este adaptado ao cinema em 1975 como *What the Swedish Butler Saw* — completam o quadro.

Pierre Mac Orlan, sob pseudônimos, publicou títulos populares entre 1905 e 1913, incluindo relatos de disciplina em internatos. Paul Guérard, como Don Brennus Aléra, escreveu *Fred: The True History of a Boy Raised as a Girl* (1913) e suas continuações, retratando humilhação e roupas femininas impostas. E James Joyce levou temas masoquistas para a alta literatura: o capítulo "Circe" de *Ulysses* (1922) é o exemplo mais citado.

## Cinema, teatro e outras mídias

O levantamento original também mapeia filmes de grande circulação, programas de televisão, peças de teatro, poesia, música e ópera que tocaram no tema. Adaptações cinematográficas de romances vitorianos, como as citadas acima, mostram como esse imaginário migrou do mercado clandestino para a cultura de massa ao longo do século XX.

## Ficção não é manual de prática

É importante separar literatura de prática real. As obras aqui mencionadas são documentos históricos e artísticos, muitas vezes escritos para chocar ou excitar — e retratam, em boa parte, violência sem consentimento. BDSM praticado hoje se apoia em princípios opostos: negociação prévia detalhada, consentimento contínuo e revogável, palavras de segurança combinadas e cuidados posteriores (aftercare) para todos os envolvidos.

## Para quem quer continuar a pesquisa

Uma boa porta de entrada é ler esses títulos acompanhados de comentário crítico, atentando para o contexto de publicação, a censura da época e as convenções do gênero. Entender de onde vêm os termos "sadismo" e "masoquismo" ajuda a compreender por que a cultura kink contemporânea faz questão de se definir em outro vocabulário: o do acordo mútuo, e não o da crueldade.

## Segurança

- As obras citadas são ficção histórica e muitas retratam violência sem consentimento; não servem como modelo de prática.
- Práticas de BDSM reais exigem negociação prévia, consentimento contínuo, palavras de segurança e cuidados posteriores.
- Conteúdo destinado a pessoas adultas.
