# Fūzoku Sōshi, setembro de 1953: a corda virando vocabulário no Japão

> A edição de setembro de 1953 da revista japonesa Fūzoku Sōshi reúne fotos, diagramas e ficções que organizam bondage e SM em técnicas e categorias, revelando como o vocabulário da corda se formou no pós-guerra.

- Tema: História
- Tags: história do bdsm, japão, kinbaku, revistas vintage, shibari, pós-guerra
- URL: https://arcanobdsm.com.br/a/fuzoku-soshi-de-1953-quando-o-sm-japones-ganhou-vocabulario
- Fonte original: Kinbaku Today (https://www.kinbakutoday.com/sm-issue/september-1953?flipbook_page=92)
- Atualizado: 2026-11-02

## Uma revista que misturava tudo

O arquivo digital mantido pelo site Kinbaku Today preserva exemplares da revista japonesa **Fūzoku Sōshi** (algo como "revista de costumes"), publicação do pós-guerra que serviu de laboratório para o imaginário erótico japonês. O número de **setembro de 1953**, com mais de 150 páginas digitalizadas, é apontado pelo arquivo como um dos exemplos mais nítidos de como a publicação passou a reunir, sob um mesmo teto, bondage, castigos corporais, relatos policiais, histórias de punição, desejo entre pessoas do mesmo sexo e textos de aconselhamento erótico para leitores.

O que chama atenção é a ausência de fronteiras que hoje parecem óbvias: arte, fantasia, patologia e violência aparecem lado a lado, em atrito constante. A corda funciona ao mesmo tempo como técnica, imagem, recurso narrativo, prova documental e símbolo erótico. É justamente essa mistura que faz da edição uma fonte valiosa para quem estuda a formação da cultura SM japonesa.

## A capa e o corpo como catálogo visual

A abertura já anuncia as prioridades da revista: a capa envolve uma figura feminina seminu em uma colagem de formas grotescas e fantásticas, e a primeira prancha colorida mostra uma mulher amarrada em pé a um poste de madeira. Na sequência, a série de ilustrações assinada por **Kita Reiko** organiza mulheres em posições contrastantes — suspensão, ajoelhamento, inversão, compressão. O corpo deixa de pertencer a uma história individual para compor um repertório de arranjos que o leitor pode comparar.

Esse impulso classificatório aparece também na reportagem fotográfica "Belos Amarrados", cujas legendas nomeiam situações e técnicas: *ushirode* (mãos presas atrás das costas), *oshioki* (castigo) e *kagami-zeme* (tormento diante do espelho). A sequência vai do chão — com uma mulher controlando outra — até uma figura amordaçada diante do espelho. A corda é apresentada como prática e como composição: postura, cenário, roupa, nudez e a direção do olhar da modelo produzem significados distintos.

## A corda como técnica especializada

O ponto central da edição, segundo o arquivo, é o artigo **"Quinze modos de amarrar o corpo feminino"**, atribuído a **Itō Seiu**. Com diagramas e explicações curtas, ele sistematiza posições — mãos atrás das costas, restrições sentadas, configurações de pernas, suspensão, inversão e formas pensadas para imobilizar ou expor áreas específicas do corpo. É um passo decisivo: a corda deixa de ser adereço de punição e se torna um campo de conhecimento técnico, com vocabulário próprio.

Vale notar que o próprio arquivo descreve o artigo como uma discussão sobre efeitos práticos **e riscos** — algo incomum para publicações da época, e um lembrete de que suspensões e imobilizações exigem aprendizado técnico, nunca improviso.

## Ficção, crime e patologia

As narrativas de ficção da edição constroem mundos em torno dessa gramática visual:

- histórias de humilhação, com personagens femininas levadas a situações de degradação, chantagem e perigo físico;

- relatos em primeira pessoa apresentados como confissão ou caso clínico, misturando fetiche, nojo e obsessão;

- tramas rotuladas como "abuso extático", em que prazer e crueldade aparecem entrelaçados já no título;

- reportagens sobre interrogatórios policiais, execuções e cenas de crime, que emprestam autoridade documental às imagens de contenção.

O padrão é importante para a leitura histórica: a coerção é atribuída a vilões, exploradores, policiais ou ambientes sociais corruptos, frequentemente com desfecho moralizante. Ou seja, a revista exibe a violência, mas a nomeia como crime ou desvio. Nada disso deve ser transposto para a prática real — consentimento, negociação prévia e limites claros são o que separam fantasia encenada de violência.

## Vozes dissidentes e coluna de leitoras

A edição dedica bastante espaço ao desejo entre pessoas do mesmo sexo: um conto histórico ambientado nas intrigas do período Edo, uma ficção sobre a vida social masculina em um apartamento de Ginza e a história de um casamento abalado pelo desejo homossexual do marido. Há ainda a coluna **Lesbos Correspondence**, um espaço de cartas voltado ao público feminino. Juntas, essas matérias mostram a revista como ponto de encontro de públicos estigmatizados, algo relevante para entender a circulação de identidades eróticas antes da internet.

## Estações, tempo e erotismo

Entre as contribuições visuais mais celebradas está **"Os doze meses de Reiko: Lua"**, de Kita Reiko. Em duas páginas, mulheres aparecem amarradas em quimonos — uma sob controle de uma figura masculina, outra exposta ao relento sob a lua. O título sazonal transforma o bondage em tableau atmosférico, no qual ambiente e tempo alteram o sentido do corpo. É a lógica dos calendários de punição, deslocada para uma revista erótica seriada.

O número inclui ainda um ensaio fotográfico sobre palmadas e impactos no corpo, ampliando o *seme* para além da corda, e termina com matérias sobre o Grande Terremoto de Kantō, uma figura histórica da nobreza japonesa e um glossário de "costumes anormais" — reforçando o papel da publicação como enciclopédia popular de comportamentos proibidos.

## Por que essa edição importa hoje

Para quem pesquisa a história do kinbaku, setembro de 1953 marca um estágio maduro: a revista não apenas toma emprestadas imagens de punição da crônica policial ou da pornografia, mas organiza ativamente o bondage em categorias, técnicas, séries e personas. É o momento em que uma cultura SM japonesa começa a ser nomeada, fotografada, classificada e distribuída.

Ao ler esse material, porém, é essencial separar documento histórico de manual de prática. Práticas atuais de corda dependem de consentimento explícito, negociação de limites, palavras de segurança combinadas e cuidados posteriores; suspensões exigem treinamento específico e supervisão, dado o risco de lesões nervosas e quedas.

## Segurança

- O conteúdo da revista de 1953 é histórico e ficcional: cenas de coerção não devem ser reproduzidas em prática real.
- Qualquer prática de corda exige consentimento prévio, negociação de limites e palavras de segurança combinadas.
- Suspensão e imobilização envolvem risco de lesão nervosa e queda; requerem treinamento técnico e supervisão.
- Cuidados posteriores (aftercare) são parte essencial da prática, tanto física quanto emocionalmente.
