Um episódio sobre memória, não sobre técnicas

No 35º programa de sua série dentro do podcast Erotic Awakening, o educador e autor Lee Harrington abandonou o formato de instrução técnica para falar de algo mais íntimo: o que uma comunidade faz com suas lembranças. O programa foi ao ar em 28 de setembro de 2013, mesma data em que se celebrava o chamado Dia do Coming Out Kink, e mistura reflexões pessoais, crítica ao consumismo de fim de ano e um memorial às pessoas da cena leather e BDSM que morreram na epidemia de HIV/aids.

Autenticidade erótica como projeto de vida

Harrington conta que estava ampliando o foco do próprio trabalho: menos em nichos específicos e mais na ideia de autenticidade erótica para qualquer pessoa. Seu argumento é simples e otimista — quem consegue ser honesto sobre desejo, limites e prazer na intimidade tende a ser mais honesto em outras áreas da vida. Na época, ele preparava uma campanha de financiamento coletivo para relançar Shibari You Can Use, publicado originalmente em 2006, e uma continuação, ambos em cores e em novo formato de publicação.

Presentear como forma de presença

Uma das passagens mais afetuosas do episódio trata de presentes. Ele relembra uma viagem a Xi'an, na China, onde comprou pequenos gatos de pelúcia feitos à mão para cada pessoa com quem se relacionava. Muitos responderam que não tinham nada para dar em troca. Para o apresentador, o presente não é uma transação: é a materialização do pensamento "você passou pela minha cabeça". O mesmo vale para um cartão-postal enviado de longe ou uma mensagem sem motivo aparente. Daí sua recusa em entrar na lógica de gastar um valor fixo por pessoa a cada dezembro.

Samhain e o véu fino

A parte central do programa é sobre Samhain, Halloween, Día de los Muertos e a Noite de Todos os Santos. O apresentador descreve essas datas como um momento em que a fronteira entre vivos e mortos é tênue: as abóboras esculpidas lembram crânios, as caveiras de açúcar convidam a sentar à mesa com quem já partiu, e as máscaras servem para que os vivos dancem sem serem reconhecidos por certos espíritos. É uma celebração que tem luto e festa ao mesmo tempo.

Harrington observa com humor que o Halloween virou também a noite em que o público não kink experimenta arquétipos de poder e deboche — a fantasia de dominatrix, o uniforme de policial, as algemas de pelúcia. Para ele, isso funciona como uma porta entreaberta: a roupa guardada na mala embaixo da cama pode voltar meses depois, a dois, dentro do quarto. Não é preciso pertencer a nenhuma comunidade para ter um lado kink, do mesmo modo que uma calda caramelizada já muda o sorvete de baunilha.

O que a comunidade perdeu

O tom fica grave quando o assunto é memória coletiva. Ele recorda que, no início dos anos 1980, surgiram os primeiros casos de uma síndrome então chamada GRID (deficiência imunológica relacionada a homens gays). Começou como gripe, evoluiu para lesões e definhamento, e passou a ceifar amigos. Uma amiga que trabalhava em Chicago e depois se mudou para a Flórida contou que segurava a mão de irmãos e irmãs da cena em leitos hospitalares e cuidados paliativos domiciliares — e parou de contar em 300 mãos.

Segundo os números citados no episódio, referentes a 2009, havia cerca de 35 milhões de pessoas vivendo com HIV no mundo e cerca de 30 milhões de mortes acumuladas. Entre a população leather e BDSM daquela geração, o apresentador estima perdas da ordem de 80% a 90%, o que ajudaria a explicar por que certas tradições da chamada Old Guard soam tão misteriosas hoje: quase todos os que as praticavam morreram.

Rituais de luto dentro da cena

Harrington cita um ensaio de Cleo Dubois, praticante que atravessou esse período ao lado de homens gays da cena, sobre a necessidade de rituais de luto. Ela descreve bailes e danças extáticas em que participantes carregavam pesos presos ao corpo por anzóis, enfeitados com limões e sinos, alternando o vaivém do corpo ao som dos nomes de quem havia morrido — uma forma de dizer esses nomes em voz alta e dançá-los para além do véu.

Essas práticas corporais integram o campo do body play e exigem Anatomia, assepsia, técnica apurada, negociação prévia detalhada, palavras de segurança e cuidados posteriores. São registros históricos de um ritual de luto, não um roteiro a ser reproduzido por iniciantes sem acompanhamento.

Um altar para quem abriu caminho

A proposta prática do episódio é modesta e bonita: montar um altar ou algum espaço de lembrança para as pessoas que tornaram nossa vida sexual mais fácil. O apresentador recua no tempo e convoca as mulheres que comandavam salões fetichistas no fim do século XIX, os homens de joelhos adorando botas, Leopold von Sacher-Masoch e suas polêmicas políticas antes de seu nome virar diagnóstico, as dominatrixes que conduziam clientes por desejos de humilhação antes de existir essa palavra.

A ideia se conecta ao Dia do Coming Out Kink, em 28 de setembro: assumir-se, para quem pode, é mais seguro quando existe uma linhagem visível de pessoas que já viveram algo parecido. Memória, nesse sentido, é infraestrutura de segurança emocional.

Para levar do episódio

  • Celebrar também é lembrar: datas como Samhain e o Dia dos Mortos permitem integrar luto e prazer.
  • Presentes valem pelo afeto que carregam, não pelo valor da nota fiscal.
  • Fantasias e arquétipos podem ser um ensaio seguro para desejos que depois ganham espaço na intimidade.
  • A história do meio kink é atravessada por perdas enormes, e conhecer essa história ajuda a receber bem quem chega agora.
  • Autenticidade, consentimento e cuidado com o outro são o mesmo projeto dentro e fora do quarto.

Segurança

  • Práticas de body play com anzóis e suspensão envolvem risco real de lesão e infecção: exigem treinamento específico, material esterilizado, negociação detalhada, palavras de segurança e cuidados posteriores.
  • Ao celebrar o Dia do Coming Out Kink, avalie riscos concretos: expor-se pode afetar trabalho, família e segurança pessoal, e ninguém é obrigado a sair do armário.
  • Em contextos de luto comunitário, combine previamente o que será compartilhado e respeite quem preferir o silêncio.
Fonte original

Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Lee Harrington. Recomendamos a leitura do original.

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