# Kamui Jyubei, Matsui Kenji e os bastidores do kinbaku japonês

> Reportagem de uma visita ao estúdio Mumonbaku, em Yokohama, traça a trajetória de Kamui Jyubei, sua formação na Bakuyū-kai e a influência do enigmático Matsui Kenji no kinbaku.

- Tema: História
- Tags: kinbaku, shibari, japão, história, matsui kenji, bakuyu-kai, performance
- URL: https://arcanobdsm.com.br/a/kamui-jyubei-matsui-kenji-e-os-bastidores-do-kinbaku-japones
- Fonte original: Kinbaku Today (https://www.kinbakutoday.com/kamui-jyubei-san-mystery-matsui-kenji)
- Atualizado: 2026-11-03

## Um encontro em Yokohama

A reportagem publicada pelo site *Kinbaku Today* em outubro de 2016 acompanha uma caminhada desde a estação de Sakuragichō, passando por Nogecho e cruzando o rio Ōoka, até chegar ao estúdio **Mumonbaku** (無門縛, algo como "amarração sem porta" ou "amarração absolutamente livre"), mantido por **Kamui Jyubei** em Yokohama. O objetivo do autor era duplo: compreender a relação entre Kamui e o lendário **Matsui Kenji**, morto em 2013, e entender o impacto desse vínculo na obra de um artista respeitado dentro do Japão, mas pouco conhecido fora do país.

A conversa contou com a presença de Ugo, do portal smpedia.com, e de Mimi-chan. Kamui surpreendeu-se ao descobrir que o visitante já ouvira falar de Matsui, figura que praticamente não deixou registros visuais.

## A linha do tempo do Black Heart

Kamui reconstituiu a história do clube **Black Heart**, em Ginza. Em 1998, Matsui — então com quase sessenta anos — tornou-se o primeiro professor do espaço, auxiliado por **Saikatsu**. Kamui conhecera Matsui por intermédio de Saikatsu muito antes da abertura do clube. Quando Matsui deixou o ensino em 2004, **Akechi Denki** assumiu a função até sua morte, em julho de 2005, e Saikatsu passou a ser o terceiro professor. Saikatsu, que também assinava como Akechi Saiki, permaneceu como nawashi amador e segue ensinando shibari a alunos avançados no Black Heart.

No fim dos anos 1990 e início dos 2000, Matsui, Akechi e **Hayakawa Yoshikazu (Hige)** costumavam se apresentar juntos como amigos próximos. Hige era editor-chefe da revista *S&M Sniper* e criador do **Hige Salon**, uma espécie de nawakai que ocorreu em quartos de hotel alugados entre 1991 e 2001, quando ganhou sede fixa às sextas-feiras no lounge Mugen SM, em Roppongi. O Mugen fechou em 2006 e o salão voltou a ser um encontro esporádico.

## O enigma Matsui Kenji

Matsui permaneceu sempre na clandestinidade e evitava meticulosamente qualquer imagem sua, apesar de amarrar continuamente para diversas revistas e livros de kinbaku. Foi um praticante amador extremamente influente numa época em que a modelo ainda era a estrela principal. Não se sabe ao certo quando começou a amarrar para publicações — provavelmente no fim dos anos 1970 ou início dos 1980. Era profundamente respeitado por nomes como **Miura Takumi** e Kitagawa, mas continuou sendo um mistério até para quem convivia com ele.

Sem rostos conhecidos, Matsui segue como lenda silenciosa do meio, ainda que suas amarrações possam ser reconhecidas nas gerações seguintes de kinbakushi.

## Do strip tease à descoberta do laço

O primeiro contato de Kamui com o kinbaku aconteceu no início dos anos 1980, em uma casa de strip-tease decadente de Sendai. Ele detestou o espetáculo: a trilha de rock progressístico alto, o tratamento grosseiro à modelo e truques vulgares de choque. Era o SM inserido em números de dança butô que circulavam por casas noturnas do Japão entre os anos 1970 e 1980 — mais pornográfico do que sensual.

Só em 2000 Kamui se envolveu com a prática, quando administrava o bar de happenings **Odyssey**, em Yokohama. Em 2008 passou a realizar o evento Mumonbaku. Foi convidado por acaso a amarrar pessoas e descobriu talento natural, mas encarava a atividade como simples tarefa. Diante dos elogios e da constatação de que outros frequentadores que se diziam experientes eram menos habilidosos, decidiu buscar orientação profissional. Considerou Monko e o Black Heart, mas escolheu a **Bakuyū-kai**, de Miura Takumi.

