# Kitan Club de dezembro de 1962: retrato de uma revista fetichista japonesa

> O número de dezembro de 1962 da revista japonesa Kitan Club reúne ensaios, ficção, fotografias de cordas e cartas de leitores, oferecendo uma janela histórica para a cultura fetichista impressa do pós-guerra no Japão.

- Tema: História
- Tags: kitan club, imprensa fetichista, japão, história do bdsm, revista vintage, cultura erótica, shibari
- URL: https://arcanobdsm.com.br/a/kitan-club-de-dezembro-de-1962-retrato-de-uma-revista-fetichista-japonesa
- Fonte original: Kinbaku Today (https://www.kinbakutoday.com/sm-issue/december-1962-issue)
- Atualizado: 2026-11-02

## Uma revista como documento de época

O arquivo digital do site Kinbaku Today dedica uma ficha ao volume 16, número 11 da revista japonesa **Kitan Club**, correspondente a dezembro de 1962. A publicação, com 189 páginas digitalizadas, é apresentada como um retrato abrangente do que era a imprensa fetichista japonesa no pós-guerra: uma mistura de fotografia, ilustração, ensaio, ficção seriada e uma extensa seção de correspondência com leitores.

Mais do que um objeto de curiosidade, esse tipo de número é hoje tratado por pesquisadores como fonte para entender como o erotismo de cordas, o fetichismo por tecidos e objetos e a cultura de fãs se organizavam antes da internet.

## Estrutura da edição

A revista abre com anúncios e um sumário formal, seguido de um longo bloco de fotografias em gravura. Segundo a descrição do arquivo, esses ensaios fotográficos exploram amarrações de tronco, mordaças de tecido, poses ajoelhadas e sentadas, além de amarrações compactas no chão, com atenção ao contraste visual entre corda, pele, tecido estampado e interiores domésticos.

Entre as fotos, aparecem ilustrações assinadas por nomes como **Shima Takashi** e **Taki Reiko**, que ampliam o repertório para cenas de punição imaginada, aparelhos de contenção e objetos fetichizados. O conjunto é claramente ficcional e teatral, não um registro documental de práticas reais.

## Os ensaios em prosa

A parte principal de textos começa com uma discussão ilustrada de **Arai Tamotsu** sobre a concepção visual de cenas envolvendo cigarro como elemento de dominação e composição gráfica.

Em seguida, **Tsukiji Ichirō** assina um artigo de pesquisa sobre relatos históricos e lendários de mulheres guerreiras mortas em combate, examinando como honra marcial, execução e imagem eram tratadas esteticamente. O texto é representativo de um veio da revista que misturava erudição popular, história e fantasia.

Já **Tsukamoto Tetsuzō** narra, em tom documental, uma sessão real de fotografia de amarração. Ele descreve a troca de cartas com uma leitora casada, os preparativos, a viagem, a aplicação das cordas, a iluminação e as reações da participante — um raro relato de bastidor sobre como essas imagens eram produzidas.

## Confissões, psicologia e ficção

O miolo da revista alterna confissão pessoal, psicologia, ficção, fantasia de viagem e role-play. Há um depoimento em primeira pessoa sobre o fascínio por roupas femininas, considerando vestuário, apresentação de gênero, sigilo e vida conjugal; um texto reflexivo de **Hata Kōichi** sobre narcisismo; e uma correspondência de **Shingū Akio** a respeito da prática de SM entre um casal casado e de como o jogo erótico se encaixa na rotina doméstica.

A ficção ocupa bastante espaço, com séries como *Woman and Snake* (parte 3), de **Hanamaki Sōtarō**, a novela *Somewhere in the Universe*, de **Saji Mazō**, e *Thirty-Ninth Night Tales*, de **Tsujimura Takashi**. Há também relatos de leitoras e leitores, como o depoimento de **Hari'i Mika** sobre tornar-se uma mulher dominadora, e a fantasia seriada de **Arutame Mataji** ambientada numa sociedade escravista imaginária.

## Cinema, corpo e sociabilidade

Entre os textos finais, o arquivo registra um comentário sobre o filme **Harakiri** (1962), dirigido por Masaki Kobayashi e produzido pela Shochiku, elogiado pelo estilo visual severo e pela abordagem de honra samurai, injustiça social, vingança e suicídio ritual. Vale notar que, na ficha do arquivo, alguns resumos do sumário parecem deslocados em relação aos títulos — um lembrete de que toda digitalização envolve camadas de interpretação.

Há ainda um calendário de amarrações com doze composições sazonais, um ensaio fotográfico sobre detalhes do corpo e a novela curta *The Man Possessed by Glass*, de **Futaki Yoshio**.

## A revista como rede social

O fechamento é dedicado às cartas de leitores, colunas de resposta, questionários, classificados, avisos editoriais e informações de assinatura. É essa parte que melhor revela a função da publicação: mais do que entretenimento, ela operava como uma rede de troca de fantasias, experiências, críticas e contatos pessoais, num tempo em que esse tipo de conversa só era possível por correio.

## Como ler esse material hoje

Para quem estuda história do BDSM, cultura impressa ou erotismo japonês, a edição é valiosa por mostrar vocabulário visual, temas recorrentes e a organização de uma comunidade de leitores. É importante, porém, separar o registro histórico da prática contemporânea.

Muitas ilustrações da revista retratam coerção, tortura e morte como fantasia estética — temas que hoje causam desconforto e que não descrevem relações consensuais. Comunidades BDSM atuais enfatizam negociação prévia, limites explícitos, palavras de segurança, checagem constante e cuidados posteriores. Ler esse acervo como documento de época, e não como manual, é a postura mais adequada.

## Segurança

- O material original inclui ilustrações e ficções com coerção, tortura e morte; são fantasias históricas e não descrevem práticas consensuais.
- Práticas de contenção e amarração exigem negociação prévia, limites claros, palavra de segurança e cuidados posteriores.
- Restrição de respiração, amordaçamento e suspensões envolvem riscos elevados e exigem supervisão experiente.
- Conteúdo adulto: recomenda-se leitura apenas por maiores de idade.
