# Identidade racial e pertencimento na cena alternativa

> Relato de Magdalene Sin, performer de pole dance em Londres, sobre crescer mestiça, enfrentar o rótulo de “bounty” e buscar aceitação na cena alternativa, em modificações corporais e em clubes fetichistas.

- Tema: Cultura e arte
- Tags: identidade racial, cena alternativa, pertencimento, modificações corporais, suspensão corporal, comunidade kink, torture garden
- URL: https://arcanobdsm.com.br/a/identidade-racial-e-pertencimento-na-cena-alternativa
- Fonte original: Torture Garden (https://torturegarden.com/a-shade-outside-the-mainstream)
- Atualizado: 2026-10-30

O texto de Magdalene Sin, publicado no blog do Torture Garden, é um relato pessoal sobre identidade racial, pertencimento e a experiência de circular por espaços alternativos e fetichistas em Londres. A autora é performer de pole dance e conta como ser filha de pai negro e mãe branca marcou sua relação com grupos, estilos e comunidades.

## Duas culturas, nenhum lugar óbvio

Magdalene descreve uma infância em que conviviam duas culturas familiares. Durante um tempo, isso não pareceu um problema. Na adolescência, porém, veio a percepção de que não se encaixar em um único grupo chamava atenção. Ao explorar a moda alternativa, ela percebeu que as roupas não caíam da mesma forma em seu corpo que no de outras pessoas da cena emo, e sentiu que certos traços eram lidos como mais evidentes.

Foi nesse período que o termo “bounty” passou a acompanhá-la. A palavra é usada de forma pejorativa para descrever pessoas negras ou pardas percebidas como “brancas demais” em seus gostos, jeito de falar ou comportamento. Magdalene conta que chegou a rir e a carregar o rótulo com orgulho aparente, mas que, por dentro, ele abalou sua autoestima e suas certezas sobre pertencimento. A sensação descrita é a de estar entre dois mundos: branca demais para uma cultura, negra demais para outra.

## Pole dance e a descoberta de um espaço

Já na casa dos vinte anos, o pole dance se tornou uma paixão. A autora relata ter encontrado um ambiente de mulheres fortes, em que a sexualidade era celebrada, não havia regras rígidas de vestimenta e a diferença era bem-vinda. Ali, ela diz ter finalmente se sentido em casa.

Foi também um período em que se sentiu confiante para explorar modificações corporais, interesse que existia desde a adolescência. Na família, o tema era visto como “demoníaco”; entre amigos e parceiros, como algo estranho. Ainda assim, a curiosidade permaneceu. A suspensão corporal — prática em que a pessoa é suspensa no ar por ganchos metálicos presos à pele — era um sonho antigo. Ao realizar o procedimento e compartilhar fotos no Instagram, ela temeu reações negativas, mas recebeu principalmente comentários de apoio e curiosidade.

## Modificações, palco e expectativas raciais

Nos últimos anos, Magdalene realizou outra modificação que desejava: a bifurcação da língua. A mudança atraiu críticas, mas também se mostrou útil em suas performances em clubes fetichistas e cabarés. Como performer, ela relata ter se questionado se às vezes era ignorada por não corresponder ao que as pessoas esperavam de alguém de sua cor, ou por ser “marrom demais” em espaços majoritariamente brancos. Em certos momentos, pensou em mudar para se encaixar.

A autora também menciona a repercussão negativa enfrentada por um cantor mestiço que fez uma suspensão corporal ao vivo no palco. A performance foi chamada de “demoníaca” e “satânica”. A expressão “atividades de pele clara” chamou sua atenção e a fez refletir sobre por que certos interesses precisam ser classificados como brancos ou negros. Para ela, pessoas racializadas deveriam poder existir sem provar constantemente seu lugar ou temer perder amizades e seguidores por causa de seus gostos.

## Pertencer sem se encaixar à força

A conclusão do relato é menos sobre encontrar uma categoria e mais sobre recusar rótulos impostos. Magdalene afirma que prefere ser ela mesma a passar a vida tentando caber em definições criadas por outras pessoas. A história toca em temas caros à cena alternativa e kink: quem se sente bem-vindo, quais expectativas são projetadas sobre corpos racializados e como comunidades podem ser mais acolhedoras sem exigir que alguém apague partes de sua identidade.

## Segurança e cuidados

O texto não é um guia de prática. A suspensão corporal é uma atividade de alto risco e deve ser realizada apenas com equipe treinada, material adequado e estéril, avaliação médica e plano de cuidados posteriores. Modificações corporais como a bifurcação da língua são irreversíveis ou difíceis de reverter e exigem profissional qualificado, consentimento informado e acompanhamento. Em clubes e eventos fetichistas, o respeito ao consentimento, à negociação, às palavras de segurança e à etiqueta do espaço é parte essencial da experiência comunitária.

## Segurança

- Suspensão corporal é uma prática de alto risco: procure equipe treinada, material estéril, avaliação médica e plano de cuidados posteriores.
- Modificações corporais como a bifurcação da língua são irreversíveis ou difíceis de reverter e devem ser feitas por profissional qualificado, com consentimento informado e acompanhamento.
- Em clubes e eventos fetichistas, respeite consentimento, negociação, palavras de segurança e etiqueta do espaço.
