# Revista Fuzoku Kitan de 1961: um retrato da imprensa SM japonesa do pós-guerra

> O arquivo do Kinbaku Today apresenta a edição de março de 1961 da revista Fuzoku Kitan, que misturava ensaios, ficção, fotografia de cordas, fetichismo de espartilho, cross-dressing e colunas de leitores. O material é um documento histórico da imprensa SM japonesa do pós-guerra.

- Tema: História
- Tags: japão, revista histórica, pós-guerra, kinbaku, fetichismo, cross-dressing, arquivo
- URL: https://arcanobdsm.com.br/a/revista-fuzoku-kitan-de-1961-um-retrato-da-imprensa-sm-japonesa-do-pos-guerra
- Fonte original: Kinbaku Today (https://www.kinbakutoday.com/sm-issue/march-1961-3)
- Atualizado: 2026-10-30

## Um documento da imprensa SM japonesa

O site Kinbaku Today mantém um arquivo dedicado a publicações japonesas ligadas a cordas, fetichismo e sadomasoquismo. Entre os itens catalogados está a edição de março de 1961 da revista **Fuzoku Kitan**, com 111 páginas em PDF e um índice de 32 conteúdos. A descrição disponível no arquivo é útil não tanto pelo conteúdo em si — muitas vezes ficcional e violento —, mas pelo que revela sobre como esse tipo de revista era organizada e consumida no Japão do pós-guerra.

A edição gira em torno de um destaque anunciado com destaque: **"O Mundo do Masoquista"**. Ainda assim, o escopo é bem mais amplo do que o título sugere, reunindo ensaio, ficção seriada, fotografia, ilustração histórica europeia, colunas de leitores e material sobre cross-dressing.

## Estrutura da revista

A publicação abre com uma sequência fotográfica extensa e só depois entra no texto. Segundo a descrição do arquivo, a revista se divide em blocos:

- material fotográfico de abertura, com mulheres amarradas em cenários de neve e em interiores japoneses;

- uma seção ilustrada dedicada a imagens históricas europeias de espartilho, açoite, punição e restrição;

- ensaios e ficções sobre masoquismo, dominação e violência;

- uma parte de fetichismo de espartilho;

- textos autobiográficos sobre cross-dressing;

- colunas de cartas de leitores e avisos editoriais.

Essa mistura é típica da identidade editorial da revista: curiosidade sexológica, ficção pulp, fragmentos documentais, ilustração histórica e fotografia encenada de cordas convivendo no mesmo número.

## Fotografia: neve, quimono e cordas

A gravura de abertura é descrita como incomumente extensa. Sequências como *Snow Terrace* fotografam mulheres amarradas em paisagens nevadas e em interiores, colocando lado a lado quimono, uniforme escolar estilo marinheiro, nudez, corda, cadeiras e ambientes arquitetônicos tradicionais. Outros conjuntos se concentram na resposta do corpo à imobilização: amarração em cadeira, ataduras no tórax, posições no chão, restrição de pernas, mordaças e cordas cruzando o tronco.

Há também encenações em ambientes de estilo Edo, com lanternas e decoração tradicional, além de uma sequência que reproduz um tableau de seppuku — recurso teatral que associa nudez, lâmina e encenação de sofrimento. Do ponto de vista histórico, essas imagens mostram como a fotografia de cordas já era, no início dos anos 1960, um gênero visual com convenções próprias: cenário, pose, enquadramento e tensão entre controle e aparente desconforto.

## Textos: ensaio, ficção e relatos

O bloco de prosa começa com o ensaio **"O Mundo do Masoquista"**, de Okumura Sekio, que distingue masoquismo de sadismo e discute passividade, submissão, gratificação e relações heterossexuais. É um texto de divulgação sexológica, característico do interesse da época em classificar e explicar as chamadas "perversões".

Na sequência aparecem narrativas ficcionais. O arquivo lista títulos como *War Atrocities: Four Stories*, de Kan Ryōta, que encena interrogatórios, cativeiro, tortura e violência sexual em contexto de guerra; *Beautiful Cruel Demon*, de Umyōin Itta, sobre dominação coercitiva, cativeiro e cordas; e a longa história *God, Drop Dead*, com sequestros, confinamento e punições elaboradas. Há ainda *White Tower: Red-and-White Blood Match*, de Shinoda Fujimi, ambientada em uma casa feudal, e o romance urbano *At the Bottom of the City's Night*, de Aoyama Miekichi.

É importante situar esse material como ficção de época, marcada por uma estética de crueldade e coerção. Esses enredos não descrevem práticas consensuais e não devem ser lidos como modelo de conduta — são produtos de um imaginário pulp, muitas vezes sensacionalista, que hoje serve sobretudo como objeto de estudo.

## Fetichismo, cross-dressing e comunidade

Outro eixo do número é o fetichismo de vestuário. **"Corset Fetishism: Eight Scenes"** reúne imagens históricas e comerciais de mulheres em espartilhos, tratando a peça ao mesmo tempo como roupa e como objeto de fetiche. A seção ilustrada *The Strange World* reproduz gravuras europeias antigas de espartilho, chicotes, aparelhos de punição e restrição, apresentadas como evidência de uma história transnacional dessas práticas.

No campo da expressão de gênero, o texto autobiográfico **"My Half-Life in Women's Clothing"**, de Mishima Yayoi, narra décadas de uso de roupas femininas, do período da infância à vida adulta, passando pelo segredo social e pelo significado emocional do cross-dressing. Há também uma seção dedicada a um espaço de convivência para entusiastas do cross-dressing feminino, além de um texto sobre beleza masculina andrógina assinado por Kabiya Kazuhiko.

A parte comunitária fica por conta de *Reader Salon* e *Salon Masochistica*, que publicam cartas de leitores e respostas da redação sobre fotografias preferidas, modelos, poses, imagens de bondage e dominação feminina. O arquivo observa que os leitores ajudavam a moldar a cultura visual da revista, pedindo informações sobre modelos e enviando contribuições.

## Por que esse arquivo importa

A edição de março de 1961 é um retrato de como temas hoje discutidos sob o guarda-chuva do BDSM circulavam na cultura impressa japonesa: como espetáculo fotográfico, identidade sexual, fantasia literária, prática histórica, fetiche de vestuário e comunidade de leitores. O valor do documento está nessa sobreposição — e no contraste entre a linguagem da época, frequentemente sensacionalista, e a forma como o meio kink contemporâneo passou a valorizar consentimento, negociação e cuidado mútuo.

Para quem pesquisa história da imprensa erótica, do bondage japonês ou dos discursos sobre gênero no pós-guerra, o arquivo do Kinbaku Today funciona como fonte de consulta e como lembrete de que a cultura do corda tem uma longa trajetória editorial, cheia de camadas e contradições.

## Segurança

- As narrativas ficcionais de 1961 descritas na fonte retratam cativeiro e coerção; elas não são modelo de prática e não representam BDSM consensual.
- Práticas com cordas exigem aprendizado, materiais adequados, tesoura de segurança à mão e combinação prévia de palavras de segurança.
- Restrição de tórax e pescoço, suspensões e exposição ao frio envolvem riscos físicos sérios e pedem supervisão experiente.
- Imagens e textos históricos podem conter racismo, misoginia e estereótipos da época; contextualize ao compartilhar.
