# Kitan Club de novembro de 1973: retrato da imprensa fetichista japonesa

> A edição de novembro de 1973 da revista Kitan Club mistura fotografia de cordas, ficção, testemunhos e cartas de leitores. O arquivo digital ajuda a entender como o SM japonês do pós-guerra se construiu editorialmente.

- Tema: História
- Tags: kinbaku, história do bdsm, japão, revistas, shibari, cultura fetichista, arquivo
- URL: https://arcanobdsm.com.br/a/kitan-club-de-novembro-de-1973-retrato-da-imprensa-fetichista-japonesa
- Fonte original: Kinbaku Today (https://www.kinbakutoday.com/sm-issue/kitan-club-november-1973)
- Atualizado: 2026-10-28

## Uma revista como documento de época

A edição de novembro de 1973 da publicação japonesa **Kitan Club** chega até nós hoje principalmente como objeto de arquivo: são 276 páginas digitalizadas, com um índice que lista 46 itens entre ensaios, reportagens, contos, portfólios fotográficos, colunas de leitura e anúncios. Mais do que um conjunto de imagens eróticas, o número funciona como um mapa de como uma parte da imprensa especializada do Japão do pós-guerra organizava e vendia o imaginário em torno de cordas, disciplina e fetichismos variados.

Vale desde já um aviso: o material original foi produzido em outro contexto histórico, com parâmetros editoriais e éticos muito distantes dos atuais. Várias seções misturam fantasia encenada com linguagem de documentário, o que torna difícil separar relato, ficção e encenação — e algumas abordagens presentes ali não correspondem ao que hoje entendemos como prática consensual e segura.

## Como a revista se organizava

O número abre com um grande portfólio fotográfico assinado por **Tetsuji Tsukamoto**, reunindo imagens em preto e branco de mulheres amarradas, suspensas e em poses estudadas. Seguem-se relatos em primeira pessoa, contos domésticos, uma seção comparativa sobre estilos de SM no Oriente e no Ocidente (com terminologias, papéis e até concurso para leitores) e uma novela histórica serializada.

O bloco central é dedicado a gestação, trabalho de parto e observação médica, sempre em registro encenado. Mais adiante aparecem temas como suspensão invertida, colonoterapia, piercing, tatuagem, fetichismo de pés, moxabustão, troca de casais e fantasia com transporte público.

Um detalhe revelador: a revista não era só sobre erotismo. Há uma bibliografia sobre sumô feminino, um ensaio sobre saneamento de piscinas públicas e notas sobre saúde urbana. Essa mistura mostra que a publicação se apresentava como revista de variedades e cultura subterrânea, e não apenas como veículo fetichista.

## Encenação apresentada como documento

O modo editorial dominante é a combinação de exibição sensacionalista com moldura pseudodocumental: legendas que nomeiam modelos, vocabulário médico, bibliografias, cartas de leitores e depoimentos em primeira pessoa. Tudo isso reforça a impressão de registro, ao mesmo tempo em que constrói fantasias elaboradas.

É importante ler esse conjunto com cautela. Ficção e não ficção não estão nitidamente separadas: contos usam fotografias documentais, e reportagens adotam cenários teatrais. Os temas de "coerção" que aparecem em vários títulos pertencem ao terreno da fantasia literária — e não devem ser lidos como descrição de práticas reais aceitáveis.

## A comunidade por trás das páginas

As últimas seções revelam a infraestrutura comercial e social da revista: cartas de leitores com respostas da redação, inscrições de modelos, avisos de assinatura, convites para envio de manuscritos e catálogos fotográficos à venda. O posfácio reforça esse caráter participativo ao pedir confissões, memórias, experiências, ilustrações e ficção ao público.

Ou seja, Kitan Club não era apenas produto de uma equipe editorial: era um nó de uma rede de leitores, fotógrafos, modelos, correspondentes e compradores. Essa dimensão de comunidade é provavelmente o aspecto mais interessante para quem estuda a formação de subculturas fetichistas no século XX.

## O que esse arquivo ensina hoje

Para quem se interessa por história do shibari e do BDSM, o número é útil por três motivos:

- **Documenta uma estética:** mostra convenções visuais de amarração e fotografia que circularam décadas antes da popularização internacional do shibari.

- **Mostra a construção do discurso:** evidencia como vocabulário médico, científico e documental foi usado para dar legitimidade a conteúdos fetichistas.

- **Expõe limites:** revela quanto a imprensa da época tratava corpos, privacidade e consentimento de modo incompatível com os padrões atuais.

## Prática hoje: o que mudou

Se o arquivo serve de referência histórica, ele não serve como manual. Práticas atuais de cordas e disciplinas consensuais se apoiam em princípios que aquele contexto não formulava:

- **Consentimento informado e contínuo**, com conversa prévia sobre limites, desejos e o que não está em jogo.

- **Negociação explícita** antes de qualquer cena, incluindo tempo, intensidade, equipamento e contexto.

- **Palavras de segurança** combinadas — ou sinais não verbais, quando a fala está impedida.

- **Cuidados posteriores** (aftercare), com atenção a necessidades físicas e emocionais depois da atividade.

- **Risco calculado:** técnicas como suspensão, piercing e procedimentos com fluidos exigem aprendizado formal, higiene e, no caso de intervenções corporais, acompanhamento profissional.

Ler o passado com interesse não significa reproduzi-lo. O valor desse tipo de arquivo está em compreender como determinadas imagens e vocabulários se formaram — e em contrastar isso com uma cultura de consentimento que hoje é condição, não detalhe.

## Segurança

- O material original é histórico (1973) e inclui encenações com linguagem de coerção; não deve ser lido como modelo de prática consensual.
- Temas como suspensão, piercing e procedimentos com fluidos exigem aprendizado formal, higiene e avaliação de risco antes de qualquer tentativa.
- Sempre combine consentimento, negociação e palavras de segurança antes de cenas que envolvam imobilização.
