# Memória da comunidade kink: Samhain, luto e o Dia do Coming Out Kink

> Episódio do podcast Erotic Awakening trata da memória coletiva do meio leather e BDSM, do Halloween como véu fino entre vivos e mortos e da importância de honrar quem abriu caminhos.

- Tema: Cultura e arte
- Tags: memória-comunitária, comunidade-leather, samhain, luto, coming-out-kink, história, cultura-kink
- URL: https://arcanobdsm.com.br/a/memoria-da-comunidade-kink-samhain-luto-e-o-dia-do-coming-out-kink
- Fonte original: Lee Harrington (https://www.passionandsoul.com/blog/audio/sept2013)
- Atualizado: 2026-10-29

## Um episódio sobre memória, não sobre técnicas

No 35º programa de sua série dentro do podcast *Erotic Awakening*, o educador e autor Lee Harrington abandonou o formato de instrução técnica para falar de algo mais íntimo: o que uma comunidade faz com suas lembranças. O programa foi ao ar em 28 de setembro de 2013, mesma data em que se celebrava o chamado Dia do Coming Out Kink, e mistura reflexões pessoais, crítica ao consumismo de fim de ano e um memorial às pessoas da cena leather e BDSM que morreram na epidemia de HIV/aids.

## Autenticidade erótica como projeto de vida

Harrington conta que estava ampliando o foco do próprio trabalho: menos em nichos específicos e mais na ideia de autenticidade erótica para qualquer pessoa. Seu argumento é simples e otimista — quem consegue ser honesto sobre desejo, limites e prazer na intimidade tende a ser mais honesto em outras áreas da vida. Na época, ele preparava uma campanha de financiamento coletivo para relançar *Shibari You Can Use*, publicado originalmente em 2006, e uma continuação, ambos em cores e em novo formato de publicação.

## Presentear como forma de presença

Uma das passagens mais afetuosas do episódio trata de presentes. Ele relembra uma viagem a Xi'an, na China, onde comprou pequenos gatos de pelúcia feitos à mão para cada pessoa com quem se relacionava. Muitos responderam que não tinham nada para dar em troca. Para o apresentador, o presente não é uma transação: é a materialização do pensamento "você passou pela minha cabeça". O mesmo vale para um cartão-postal enviado de longe ou uma mensagem sem motivo aparente. Daí sua recusa em entrar na lógica de gastar um valor fixo por pessoa a cada dezembro.

## Samhain e o véu fino

A parte central do programa é sobre Samhain, Halloween, Día de los Muertos e a Noite de Todos os Santos. O apresentador descreve essas datas como um momento em que a fronteira entre vivos e mortos é tênue: as abóboras esculpidas lembram crânios, as caveiras de açúcar convidam a sentar à mesa com quem já partiu, e as máscaras servem para que os vivos dancem sem serem reconhecidos por certos espíritos. É uma celebração que tem luto e festa ao mesmo tempo.

Harrington observa com humor que o Halloween virou também a noite em que o público não kink experimenta arquétipos de poder e deboche — a fantasia de dominatrix, o uniforme de policial, as algemas de pelúcia. Para ele, isso funciona como uma porta entreaberta: a roupa guardada na mala embaixo da cama pode voltar meses depois, a dois, dentro do quarto. Não é preciso pertencer a nenhuma comunidade para ter um lado kink, do mesmo modo que uma calda caramelizada já muda o sorvete de baunilha.

## O que a comunidade perdeu

O tom fica grave quando o assunto é memória coletiva. Ele recorda que, no início dos anos 1980, surgiram os primeiros casos de uma síndrome então chamada GRID (deficiência imunológica relacionada a homens gays). Começou como gripe, evoluiu para lesões e definhamento, e passou a ceifar amigos. Uma amiga que trabalhava em Chicago e depois se mudou para a Flórida contou que segurava a mão de irmãos e irmãs da cena em leitos hospitalares e cuidados paliativos domiciliares — e parou de contar em 300 mãos.

Segundo os números citados no episódio, referentes a 2009, havia cerca de 35 milhões de pessoas vivendo com HIV no mundo e cerca de 30 milhões de mortes acumuladas. Entre a população leather e BDSM daquela geração, o apresentador estima perdas da ordem de 80% a 90%, o que ajudaria a explicar por que certas tradições da chamada Old Guard soam tão misteriosas hoje: quase todos os que as praticavam morreram.

## Rituais de luto dentro da cena

Harrington cita um ensaio de Cleo Dubois, praticante que atravessou esse período ao lado de homens gays da cena, sobre a necessidade de rituais de luto. Ela descreve bailes e danças extáticas em que participantes carregavam pesos presos ao corpo por anzóis, enfeitados com limões e sinos, alternando o vaivém do corpo ao som dos nomes de quem havia morrido — uma forma de dizer esses nomes em voz alta e dançá-los para além do véu.

Essas práticas corporais integram o campo do body play e exigem Anatomia, assepsia, técnica apurada, negociação prévia detalhada, palavras de segurança e cuidados posteriores. São registros históricos de um ritual de luto, não um roteiro a ser reproduzido por iniciantes sem acompanhamento.

## Um altar para quem abriu caminho

A proposta prática do episódio é modesta e bonita: montar um altar ou algum espaço de lembrança para as pessoas que tornaram nossa vida sexual mais fácil. O apresentador recua no tempo e convoca as mulheres que comandavam salões fetichistas no fim do século XIX, os homens de joelhos adorando botas, Leopold von Sacher-Masoch e suas polêmicas políticas antes de seu nome virar diagnóstico, as dominatrixes que conduziam clientes por desejos de humilhação antes de existir essa palavra.

A ideia se conecta ao Dia do Coming Out Kink, em 28 de setembro: assumir-se, para quem pode, é mais seguro quando existe uma linhagem visível de pessoas que já viveram algo parecido. Memória, nesse sentido, é infraestrutura de segurança emocional.

## Para levar do episódio

- Celebrar também é lembrar: datas como Samhain e o Dia dos Mortos permitem integrar luto e prazer.

- Presentes valem pelo afeto que carregam, não pelo valor da nota fiscal.

- Fantasias e arquétipos podem ser um ensaio seguro para desejos que depois ganham espaço na intimidade.

- A história do meio kink é atravessada por perdas enormes, e conhecer essa história ajuda a receber bem quem chega agora.

- Autenticidade, consentimento e cuidado com o outro são o mesmo projeto dentro e fora do quarto.

## Segurança

- Práticas de body play com anzóis e suspensão envolvem risco real de lesão e infecção: exigem treinamento específico, material esterilizado, negociação detalhada, palavras de segurança e cuidados posteriores.
- Ao celebrar o Dia do Coming Out Kink, avalie riscos concretos: expor-se pode afetar trabalho, família e segurança pessoal, e ninguém é obrigado a sair do armário.
- Em contextos de luto comunitário, combine previamente o que será compartilhado e respeite quem preferir o silêncio.
