# Código Penal Modelo dos EUA e BDSM: avanço no consentimento

> Em 2021, o American Law Institute aprovou uma revisão do Código Penal Modelo sobre agressão sexual que reconhece a permissão prévia explícita em práticas BDSM consensuais e reforça o consentimento como elemento central.

- Tema: Leis e direitos
- Tags: bdsm, consentimento, direito, eua, segurança, ncsf
- URL: https://arcanobdsm.com.br/a/codigo-penal-modelo-dos-eua-e-bdsm-avanco-no-consentimento
- Fonte original: NCSF - National Coalition for Sexual Freedom (https://ncsfreedom.org/2021/07/15/consent-counts-2)
- Atualizado: 2026-10-28

Em 15 de julho de 2021, a National Coalition for Sexual Freedom (NCSF) divulgou que o American Law Institute (ALI) havia aprovado a revisão do Código Penal Modelo sobre agressão sexual. O documento é uma referência para legisladores e tribunais, e não uma lei federal que passa a valer automaticamente em todos os estados. Ainda assim, a mudança tem peso jurídico e simbólico: a Seção 213.10 passa a prever uma defesa afirmativa baseada na permissão prévia explícita para atividades BDSM consensuais que não resultem em lesão grave.

## O que a permissão prévia explícita exige

Segundo o texto aprovado, a permissão deve ser dada por adultos com capacidade de consentir, antes do início das atividades, de forma oral ou por acordo escrito. Ela precisa especificar:

- quais formas de resistência encenada são permitidas, como expressões de relutância durante uma simulação;

- quais tipos e intensidades de força erótica, contenção ou ameaças estão autorizados;

- quais palavras ou gestos podem retirar a permissão a qualquer momento.

Esse terceiro ponto é especialmente relevante para a lógica das palavras de segurança. O reconhecimento jurídico da permissão prévia explícita procura distinguir práticas realmente consensuais de condutas não consensuais ou danosas, dando às pessoas que praticam BDSM um quadro mais claro para negociar limites antes de começar.

## Limites da proteção

A defesa não transforma qualquer prática em conduta automaticamente protegida. Ela está ligada ao consentimento real e à ausência de lesão grave. Se uma palavra de segurança for ignorada ou se houver dano sério, a proteção não deve ser aplicada, e o caso pode ser investigado e processado. A NCSF destaca que o modelo também ajuda a equipar a persecução penal quando limites são violados ou quando ocorre dano relevante.

## Impacto para quem pratica

De acordo com a NCSF, antes dessa revisão nenhum tribunal de apelação nos Estados Unidos havia aceitado o consentimento como defesa em processo criminal de agressão ou abuso originado de conduta BDSM. A entidade também criticou decisões que trataram recursos como grampos de mamilo ou cera quente como lesão corporal grave, embora sejam vistos na comunidade como práticas de risco relativamente baixo quando bem negociadas e acompanhadas. A mudança busca oferecer uma estrutura legal mais adequada para casos envolvendo BDSM.

A Seção 213.10 pode ser citada em opiniões e memoriais em processos sobre atividades BDSM, mesmo em estados que ainda não adotaram o Código Penal Modelo. Isso pode reduzir uma das principais barreiras para denunciar à polícia. Em pesquisa da NCSF de 2015, menos de 3% das 1.041 pessoas que relataram experiências não consensuais em contexto BDSM procuraram a polícia. O reconhecimento legal também pode ampliar a proteção das chamadas leis de escudo contra estupro, que em geral impedem o uso do histórico sexual prévio da vítima como evidência, diminuindo a exposição ao estigma associado ao kink.

## Consentimento em sentido mais amplo

A revisão inclui ainda uma definição geral de consentimento para atividade sexual. O consentimento pode ser inferido a partir do comportamento, incluindo ação ou inação, considerando o contexto. A ausência de resistência verbal ou física não significa consentimento. Além disso, o consentimento é inválido quando a pessoa não tem capacidade para consentir ou quando as circunstâncias impedem o exercício livre da vontade. A NCSF lembra que mais de 20 estados não tinham definição de consentimento em suas leis de agressão sexual, e que não existe uma definição legal uniforme sobre o tema segundo a RAINN.

## Consent Counts e a construção da mudança

O projeto Consent Counts foi criado em 2006, no Leather Caucus da conferência Creating Change, da NGLTF. A NCSF assumiu o projeto em 2007 e ampliou sua missão para trabalhar pela descriminalização de condutas sexuais entre adultos consenting. O advogado Dick Cunningham, conselheiro jurídico da NCSF e participante do ALI, foi um dos envolvidos no processo de revisão. A NCSF afirma ter participado desse trabalho por mais de seis anos e ter sido reconhecida no relatório do ALI por suas contribuições.

## Cuidados na prática

Respaldo jurídico em um código modelo não substitui negociação, avaliação de riscos, formação e cuidados posteriores. Práticas com cordas, contenção, impacto ou calor exigem técnica, higiene e atenção a sinais físicos e emocionais. Combine palavras ou gestos de interrupção antes de começar, verifique o estado da pessoa durante a cena e reserve tempo para checagens e acolhimento depois. Tudo deve ocorrer entre adultos capazes de consentir, com limites claros e possibilidade real de retirada do consentimento a qualquer momento. Este texto é informativo e não substitui orientação jurídica ou de saúde individual.

## Segurança

- Consentimento deve ser negociado antes, com limites claros e palavras ou gestos de segurança acordados.
- Interrompa imediatamente se a retirada do consentimento for sinalizada; faça checagens e cuidados posteriores.
- Práticas de risco exigem conhecimento técnico, higiene e avaliação de riscos; na dúvida, não prossiga.
- O conteúdo é informativo, aplica-se apenas a adultos e não substitui orientação jurídica ou de saúde individual.
