# Kitan Club de agosto de 1963: a revista japonesa que mapeou fetiches

> Análise da edição de agosto de 1963 da revista japonesa Kitan Club, que reunia fotografia de bondage encenado, ilustrações, memórias de leitores, ficção serializada e correspondência, revelando como publicações especializadas criavam comunidade.

- Tema: História
- Tags: kitan club, japão, revista histórica, bondage, cultura bdsm, anos 1960, arquivo
- URL: https://arcanobdsm.com.br/a/kitan-club-de-agosto-de-1963-a-revista-japonesa-que-mapeou-fetiches
- Fonte original: Kinbaku Today (https://www.kinbakutoday.com/sm-issue/august-1963-issue)
- Atualizado: 2026-11-02

## Uma revista que funcionava como ponto de encontro

Entre as décadas de 1950 e 1970, a publicação japonesa **Kitan Club** foi um dos principais veículos impressos dedicados ao que hoje chamaríamos de fetiches e imaginário sadomasoquista. O arquivo digital mantido pelo site *Kinbaku Today* preserva e descreve exemplares dessa coleção, entre eles o número de **agosto de 1963** — volume 17, edição 8 —, com cerca de 189 páginas digitalizadas. Mais do que uma curiosidade de colecionador, esse material ajuda a entender como desejos considerados marginais encontraram vocabulário e circulação antes da internet.

A edição é um retrato do formato editorial da época: ensaios fotográficos encenados, pranchas ilustradas, depoimentos pessoais, ficção em capítulos, ensaios históricos, cartas de leitores e anúncios. Tudo coexistindo no mesmo volume, como uma revista literária com um núcleo temático muito específico.

## O que a edição traz em imagens

A abertura é fotográfica. Modelos aparecem em amarrações de corda em pé e sentadas, com mordaças, restrições de pernas, poses no chão e posições auxiliadas por polias e contrapesos. Há também cenas ao ar livre, com corpos presos a árvores, além de sequências de dominação feminina com botas, figuras mascaradas aplicando castigos e situações de pressão física encenada por assistentes.

Na sequência, um caderno de ilustrações explora torturas estilizadas: estímulos no nariz, suspensões com peso, imagens de bombas de ar, estrangulamento figurativo, exames forçados e um quadro de autossacrifício ritual. O conjunto é explicitamente teatral — o corpo aparece como espetáculo e como cenário de resistência imaginada, não como registro documental.

Um segundo bloco fotográfico retoma o tema com quimonos, amarrações domésticas e externas, cenas de dominação feminina e castigos com máscaras.

## Vozes de leitores e memórias pessoais

A parte em prosa começa com um texto reflexivo de **Endō Tamotsu** sobre como ele se tornou leitor da revista. O autor fala de conformidade social, fantasia privada, vergonha e do alívio de encontrar uma linguagem compartilhada para desejos que pareciam isolados.

Depois vêm relatos assinados. **Iuchi Sayūko** relembra uma excursão a Kamakura que termina em uma disputa de luta livre entre mulheres nuas, com as participantes se imobilizando e se amarrando sob o olhar da narradora. **Mizuura Masaki** e **Sawada Yoshio** assinam juntos *Image of Love*, narrativa ilustrada sobre um casal recém-casado cujas fantasias evoluem para encenações de restrição, roupas específicas, exposição e cativeiro imaginado. Já **Yutani Teruo** escreve sobre a fixação por estímulos no nariz, relacionando-a a ilustrações publicadas em números anteriores e convidando leitores a enviar experiências.

## Ficção, história e crítica de cinema

O miolo da revista é dominado pela ficção. **Honda Yoshirō** ambienta um relato de interrogatório em um escritório de magistrado do período Edo, com prisão, amarração, açoites e pesos. **Tsujimura Takashi** continua sua série *Tales of the Thirty-Ninth Night*, com uma suposta espiã industrial capturada por colegas de empresa. **Nakazawa Hitoshi** comenta o filme *Valley of Death* como espetáculo de fantasia perversa, discutindo mulheres militarizadas e dominação física.

Outros textos ampliam o repertório: a confissão de **Fujishiro Yūzō** sobre uma mulher obcecada por imagens de corte abdominal; a aventura serializada de **Saijō Mazō**, passada em cenário de guerra; *The Tutor*, de **Ōnaka Tadashi**, sobre dominação doméstica; a celebração fetichista do ouro assinada por **Saijō Etsumi**; o ensaio histórico de **Kazuyori Emi** sobre casos registrados de mulheres que praticaram seppuku nos períodos Edo e Meiji; e o quinto capítulo de *Flower and Snake*, novela de **Dan Oniroku** que mais tarde inspiraria adaptações cinematográficas japonesas.

O volume ainda inclui narrativas de **Morooka Tateo**, **Kondō Natsuhiko** e um texto autoficcional sobre enfermeiras, além de reportagem de **Yoshino Mayumi** sobre judocas mulheres enfrentando oponentes homens.

## Cartas, anúncios e o elo entre leitores

Uma seção extensa de correspondência reúne cartas com relatos, pedidos, reações a edições anteriores e respostas da redação. No fim, anúncios vendem livros, conjuntos fotográficos, gravuras e materiais especializados, com tabelas de preços, códigos de pedido e instruções para assinaturas e envio de colaborações. Essa parte mostra que a revista funcionava como uma rede: além de publicar conteúdo, conectava pessoas com interesses muito particulares.

## Como ler esse material hoje

O valor do arquivo é histórico e cultural. Ele documenta estética, vocabulário e sociabilidade de uma cena fetichista anterior à circulação digital, além de revelar como testemunho íntimo, invenção literária e encenação fotográfica se misturavam sem fronteiras claras.

Ao mesmo tempo, é importante fazer a distinção que a própria publicação não fazia: quase tudo ali é fantasia produzida para consumo, incluindo cenas de coerção, castigo e ferimento. A cultura BDSM contemporânea se organiza em torno de princípios que não aparecem nessas páginas — consentimento informado, negociação prévia detalhada, palavras de segurança combinadas e cuidados posteriores. Práticas de restrição com cordas, especialmente suspensões e posições com peso, exigem aprendizado técnico, supervisão e atenção a circulação sanguínea e respiração; não são recreações improvisadas a partir de fotos antigas.

## Segurança

- O conteúdo descrito é fantasia editorial dos anos 1960 e não serve como manual de prática.
- Cenas de automutilação, cortes e estrangulamento são representações históricas/ficcionais: não devem ser reproduzidas.
- Amarrações com corda, suspensões e uso de mordaças exigem treinamento, negociação, palavras de segurança e cuidados posteriores.
