# Kitan Club de novembro de 1963: a edição especial de confissões e memórias

> A edição de novembro de 1963 da revista japonesa Kitan Club foi dedicada a confissões, experiências pessoais e memórias, misturando ensaios fotográficos de cordas, ilustrações, ficção serializada e cartas de leitores.

- Tema: História
- Tags: kitan club, história do bdsm, japão, revistas, kinbaku, anos 1960, cultura fetichista
- URL: https://arcanobdsm.com.br/a/kitan-club-de-novembro-de-1963-a-edicao-especial-de-confissoes-e-memorias
- Fonte original: Kinbaku Today (https://www.kinbakutoday.com/sm-issue/confessions-experiences-and-memoirs-special-issue)
- Atualizado: 2026-10-31

## Uma revista, um retrato de época

A edição de novembro de 1963 da **Kitan Club** (volume 17, número 11, número de série 182) é um documento curioso para quem estuda a história da cultura fetichista japonesa. A revista, publicada no pós-guerra, circulou por décadas e funcionou como uma espécie de ponto de encontro entre leitores, ilustradores, fotógrafos e escritores interessados em bondage, disciplina e fetiches variados.

Esse número específico foi organizado como uma **edição especial dedicada a confissões, experiências pessoais e memórias**. O material arquivado tem cerca de 205 páginas digitalizadas e reúne gêneros muito diferentes entre si: ensaios fotográficos encenados, ilustração erótica, testemunhos em primeira pessoa, reflexões psicológicas, ficção seriada, curiosidades históricas e internacionais, correspondência de leitores e anúncios classificados.

## Como a edição está montada

A abertura traz vários conjuntos de fotografias em preto e branco, com cenas de amarração com cordas, suspensões parciais, mordaças e poses restritivas em estúdio. Em seguida vem uma longa galeria ilustrada, atribuída sobretudo a **Shiba Takashi**, que transita entre imagens de punição histórica, dominação doméstica, fantasia equestre, cenas medicalizadas e inversões teatrais de autoridade de gênero.

A parte escrita começa com um ensaio reflexivo de **Kurihara Chō** sobre o efeito físico e psicológico de um oblate (a hóstia usada para engolir remédios), seguido do conto sádico traduzido de **Ōnaka Tadashi**, *Sweet Nightmare*. Há ainda relatos em primeira pessoa sobre fixações específicas, como o desejo de receber tapas e injeções de mulheres consideradas atraentes, e uma memória sobre o fascínio por pés e roupas íntimas.

Um dos textos mais interessantes para o leitor atual é **“Our First Play”**, de Watanabe Mitsuru, em que um casal casado narra sua primeira sessão consciente de SM — do receio mútuo inicial até uma prática combinada entre os dois, com disciplina, restrição e experimentação de papéis.

## Vozes femininas e o fórum de leitores

A segunda metade da revista mistura episódios ficcionais, memórias de leitores, notas curtas de pesquisa e correspondência. Os assuntos vão de borracha e tecidos a fotografias de gravidez, roupas íntimas, pés femininos, bondage e estética do sofrimento. Vários depoimentos são assinados por mulheres ou apresentados sob pseudônimos femininos, o que reforça a proposta da edição de valorizar o testemunho subjetivo.

As páginas finais são ocupadas por cartas, avisos, anúncios, informações de clube e listas de contato pessoal. Isso mostra que a Kitan Club não era apenas um veículo de ficção e imagem: funcionava também como um espaço participativo de sociabilidade em torno de fetiches, algo raro na época e anterior à internet.

## Ficção, violência e leitura crítica

Nem todo o conteúdo envelheceu de forma confortável. A edição inclui narrativas de violência extrema, como o relato grotesco de **Satō Suden** sobre treze mulheres condenadas, e a série *Flower and Snake*, de **Dan Oniroku**, com cenas de captura e humilhação coercitiva. Também há um ensaio que relaciona atrocidades da guerra a um apetite cultural por crueldade.

É importante separar o que é **fantasia literária de época** do que seria um modelo de prática. Muitos textos descrevem coerção, violência e sofrimento como material imaginativo, não como conduta real entre pessoas. Hoje, a leitura desse acervo pede uma postura crítica: reconhecer o valor histórico e estético do material sem confundir ficção de dominação com consentimento.

## Por que essa edição ainda interessa

Para pesquisadores de história da sexualidade, a Kitan Club oferece uma janela para o Japão dos anos 1960: o vocabulário usado, as fantasias recorrentes, o papel dos pseudônimos, a mistura de erudição e sensacionalismo, a presença de colaboradores que se tornariam nomes conhecidos do gênero. É também um lembrete de que a cultura kink tem uma longa tradição de publicação independente, formada por amadores que escreviam sobre si mesmos.

## Cuidados que valem para qualquer época

- **Consentimento e negociação** vêm antes de qualquer prática. Combinar limites, expectativas e o que fazer em caso de desconforto é parte do processo, não um detalhe.

- **Palavras de segurança** devem ser acordadas previamente e respeitadas imediatamente por todas as pessoas envolvidas.

- **Cuidados posteriores** (aftercare) — conversa, água, acolhimento e tempo de recuperação — são parte da prática, especialmente em cenas intensas.

- **Suspensão com cordas** exige aprendizado técnico e supervisão: há risco real de lesões nervosas, circulatórias e de queda. Não se aprende apenas lendo material histórico.

Acervos como este são valiosos justamente porque permitem estudar o passado com distância crítica — e reafirmar, no presente, que segurança, informação e consentimento são o que sustentam qualquer prática.

## Segurança

- O texto descreve material histórico com cenas explícitas de coerção e violência fantasiada; não deve ser usado como manual de prática.
- Suspensão e amarração com cordas envolvem risco de lesão e exigem treinamento técnico e supervisão.
- Práticas de restrição demandam negociação prévia, palavras de segurança combinadas e cuidados posteriores.
