# Fuzoku Kitan de setembro de 1961: retrato de uma revista fetichista japonesa

> A edição de setembro de 1961 da revista Fuzoku Kitan, hoje arquivada no site Kinbaku Today, mistura ensaios fotográficos de cordas, ficção ilustrada, relatos pessoais e cartas de leitores, oferecendo um panorama raro da imprensa fetichista japonesa do pós-guerra.

- Tema: História
- Tags: história do bdsm, japão, kinbaku, revistas fetichistas, anos 1960, arquivo, cultura erótica
- URL: https://arcanobdsm.com.br/a/fuzoku-kitan-de-setembro-de-1961-retrato-editorial-do-sm-japones
- Fonte original: Kinbaku Today (https://www.kinbakutoday.com/sm-issue/september-1961?flipbook_page=110)
- Atualizado: 2026-10-31

## Um documento de época digitalizado

O arquivo digital do site **Kinbaku Today** mantém uma ficha detalhada da edição de **setembro de 1961** da revista japonesa **Fuzoku Kitan**, com 133 páginas em PDF. A página funciona como um guia de leitura: descreve seções, lista os colaboradores e resume cada bloco da publicação. O interesse do material é histórico — trata-se de uma amostra do que circulava na imprensa erótica japonesa no início dos anos 1960, quando fotografia, ilustração, ficção e correspondência de leitores conviviam num mesmo volume.

Vale lembrar o enquadramento: o conteúdo original pertence a outra época, com vocabulário, sensibilidades e limites editoriais muito distintos dos atuais. Ler esse tipo de acervo exige distância crítica, sobretudo porque parte das imagens e narrativas da época recorria a cenários de coerção e humilhação como recurso de fantasia, sem qualquer noção moderna de consentimento explícito.

## A abertura é quase toda visual

A edição começa com um ensaio fotográfico intitulado *Poses of Bondage*, que percorre cenas de cordas em ambientes domésticos e ao ar livre — salas com tatame, pilhas de lenha, margens de rio, jardins —, com variações de posição, vendas nos olhos e restrições sensoriais. Em seguida vem um caderno ilustrado em tons sépia e um conjunto de imagens ocidentais atribuídas, no sumário, ao ilustrador **Luis Avila**.

Essa sequência inicial estabelece a linguagem visual dominante do número: a corda como elemento cênico, o corpo posado como centro da composição. É uma estética de estúdio, encenada, que hoje interessa tanto a pesquisadores de fotografia quanto a estudiosos da história do shibari e do fetichismo impresso.

## O bloco editorial central

O coração da revista é o conjunto de textos reunidos sob o título *Men and Women Intoxicated by Sadomasochistic Play*. Em vez de defender uma tese única, a seção justapõe gêneros diferentes: ensaio, ficção ilustrada, crônica pessoal, observação de costumes e material quase sexológico. Entre os nomes listados estão **Ōdachi Kinji**, **Shishimura Yutaka**, **Kurihashi Shingo**, **Ichinose Etsuko**, **Kasahara Mitsuo** e **Kanno Chiyoko**.

Os temas tratados vão do papel psicológico e social do jogo tido como "anormal" à competição física encenada, passando por relatos sobre dor, marcas corporais e práticas de risco corporal, como a aplicação de moxa e a lavagem intestinal. Esses dois últimos pontos merecem cautela: são procedimentos com potencial real de lesão, que exigem conhecimento técnico e sanitário, e não devem ser reproduzidos a partir de descrições de revista antiga.

## História, importações e ficção

A revista amplia o repertório em duas direções. No eixo histórico, **Sengoku Sentarō** assina uma retrospectiva sobre pessoas submetidas a tormento e execução em períodos anteriores do Japão, com ilustrações de punições oficiais — inclusive episódios ligados à perseguição a cristãos clandestinos. No eixo internacional, um ensaio fotográfico apresenta a modelo americana **Bettie Page** como referência ocidental do imaginário masoquista, com imagens importadas de bondage, botas e cenas entre mulheres.

A parte literária inclui narrativas ficcionais assinadas por **Hai Geitei**, **Oikawa Jun** e **Aoyama Mie** — esta última com o quinto capítulo da série *Wandering in Ecstatic Torment*, centrada em memória, marcas no corpo e compulsão. São textos de fantasia, escritos para excitar e chocar, e devem ser lidos como ficção de época, não como modelo de relação.

## Leitores, anúncios e economia editorial

O fechamento muda de registro. A seção *Reader Salon* reúne páginas de cartas, perguntas e experiências enviadas pelo público, evidenciando que a revista funcionava também como espaço comunitário de troca. Na sequência aparecem avisos de números anteriores, catálogos de fotos por modelo, anúncios de livros e um convite à submissão de manuscritos, relatos, ilustrações e fotografias, com menção a concursos fotográficos.

Esse conjunto mostra que a publicação não era um objeto isolado, mas o centro de uma rede: leitores que escrevem, fotógrafos que produzem sob encomenda, editores que vendem acervos por correspondência. É exatamente esse ecossistema que torna a ficha do arquivo útil para quem pesquisa a circulação de material fetichista no Japão do século XX.

## Como ler esse acervo hoje

A edição de setembro de 1961 combina fotografia de cordas, dominação feminina, resistência física, confissão fetichista, punição histórica e participação de leitores. Para o leitor atual, o valor está em observar como uma cultura impressa organizava desejos e fantasias muito antes da internet — e em reconhecer, ao mesmo tempo, o quanto o debate contemporâneo sobre consentimento, negociação e cuidado posteriores transformou a forma de praticar e de representar tudo isso.

## Segurança

- As cenas descritas na revista são encenadas e pertencem a uma estética de fantasia dos anos 1960; não servem como modelo de prática real.
- Práticas de risco corporal citadas na fonte, como moxabustão e lavagem intestinal, exigem conhecimento técnico e sanitário e não devem ser tentadas sem orientação adequada.
- Práticas com cordas devem envolver negociação prévia, palavras de segurança combinadas, atenção à circulação sanguínea e Neurológica e cuidado posteriores.
- Narrativas ficcionais de coerção não representam consentimento; consentimento precisa ser livre, informado e revogável a qualquer momento.
