# Ms. Reemah: cordas, terapia e representatividade na cena kink

> Perfil de Ms. Reemah, dominadora, rigger e conselheira de saúde mental licenciada, que articula shibari, pedagogia e cuidado com pessoas de comunidades marginalizadas.

- Tema: Cultura e arte
- Tags: shibari, comunidade, saúde mental, representatividade, educação, atlanta, terapia
- URL: https://arcanobdsm.com.br/a/ms-reemah-cordas-terapia-e-representatividade-na-cena-kink
- Fonte original: Shibari Study (blog) (https://shibaristudy.com/blog/post/meet-the-shibari-study-instructors-ms-reemah)
- Atualizado: 2026-10-30

## Quem é Ms. Reemah

Dominadora, rigger e educadora de cordas, Ms. Reemah construiu uma trajetória que atravessa a cena kink de Atlanta, nos Estados Unidos, e a área clínica da saúde mental. Sua presença em espaços BDSM começa a se firmar a partir de 2017, quando passa a atuar em conselhos executivos de grupos locais como o Rope Bite Atlanta e o Melanin Munch. Mais tarde, ajuda a fundar o coletivo de cordas Haus Obsidian.

Antes de ocupar posições de liderança, porém, havia apenas o prazer de amarrar. Para ela, a corda funciona como forma privilegiada de conexão e de expressão criativa. Com formação em artes visuais e performáticas, Reemah valoriza o apelo estético da prática: diz que sente diante de uma transição de cordas algo parecido com o que sente diante de uma escultura ou de uma peça de teatro — com a diferença de que ali há um corpo vivo, com o qual se pode compor movimento.

## Corda como linguagem de vínculo

A dimensão relacional aparece tanto no sentido literal quanto no figurado. Rigger e bottom ficam fisicamente atados um ao outro, sustentando a mesma linha, e é desse compartilhamento que nasce o vínculo emocional. Reemah descreve a experiência como uma conexão que dispensa muitas palavras.

Isso tem peso particular para ela, que se identifica como uma introvertida ansiosa inserida em uma profissão altamente social. A amarração oferece um caminho de intimidade que exige menos energia do que uma longa conversa. Ela relata que, em uma época em que namorava alguém com quem a comunicação era difícil, propôs uma sessão de cordas durante um conflito; ao final, o casal conseguiu retomar o assunto original com mais clareza. Reemah interpreta esse tipo de cena como genuinamente terapêutico — em suas palavras, sentiu-se mais receptiva ao que estava sendo dito e mais capaz de se expressar.

## Terapeuta e rigger: a mesma escuta

A leitura não é casual: Reemah é conselheira de saúde mental licenciada. Ela aplica às duas práticas uma abordagem semelhante, procurando conhecer a fundo tanto as pessoas que atende no consultório quanto as pessoas que amarra, para adaptar a experiência a cada indivíduo.

Sua formação inclui bacharelados em Psicologia e Administração, mestrado em Aconselhamento Clínico em Saúde Mental e atualmente um doutorado com foco em pedagogia — a teoria e a prática do ensino. Durante a pós-graduação, trabalhou com pessoas encarceradas, incluindo autores de crimes violentos não sexuais, população que percebeu ser majoritariamente negra e de baixa ou nenhuma renda. O contato com histórias de vida tão diversas, segundo ela, ajudou a desmontar vieses sobre desvio social e a reforçar uma disposição para acolher pessoas independentemente de origem, aparência ou histórico.

Em seus atendimentos, Reemah passou a fazer autorrevelação medida sobre kink e identidade queer, com o objetivo de normalizar temas que muitos clientes raramente encontram acolhidos em outros espaços. Ela relata ter recebido pessoas que diziam ter sido prejudicadas por terapeutas anteriores justamente por causa de despreparo em relação a dissidências sexuais, kink e não monogamia.

## Pesquisa e ativismo dentro da comunidade

A ausência de formação obrigatória em sexualidade humana nos programas de pós-graduação incomodou Reemah a ponto de orientar sua pesquisa de doutorado para o tema. Ela trabalha em uma proposta de dissertação voltada à criação de uma escala de competência em kink e BDSM para profissionais de saúde mental, com o objetivo de tornar esse conteúdo exigência curricular e fomentar protocolos terapêuticos mais éticos.

Na cena de Atlanta, o grupo Black FemDoms Atlanta teve papel decisivo em sua formação. Foi ali que aprendeu a conduzir sessões centradas na experiência de quem está sendo amarrado, em vez de no protagonismo de quem amarra. Sua postura é explícita: se algo não corre bem ou se a pessoa não está tendo uma boa experiência, a responsabilidade é do rigger. Também foram suas mentoras que a incentivaram a se tornar instrutora; ela duvidava da própria qualificação, apresentou-se em sua primeira conferência e seguiu ensinando desde então.

## Representatividade e cuidado informado por trauma

A prática de Reemah prioriza experiências marginalizadas, com atenção especial a pessoas queer e gordas. No início de seu percurso, ela encontrou quase apenas imagens de bottoms brancos e magros, o que a fez questionar se a corda era mesmo um caminho para alguém negra e gorda. Ao encontrar o perfil de uma praticante de corpo maior, escreveu imediatamente; o incentivo recebido foi para que ela própria criasse as imagens que gostaria de ver. Daí veio a decisão de dedicar seu trabalho a bottoms negros e racializados de todos os tamanhos.

Ela também chama atenção para trauma e deficiência, temas que considera escassos tanto no meio acadêmico quanto nos espaços kink. Quanto mais identidades marginalizadas uma pessoa carrega, maior a probabilidade de ela ter vivido alguma experiência traumática — algo que, segundo Reemah, a pesquisa empírica sustenta. Por isso, defende que não é possível transitar por esse universo sem uma postura informada por trauma.

Apesar da multiplicidade de funções, ela entende seu trabalho sobretudo como um encontro entre duas paixões: ensinar e amarrar. Sua convicção é a de que, quando as pessoas sabem mais, podem fazer melhor. E resume: "a corda é a minha linguagem de amor".

## Segurança

- Toda prática de cordas deve ser precedida de negociação clara de limites, expectativas e palavras de segurança.
- Suspensões e amarrações com carga no corpo envolvem risco de lesão nervosa e circulatória; busque formação presencial e nunca pratique sozinho.
- O cuidado posterior (aftercare) faz parte da cena: combine antes como será o retorno ao estado cotidiano de cada pessoa.
- Abordagens informadas por trauma exigem consentimento contínuo e disposição para interromper a prática a qualquer momento.
