# Kitan Club de janeiro de 1975: retrato de uma revista japonesa de SM

> A edição de janeiro de 1975 da revista japonesa Kitan Club, volume 29, número 1, reúne fotografia de cordas, reportagens em primeira pessoa, ficção seriada e ensaios sobre fetichismo. O arquivo é uma janela para a cultura editorial do SM no Japão dos anos 1970.

- Tema: História
- Tags: kitan-club, revista-japonesa, historia-do-bdsm, kinbaku, anos-1970, arquivo, cultura-editorial
- URL: https://arcanobdsm.com.br/a/kitan-club-de-janeiro-de-1975-retrato-de-uma-revista-japonesa-de-sm
- Fonte original: Kinbaku Today (https://www.kinbakutoday.com/sm-issue/january-1975-issue)
- Atualizado: 2026-11-04

## Uma publicação, muitas camadas

O acervo digitalizado do *Kitan Club* referente a janeiro de 1975 (volume 29, número 1, edição regular 323) mostra como uma revista dedicada ao SM japonês podia funcionar como um pequeno ecossistema editorial. Ao longo de 172 páginas, convivem ensaio fotográfico, reportagem em primeira pessoa, ficção seriada, depoimento confessional, crônica social e discussão teórica sobre fetichismo. A listagem de conteúdo da edição soma dezessete itens, assinados por cerca de quinze colaboradores.

Para quem estuda a história da cultura kink, o interesse desse tipo de material está menos no choque e mais na estrutura: quais gêneros textuais circulavam, como a fotografia era tratada, que vocabulário se usava e de que modo a comunidade da época conversava consigo mesma por meio de uma revista.

## A abertura fotográfica

A edição começa com uma ampla galeria de Tsukamoto Tetsuzō, intitulada em tradução livre algo como "O ponto de contato entre a beleza e o bondage". São páginas em preto e branco e coloridas com modelos nomeadas em diferentes posições de corda — no chão, em pé, suspensas, com vendas, mordaças e faixas de peito. O texto de apresentação destaca o contraste entre corda, corpo, interiores domésticos e expressões faciais.

O dado relevante aqui é editorial: a fotografia não aparece como ilustração acessória, e sim como um dos eixos da publicação. Logo depois, uma seção fotográfica menor apresenta a modelo Fujita Akiko sob o título "A beleza de uma dona de casa discreta", reforçando um recurso narrativo recorrente na época: o contraste entre respeitabilidade cotidiana e a cena de restrição.

## Reportagem em primeira pessoa

A contribuição mais extensa é a de Tsukamoto Tetsuzō, que ocupa cerca de trinta páginas. Trata-se de um relato em primeira pessoa, misturando fotografia, observação pessoal e encontros sucessivos com uma participante experiente, em cenários de hotel e de casa. O texto alterna descrição de sessões, comentários sobre resposta corporal e reflexões do autor sobre a própria relação com a pessoa retratada — um formato documental que hoje chamaríamos de perfil etnográfico, ainda que atravessado por erotismo.

## Ficção, crônica e ensaio

O miolo da revista se abre para outros gêneros. Há uma reportagem de viagem ambientada em Cebu, nas Filipinas, que descreve a ilha como destino de turismo sexual — um registro que hoje exige leitura crítica, tanto pelo olhar colonial quanto pela ausência de qualquer noção de consentimento negociado. Há também o 58º capítulo de uma crônica social sobre relações afetivas complicadas dentro da comunidade SM, uma ficção seriada de melodrama erótico, um relato ambientado em hospital e um ensaio ilustrado sobre tangas, pelos corporais e fetichismo do corpo natural.

Na sequência aparecem uma narrativa seriada de cativeiro com papéis de gênero invertidos, o terceiro capítulo de um estudo sobre mordaças — tratadas como instrumento estético e psicológico de restrição —, um depoimento confessional, uma narrativa ambientada em Takayama, o 41º capítulo de uma ficção histórica de vingança e intriga, um ensaio fotográfico sobre estética do aperto e tensão das amarrações, uma confissão sobre fetichismo feminino e, no fecho, um relato de bastidores sobre o desconforto e a resistência de amarrações de obi em trajes tradicionais, seguido de um perfil contemporâneo de uma mulher chamada Keiko.

## Por que esse arquivo importa

Três aspectos merecem atenção de quem pesquisa o tema:

- **Documentação de técnicas visuais.** O ensaio sobre tensão e padrão de cordas registra variações de amarração e postura que ajudam a mapear a estética do kinbaku naquele período.

- **Circulação de gêneros.** Ficção, confissão e ensaio ocupavam o mesmo espaço, sem hierarquia rígida entre "real" e "imaginado".

- **Contexto cultural.** A revista era um produto comercial de uma subcultura urbana japonesa, com leitores fiéis, séries numeradas e colaboradores recorrentes.

## Leitura crítica necessária

É importante não romantizar o material. Vários textos da edição tratam mulheres em situações de coerção narrativa, turismo sexual e voyeurismo sobre pessoas em posição de vulnerabilidade — inclusive funcionárias de hospital. Esses trechos devem ser lidos como documento histórico e não como modelo de conduta. A linguagem da época raramente explicita negociação, palavras de segurança ou cuidados posteriores, elementos que hoje são considerados a base de qualquer prática de BDSM ética e segura.

O valor do acervo está, portanto, em compreender de onde vem parte do imaginário visual do bondage japonês e em contrastar esse imaginário com os padrões de consentimento, comunicação e cuidado que a comunidade desenvolveu nas décadas seguintes.

## Segurança

- O material original é de 1975 e não descreve protocolos de consentimento, negociação ou palavras de segurança; leia-o como documento histórico, não como guia de prática.
- Vários textos da edição retratam coerção, turismo sexual e voyeurismo sobre pessoas vulneráveis — essas cenas não devem ser tratadas como conduta aceitável.
- Qualquer prática de cordas envolve riscos de circulação, compressão nervosa e lesões; busque instrução presencial qualificada, combine limites e tenha tesoura de segurança à mão.
