# Uramado, novembro de 1964: teoria do masoquismo e ficção em revista

> O número de novembro de 1964 da revista japonesa Uramado reunia ensaios sobre psicologia do masoquismo, ficção ilustrada, quadrinhos fetichistas importados dos EUA e crítica de cinema. O arquivo mostra como a publicação articulava literatura, sexologia e cultura visual.

- Tema: História
- Tags: história do bdsm, japão, revista uramado, masoquismo, cultura fetichista, arquivo, john willie
- URL: https://arcanobdsm.com.br/a/revista-uramado-de-novembro-de-1964-arquivo-historico-do-bdsm-japones
- Fonte original: Kinbaku Today (https://www.kinbakutoday.com/sm-issue/november-1964?flipbook_page=159)
- Atualizado: 2026-11-01

## Uma revista que não cabia em um só rótulo

O volume 9, número 11, da revista japonesa **Uramado**, datado de novembro de 1964, chega até nós pelo arquivo digital do site Kinbaku Today. São 214 páginas em PDF que revelam uma publicação difícil de classificar: ao mesmo tempo antologia literária, plataforma de ensaio psicológico, vitrine de arte fetichista estrangeira e boletim de uma comunidade de leitores. Em vez de se dedicar a um único tema, o número funciona como ponto de encontro entre discussão sobre masoquismo, fetichismo, cordas e imobilização, psicologia sexual, cultura pop e literatura de imaginação.

O sumário ilustrado, que abre a edição, já indica essa amplitude: ensaios analíticos, contos seriados, histórias em quadrinhos importadas, resenhas de filmes, seções de bibliografia e correspondência de leitores convivem no mesmo espaço editorial.

## Do ensaio à ficção

A edição começa com um texto de tom polemista, *Helping Strength by Examining Weakness*, que desloca a discussão para a política e a comunicação de massa — cinema sensacionalista, publicidade, relações de consumo e a ação militar norte-americana no Vietnã — para argumentar que instituições se alimentam da fragilidade alheia enquanto dizem proteger o público.

Na sequência, dois trabalhos consolidam a vocação analítica do número. O longo *Yellow Gospel*, de Awaji Shūgo, é uma narrativa em primeira pessoa; já *Scratching at the Heart of Masochistic Psychology*, de Andō Izumi, faz crítica literária e psicológica, lendo relatos eróticos e histórias de caça à baleia para pensar sensação corporal, humilhação, desejo e transgressão como matérias-primas da caracterização ficcional.

Outro bloco importante é ocupado por *Seeking Freedom from Perversion*, de Toyama Kazuhiko, que percorre mudanças de atitude em relação à homossexualidade e ao conceito de "perversão", tratando de redes sociais gays, mídia erótica, encontros públicos, discriminação e restrições legais. O texto contrasta convenções estigmatizantes com formas mais abertas de comunidade e expressão identitária — um registro raro para a época.

## Imagens, cordas e o olhar estrangeiro

A dimensão visual da revista é extensa. Uma abertura fotográfica encenada mostra poses estilizadas com cordas e aparelhos de suspensão em estúdio. *Negative Picture*, de Tsukumo Jūrō, é uma fantasia psicológica em que memória, desejo e realidade se confundem. Há ainda ilustrações de página inteira, como *Famous Moon*, de Furumasa Hideo, com uma mulher de quimono sob a lua de outono.

O ponto alto para quem estuda a circulação internacional de imagens fetichistas é a reprodução prolongada de *The Gwendoline Story*, de **John Willie**: arte sequencial em estilo quadrinhos, com diálogos em inglês preservados e texto narrativo e explicativo em japonês. Na trama, personagens femininas dominantes invertem papéis de gênero convencionais. Logo depois, *From My Collection*, de Morishita Takashige, comenta desenhos, fotografias, moda e imagens de dominação estrangeiras, evidenciando o papel da revista como porta de entrada de cultura visual erótica ocidental no Japão.

## Serialização e comunidade

A parte final é dominada por séries de longa duração: *Strange Bat Castle*, de Ushio Kazuki; a oitava parte de *Prayer to the Arrogant Goddess*, de Morimoto Aizō; e a vigésima de *Gordon's Memories*, de Ama Tetsurō. A teoria do masoquismo também retorna em série, no 29º capítulo de *Body-on Masochism Theory*, de Mizuo Kyū, que mistura especulação psicológica e um caso ficcional extenso. Outros nomes assinam narrativas seriadas, entre eles Segawa Miki, Hajima Shichirō e Ayukawa Yōji.

O cinema comparece em *Car and a Dancing Beauty*, de Fujimi Iku, análise de um filme alemão que discute papéis de dominação e submissão, exibição corporal e performance. Fechando o volume, um índice completo de números anteriores, a seção miscelânea *Uramado Town*, avisos, correspondência de leitores e o posfácio editorial documentam não apenas o catálogo da revista, mas a própria comunidade que se formava em torno dela.

## Por que esse arquivo importa

Para quem pesquisa a história do BDSM, o número é valioso por três razões. Primeiro, mostra a existência de um circuito editorial japonês sofisticado já em meados dos anos 1960, capaz de aliar erudição e erotismo. Segundo, registra a tradução e a adaptação de material ocidental para leitores japoneses, com comentários que ajudam a entender mediações culturais. Terceiro, revela como uma publicação construía identidade coletiva por meio de cartas, índices e convites à participação do público.

Vale uma ressalva importante: boa parte da ficção ali publicada encena captura, coerção e humilhação como recursos narrativos e voyeurísticos. Essas fantasias literárias não descrevem práticas seguras nem servem como manual. A ética contemporânea do kink se apoia em consentimento informado, negociação prévia, palavras de segurança e cuidados posteriores — parâmetros que não organizavam o imaginário dessas revistas, mas que hoje são indispensáveis para qualquer prática real.

## Segurança

- O conteúdo ficcional da revista de 1964 encena coerção e não consentimento como fantasia literária; isso não deve ser tratado como modelo de prática real.
- Práticas com cordas, imobilização ou suspensão exigem aprendizado presencial, negociação prévia, palavras de segurança e atenção a riscos circulatórios e nervosos.
- Cenas de humilhação e dor só são aceitáveis com consentimento informado e revisão contínua dos limites.
- Reserve tempo para cuidados posteriores e conversa sobre o que aconteceu depois de qualquer cena.