## A Bakuyū-kai e o modelo marcial

Miura pesquisava técnicas penais arcaicas de contenção com corda, o **budo-hojōjutsu torinawa**, redescobrindo amarrações que não eram usadas desde o fim do período Edo. Akechi se interessou e apoiou a fundação, em 1996, do primeiro dojō dedicado a ensinar essas amarrações penais: a Bakuyū-kai (縛友会, "encontro de quem amarra"). Nada semelhante existia desde a abolição da classe samurai com a Restauração Meiji, em 1868, quando a técnica integrava treinamentos militares e policiais.

O método previa quatro níveis: no primeiro, honmusubi, koutōbu e gote shibari; no segundo, hishi e agura shibari, com o gote shibari a ser concluído em doze minutos; no terceiro, tawara e gyaku-ebi shibari; no quarto, double-hishi, gote gasshou, teppou e shishikatame shibari, além de kataashi zuri e do desenvolvimento de estilo próprio. Os alunos sentavam-se em seiza, ouviam o dandori como em uma arte marcial, faziam reverência ao mestre e só então iniciavam a prática, avaliada por três professores.

Muitos no Japão consideram que reinventar o kinbaku como arte marcial contraria seu espírito, embora o modelo de dojō tenha ganhado seguidores. Cerca de 99% dos alunos abandonavam na terceira etapa, seja por falta de interesse, seja pela rigidez do percurso, que costumava levar dois anos. Kamui passou pelos quatro níveis em um ano, foi reprovado apenas uma vez e tornou-se instrutor em 2008, ano em que se afastou para se dedicar ao Mumonbaku e a uma abordagem mais fluida.

## Público, presença e improviso

Para Kamui, há três tipos de plateia: quem quer apenas ver nudez ou humilhação; quem busca aprender técnicas observando; e quem deseja compreender a beleza do jogo sado-erótico entre duas pessoas com corda. Apenas o terceiro grupo lhe interessa — ele afirma que ficaria satisfeito sem espectadores durante uma sessão, pois o foco está na dupla. Por isso, evita se apresentar com kinbakushi famosos nas grandes cidades, embora Ero Ouji já tenha se apresentado em seu estúdio.

Em 2014, abriu um anexo em Jūrigi Suyama, aos pés do monte Fuji, onde apresenta o kinbaku em ambiente rural para públicos que valorizam a conexão e a magia do jogo. Kamui dispensa música e iluminação elaborada; considera que o melhor kinbaku nasce quando quem amarra se aproxima sem plano definido, deixando a coisa acontecer naturalmente — o que chama de **muganawa**.

## Detalhes de técnica

Antes de demonstrar seu estilo, Kamui compartilhou pequenos truques, como substituir o nó simples hitotsumusubi por uma emenda em coroa alongada, finalizada com um reforço que permite um hibarimusubi morder a corda sem volume excessivo. Mostrou também resultados de sua colaboração com o fotógrafo Touhami Ennadre para a exposição *Journée du patrimoine*, em Casablanca.

Com a modelo Sakurai Yuki em subespaço, apresentou um **mitsu-hiki shibari** (三つ引き), amarração de corpo inteiro derivada de um desenho de brasão familiar, com conexões frontais aperfeiçoadas por ele. Em seguida, elevou a modelo à suspensão usando a técnica de talha que Saikatsu lhe ensinara. Como Matsui, Kamui não usa nós do tipo nodome, preferindo conexões simétricas semelhantes a hibarimusubi.

O estúdio Mumonbaku fica em Naka-ku, Yokohama, província de Kanagawa.

## Segurança

- Suspensões e amarrações de corpo inteiro envolvem risco de lesões nervosas e circulatórias; pratique apenas com supervisão experiente e nunca sozinho.
- Combine previamente limites, expectativas e palavras de segurança antes de qualquer sessão, e mantenha tesoura de segurança ao alcance.
- Após a prática, reserve tempo para cuidados posteriores (aftercare), hidratação e checagem das marcas na pele.
- Demonstrações públicas não dispensam negociação entre as pessoas envolvidas; o consentimento deve ser contínuo e revisto durante o jogo.
