# Revista Sun & Moon: a estreia de 1977 e o SM como prática cotidiana

> A edição inaugural da revista japonesa Sun & Moon, de março de 1977, reúne relatos, fotografias amadoras e noções de cordas para discutir o SM dentro de relações. O arquivo histórico mostra a passagem da fantasia impressa ao cotidiano de praticantes.

- Tema: História
- Tags: história do bdsm, revistas japonesas, sun & moon, kinbaku, cultura sm, arquivo, 1977
- URL: https://arcanobdsm.com.br/a/revista-sun-moon-a-estreia-de-1977-e-o-sm-como-pratica-cotidiana
- Fonte original: Kinbaku Today (https://www.kinbakutoday.com/sm-issue/march-1977)
- Atualizado: 2026-10-30

## Um arquivo de 1977

A página do Kinbaku Today dedicada à edição de março de 1977 da revista japonesa Sun & Moon funciona como um arquivo comentado. São 118 páginas digitalizadas que apresentam a primeira edição de uma publicação voltada a um público interessado em SM. O material não é apenas uma curiosidade: ele ajuda a entender como revistas especializadas japonesas passaram a dar espaço a relatos de praticantes, fotografias domésticas e discussões técnicas, em vez de se limitarem a ensaios médicos, ficção ou imagens comerciais.

## Uma proposta relacional

O editorial de abertura, chamado “Like the Sun and Moon”, usa a ideia de opostos complementares. Sadismo e masoquismo, marido e mulher, dominação e submissão aparecem como posições que ganham sentido em relação. A revista não se apresenta como um diagnóstico de perversão isolada; ela tenta mostrar como inclinações compatíveis podem ser aproximadas. Essa escolha é significativa para a época, pois desloca o foco do indivíduo “anormal” para a dinâmica entre pessoas.

A edição também herda elementos de publicações anteriores, inclusive cenários coercitivos e suposições de gênero. Ao mesmo tempo, o tom é mais prático, confessional e participativo. Em vez de personagens fictícios, há mesas-redondas, cartas, depoimentos e fotos de casais em ambientes comuns.

## Conversas e depoimentos

Uma das principais matérias é uma mesa-redonda com praticantes experientes. Eles conversam sobre impacto, contenção, implementos, dor, prazer e negociação dentro de relacionamentos. As imagens que acompanham o texto mostram demonstrações e posições corporais. O tratamento dado ao assunto é informal e, por vezes, sensacionalista, mas a experiência deixa de ser algo escondido atrás de vilões de ficção e passa a ser discutida coletivamente.

Outro bloco importante são os relatos em primeira pessoa. Um texto descreve a transformação de um casamento por meio do SM, incluindo descoberta, experimentação, disciplina corporal e formação gradual de papéis complementares. A fronteira entre testemunho e fantasia erótica nem sempre é clara, e o próprio arquivo observa essa ambiguidade. Há também narrativas sobre relacionamentos organizados em torno de treinamento e autoridade, além de depoimentos de esposas que falam de ciúme, vergonha, excitação e a relação incerta entre casamento e role play.

Esses textos levantam perguntas que continuam atuais: o SM fortalece a intimidade? Revela desejos escondidos? Ou oferece uma forma teatral para tensões que já existiam no casal? A revista não responde de maneira uniforme.

## O spanking e as cordas

A publicação retorna várias vezes ao spanking. Um depoimento de uma mulher trata de surras nas nádegas, enquanto fotografias isolam marcas, implementos e reações corporais. O foco em impacto amplia o campo do SM para além das cordas e o situa entre sensação, disciplina e punição ritualizada. É importante lembrar que o material histórico não segue protocolos de segurança contemporâneos e não deve ser lido como manual.

As cordas também aparecem como assunto técnico. Uma coluna ensina um arranjo de amarração dos braços atrás das costas, com fotografias e comentários sobre colocação, efeito visual e controle. A abordagem não é um guia moderno de segurança, mas mostra o kinbaku sendo tratado como ofício ensinável, e não apenas como símbolo de captura. Outro fotoensaio acompanha uma cena encenada em um quarto japonês, com contenções no chão e em cadeiras, além de ajustes graduais das cordas. O comentário descreve conversa, hesitação, correção e mudança de posições, em vez de uma única imagem congelada.

## Corpos comuns, espaços domésticos

Os portfólios fotográficos finais são notáveis pela variedade de modelos amadoras e estilos de contenção. Aparecem mulheres grávidas, mulheres de meia-idade, corpos mais cheios, esposas fotografadas em salas domésticas e modelos enviadas por leitores. Isso contrasta com a estética comercial polida. Quartos comuns e corpos comuns ocupam o centro da identidade visual da revista.

A edição também inclui fotografias estrangeiras de SM, notícias sobre publicações internacionais, desenhos de bondage e discussões sobre a história das revistas do gênero. Um ensaio, “The Collector of Humiliation”, examina publicações antigas e álbuns fotográficos, colocando Sun & Moon dentro de uma linhagem que passa pela Kitan Club e por outras revistas especializadas.

## Por que esse arquivo importa

Para leitores interessados em história do BDSM e do kinbaku, a primeira edição de Sun & Moon é valiosa porque registra a passagem da fantasia impressa para a prática amadora. Ela ainda carrega cenários coercitivos e pressupostos de gênero de uma cultura anterior, mas começa a perguntar como cordas, impacto, role play e submissão funcionam dentro de relações reais. O resultado é híbrido: parte manual, parte confessionário, parte álbum de fotos amador e parte laboratório social.

Ler esse material hoje exige cautela. O valor histórico não equivale a endosso de técnicas, enquadramentos ou relações de poder representadas. Consentimento, negociação, palavras de segurança e cuidados posteriores são critérios atuais indispensáveis. A edição de 1977 deve ser vista como documento de época, não como modelo de conduta.

## Segurança

- Material histórico: não use a edição de 1977 como manual de segurança; técnicas de corda e impacto exigem aprendizado atual e supervisão.
- Consentimento e negociação devem ser contínuos, com palavras de segurança e checagem antes, durante e depois.
- Fotografia e publicação de imagens íntimas exigem consentimento explícito e cuidado com privacidade.
- Gestação, restrição respiratória e suspensões envolvem riscos específicos; procure orientação especializada.
