# Gaho Fuzoku Kitan nº 5 (1960): um arquivo da imprensa fetichista japonesa

> O quinto número da revista japonesa Gaho Fuzoku Kitan, de outubro de 1960, reúne fotografia de cordas, ilustração erótica, literatura libertina e reportagem sensacionalista. O arquivo digital permite estudar a estética e os limites éticos desse material histórico.

- Tema: História
- Tags: história do bdsm, japão, revistas vintage, kinbaku, arquivo, ero-guro, cultura fetichista
- URL: https://arcanobdsm.com.br/a/gaho-fuzoku-kitan-n-5-1960-um-arquivo-da-imprensa-fetichista-japonesa
- Fonte original: Kinbaku Today (https://www.kinbakutoday.com/sm-issue/october-1960)
- Atualizado: 2026-11-02

## Uma revista, um recorte de época

O site Kinbaku Today mantém um arquivo comentado de publicações japonesas ligadas a cordas e fetichismo. Um dos verbetes disponíveis descreve o quinto número de **Gaho Fuzoku Kitan**, datado de **outubro de 1960** e digitalizado em **127 páginas**. O título pode ser traduzido livremente como algo próximo de "registro ilustrado de costumes incomuns", o que já indica o tom: uma publicação de variedades adultas que mistura fotografia, ilustração, ficção traduzida e reportagem.

Vale situar o leitor: o Japão do pós-guerra viu florescer uma imprensa popular de baixo custo, voltada a um público adulto masculino, na qual conviviam erotismo, grotesco, crime e folclore urbano. A chamada tradição *ero-guro-nansensu* (erótico-grotesco-nonsense), forte nas décadas de 1920 e 1930, reaparece ali reciclada em papel barato e tiragens modestas. Ler esses números hoje é, antes de tudo, um exercício de história cultural.

## Como o número está organizado

Segundo a descrição do arquivo, a edição se abre com um caderno colorido de modelos amarradas em cenários de pedra desgastada, interiores sombreados, jardins e varandas. Em seguida, o conteúdo se divide em três grandes blocos fotográficos, portfólios ilustrados, adaptações literárias, textos documentais e ficção histórica.

- **Primeiro bloco fotográfico:** poses sobre tatame, junto a plantas, em um balcão de bar, contra pilares e cadeiras. A corda aparece não só como imobilização, mas como linha de composição que emoldura o tronco e conecta o corpo à arquitetura.

- **Segundo bloco:** encenação mais teatral, com plataformas, correntes, árvores, cestos e dispositivos de madeira improvisados. As poses variam entre posições no chão, restrição em pé, arqueamento para trás e posturas deliberadamente instáveis.

- **Terceiro bloco:** interiores modernos — um piano, salas de tatame, banheiros azulejados, mobiliário em penumbra —, com vendas, pressões e um clima de interrogação encenada.

Entre os blocos, há interlúdios ilustrados assinados por **Tagami Keiko** e **Ema Miku**, com desenhos de aparelhos e situações extremas: suspensões, dispositivos de roldanas e cenas de ameaça. São imagens de fantasia, não registros de prática.

## Fotografia de cordas como linguagem visual

O aspecto mais interessante para quem estuda *shibari* é a maneira como a revista trata a corda como elemento gráfico. O texto de apresentação fala de melancolia, solitude e imobilidade — uma estética do silêncio que antecede boa parte da produção iconográfica posterior. Modelos em ambientes domésticos comuns, luz difusa e legendas poéticas constroem uma atmosfera contemplativa que hoje reconhecemos como precursora do imaginário moderno da corda japonesa.

É importante não confundir essa encenação editorial com didática. As imagens não ensinam técnicas seguras, não documentam negociação e não informam o nome ou o consentimento das modelos — algo raro na imprensa da época. Trata-se de produto comercial, não de manual.

## Literatura, grotesco e violência encenada

O miolo da revista amplia o escopo. Há uma seção de "imagens secretas" com cenas de flagelação, punições coloniais, execuções públicas e humilhações; uma galeria de mulheres em trajes de montaria e figurinos fetichistas; e um ensaio de **Sasamura Hiroshi** sobre como truques de palco, adereços e perspectiva criam a ilusão de crueldade em fotografias sensacionalistas — um texto que, lido hoje, funciona quase como aula de leitura crítica da imagem.

A continuação de **"As Prosperidades do Vício", do Marquês de Sade**, ocupa o espaço da literatura libertina, com toda a violência institucional que a obra implica. Mais adiante, o leitor encontra reportagens sobre massacres, aventuras no Ártico e no deserto, uma narrativa em torno da guilhotina ilustrada por Ema Miku e dois contos de época de inspiração *ukiyo-e*, assinados por **Oda Toshimi**, nos quais ciúme, vingança sobrenatural e teatralidade do período Edo se misturam.

Há também textos de crime encenado, com tableaux fotográficos de assassinatos em ambientes externos e domésticos, e menções a artistas ocidentais como **John Willie** na seção de curiosidades fetichistas.

## Por que esse material ainda importa

Para pesquisadores, o número é uma amostra densa de como o desejo por cordas e restrição circulava comercialmente no Japão de 1960: misturado a crime, exotismo, literatura proibida e humor cruel. Para o público contemporâneo de BDSM, ele serve como documento e como contraponto — mostra de onde vêm certas imagens e também o quanto a cultura atual se transformou ao colocar o consentimento no centro.

## Como ler hoje, com cuidado

Praticamente todas as cenas de violência descritas na revista são **encenadas** ou **fantasiadas**. O próprio ensaio sobre truques fotográficos deixa isso explícito. Ainda assim, o material exibe reiteradamente situações de captiveiro e crueldade como espetáculo, sem qualquer noção moderna de negociação prévia, palavra de segurança ou cuidado posterior.

A comunidade kink atual trabalha com princípios que esses arquivos não conheciam: conversa antes da cena, limites combinados, sinal de interrupção acordado e atenção ao corpo depois. Suspensões com corda, em especial, são prática de risco elevado — envolvem circulação, nervos e risco de queda — e exigem aprendizado presencial com instrutores experientes, never solo.

Consultar esse acervo é, portanto, um exercício duplo: reconhecer a potência estética das imagens e, ao mesmo tempo, recusar a naturalização da violência sem consentimento que a época tratava como entretenimento.

## Segurança

- O material original é uma publicação adulta de 1960 e retrata violência e captiveiro como fantasia encenada, sem registro de consentimento das modelos.
- As imagens não são instrucionais: não reproduza amarrações ou suspensões a partir de fotografias antigas.
- Suspensão com cordas é prática de alto risco; procure formação presencial e nunca pratique sozinho.
- Toda prática atual deve incluir negociação prévia, palavra de segurança combinada e cuidados posteriores.
