# Kitan Club de dezembro de 1963: história e cultura do BDSM no Japão

> A edição de dezembro de 1963 da revista japonesa Kitan Club reúne fotografias de bondage, ilustrações, ficções, confissões e correspondência de leitores, oferecendo um panorama histórico da cultura kink no Japão.

- Tema: História
- Tags: kitan club, revista japonesa, história do bdsm, kinbaku, cultura erótica, arquivo, anos 1960
- URL: https://arcanobdsm.com.br/a/kitan-club-de-dezembro-de-1963-historia-e-cultura-do-bdsm-no-japao
- Fonte original: Kinbaku Today (https://www.kinbakutoday.com/sm-issue/december-1963-issue)
- Atualizado: 2026-10-30

## Uma edição-mosaico do Japão dos anos 1960

A edição de dezembro de 1963 da revista japonesa *Kitan Club* chegou até nós como um documento digitalizado de 205 páginas, catalogado pelo site Kinbaku Today. Trata-se do volume 17, número 13, uma publicação que não se limita a um único assunto: ela combina ensaios fotográficos, ilustrações eróticas, relatos pessoais, ficções seriadas, notas históricas, correspondência de leitores e pequenos anúncios. Esse formato de antologia variada ajuda a entender como a revista se apresentava: menos como uma publicação temática e mais como um espaço de encontro entre fantasia, testemunho e pesquisa informal.

## Fotografia, encenação e ilustração

A abertura da edição é dedicada a uma sequência de ensaios fotográficos com cordas, amarras, vendas, gargantilhas e cenas domésticas encenadas. As imagens incluem poses restritas, quimonos desalinhados e situações de imobilização produzidas em estúdio. Ao lado delas, há uma galeria de ilustrações assinadas por Kurihara Shin, Shima Takashi e outros colaboradores. Os desenhos abordam tatuagens, confinamento, restrição escultural, luta feminina, dominação no ambiente de trabalho e situações de fantasia histórica.

É importante observar que muitas dessas cenas são encenadas, ilustradas ou ficcionais. Elas não devem ser lidas como registro de práticas reais nem como manual de conduta. O próprio caráter heterogêneo da revista mistura testemunho, invenção e exagero, o que exige do leitor atual uma leitura crítica.

## Vozes autorais e narrativas seriadas

A parte textual da edição começa com o relato premiado de Itojima Hiroshi, *The Man’s Sadism and the Woman’s Love*. Em primeira pessoa, o autor narra aspectos de seu casamento, ciúmes, infidelidade e sessões de bondage doméstico consensual, acompanhadas de fotografias particulares. O texto é um dos poucos da edição em que a negociação e a continuidade de uma relação íntima aparecem de forma mais explícita.

Outros textos seguem caminhos bastante distintos. Sade Suto publica a segunda parte de *Thirteen Condemned Women*, dedicada a imaginárias execuções por enforcamento em diferentes países e contextos históricos. Kurushima Seiro apresenta *The Process of Submission*, narrativa sobre a decadência econômica de um marido e a progressiva inversão de autoridade dentro do casamento. Tsujimura Takashi continua sua série *Thirtieth Night*, com contos eróticos de temática SM. Há também a quinta parte de *Flower and Snake*, de Dan Oniroku, autor conhecido por ficções que exploram relações coercitivas e bondage.

A edição ainda inclui um estudo histórico sobre o sumô feminino, do período Edo à modernidade, assinado por Okahira Yoshio. Esse texto amplia o repertório da revista para além da fantasia erótica e mostra o interesse da publicação por espetáculo, tradição e curiosidade social.

## O espaço dos leitores

Um dos aspectos mais interessantes do arquivo é a presença constante de leitores. A seção *Kiki Salon* reúne cartas, relatos pessoais, sugestões de cenas, notas sobre fotografia e comentários sobre fetiches variados. No fim da edição, há correspondência extensa, fragmentos confessionais, avisos editoriais, informações sobre clubes e anúncios de contato. Isso reforça a ideia de que *Kitan Club* funcionava também como uma comunidade participativa, na qual leitores trocavam experiências, fantasias e material visual.

Essa mistura de revista comercial e espaço de sociabilidade é valiosa para pesquisadores da história da sexualidade, da cultura impressa japonesa e das práticas de cordas. Ao mesmo tempo, o conteúdo precisa ser compreendido dentro de seu contexto: trata-se de uma publicação adulta dos anos 1960, marcada por convenções editoriais, fantasias de poder e representações de gênero que hoje podem soar bastante distantes.

## Por que essa edição importa hoje

Para quem estuda a história do BDSM e do kinbaku, a edição oferece pistas sobre vocabulário visual, temas recorrentes e modos de circulação desse imaginário no Japão do pós-guerra. Ela mostra como fotografia, desenho, ficção e cartas de leitores se combinavam para produzir um universo editorial próprio, no qual o erótico, o documental e o fantasioso se misturavam.

Ao mesmo tempo, é fundamental não confundir o material histórico com orientação prática. Muitas narrativas descrevem coerção, humilhação ou violência encenada, e algumas sequências têm caráter claramente ficcional. Práticas contemporâneas de BDSM e shibari priorizam consentimento informado, negociação prévia, palavras de segurança, conhecimento técnico e cuidados posteriores. O valor deste arquivo está em seu papel como documento cultural e histórico, não como modelo de conduta.

## Leitura crítica e cuidados atuais

A edição pode ser explorada como fonte para pesquisas sobre erotismo, gênero, mídia impressa e história das sexualidades. Para leitores não especialistas, vale lembrar que a revista reúne materiais de naturezas muito diferentes: confissões, contos, ilustrações, notas jornalísticas e encenações fotográficas. Separar esses registros é parte essencial da interpretação.

Em práticas atuais com cordas, segurança e consentimento devem vir antes de qualquer estética. Isso inclui conversar sobre limites, combinar sinais de interrupção, evitar posições de risco sem supervisão e reservar tempo para acolhimento depois da cena. O material de 1963 é relevante justamente por abrir uma janela para o passado, não por fornecer instruções para o presente.

## Segurança

- A edição contém relatos e ilustrações históricas com cenas de coerção, violência e humilhação; elas não servem como modelo de prática.
- Práticas de cordas exigem consentimento, negociação prévia, palavras de segurança e cuidados posteriores.
- Não reproduza cenas de restrição sem conhecimento técnico e supervisão adequada.
