A representação de BDSM no audiovisual costuma repetir uma fórmula: um homem poderoso e moralmente ambíguo, uma mulher submissa e cenas feitas para chocar. O texto original do Shibari Study observa que essa imagem estreita está longe da diversidade real do kink. A seguir, quatro obras comentadas que ampliam esse repertório — não como manuais, mas como ficções capazes de discutir poder, consentimento, negociação e cuidado.
Billions — episódio piloto (2016)
No piloto da série, dirigido por Neil Burger, o público conhece Chuck Rhoades, interpretado por Paul Giamatti, em uma situação de submissão. A cena inicial é curta, mas estabelece algo importante: o personagem aparece vulnerável e sem controle antes de sabermos que ele ocupa um cargo de autoridade. A revelação de que sua esposa é a dominatrix misteriosa transforma o choque em caracterização.
O diferencial aqui é que a dinâmica D/s não surge como exceção patológica. Ela faz parte de um casamento estável, com confiança e entendimento mútuo. A obra sugere que o casal leva a prática tão a sério quanto a vida que construiu. Para o público, fica o lembrete de que cenas intensas dependem de acordo prévio, limites claros e responsabilidade — não de improviso irresponsável.
Pleasure (2021)
Dirigido por Ninja Thyberg, o filme acompanha Bella, uma jovem que chega de Estocolmo a Los Angeles com o sonho de entrar na indústria adulta. A narrativa mostra os bastidores de gravações e festas, incluindo uma cena BDSM com flogger e suspensão de cordas. O ponto mais valioso não está no choque, mas no cuidado ao redor da produção.
Uma equipe formada por mulheres oferece água, lubrificante e negocia limites sobre linguagem degradante. Essa atenção ao bem-estar mostra que consentimento e segurança não são detalhes: são condições para que a cena aconteça. A obra também indica que cuidados posteriores e comunicação contínua importam tanto em contextos profissionais quanto privados. Ficção, porém, não substitui treinamento real.
Sanctuary (2022)
No thriller dirigido por Zachary Wigon, Margaret Qualley interpreta Rebecca, uma dominatrix, e Christopher Abbott vive Hal, um herdeiro de hotel. A relação entre os dois envolve jogos psicológicos, dominação financeira e uma disputa constante de vontades. Não é um retrato confortável ou edificante do kink, e a própria obra parece saber disso.
A produção parte do princípio de que o público reconhece sinais de risco e não deve reproduzir o que vê. A dinâmica apresentada não segue modelos de segurança e negociação saudáveis; ela é tensionada pela ficção. Ao mesmo tempo, o filme trata o trabalho de Rebecca como uma renda legítima e valiosa, algo que Hal reconhece. Essa nuance evita reduzir a dominatrix a um estereótipo moralista.
Transparent — 3ª temporada (2016)
Na série da Amazon Prime, Sarah Pfefferman, a filha mais velha, vive uma crise pessoal e se aproxima de um espaço BDSM em um festival fictício. A primeira experiência com flogging a conecta ao próprio corpo e a tira de padrões mentais repetitivos. Pony, a pro-domme do festival, é interpretada pela artista Jiz Lee, e o episódio tem direção de Silas Howard.
A trama não trata o kink como simples curiosidade. Mostra que práticas intensas podem mobilizar ansiedade, raiva e emoções antigas. Por isso, negociação, limites e cuidado emocional são essenciais. A obra também apresenta um raro retrato de redescoberta sexual na meia-idade, ligado a autoconhecimento e não apenas a outra pessoa.
O que essas obras ensinam
As quatro produções fogem de uma visão única do BDSM, mas não devem ser usadas como guia. Cinema e televisão podem abrir conversas sobre poder, prazer, identidade e consentimento; não substituem educação, treinamento e diálogo. Práticas com cordas, floggers ou imobilização exigem aprendizado, combinação de palavras de segurança, avaliação de riscos e cuidados posteriores.
Representar BDSM com mais honestidade significa mostrar também o trabalho de cuidado que sustenta uma cena: conversa antes, atenção durante e acolhimento depois. Ficções podem ampliar o repertório cultural, mas a segurança continua sendo responsabilidade de quem pratica.
Imagens da publicação original
Imagens reproduzidas da publicação original em Shibari Study (blog), com autorização. Os direitos pertencem aos autores e fotógrafos. É titular e quer a remoção? Solicite aqui.
Segurança
- As obras citadas são ficções e não servem como manual; busque informação, treinamento e negociação antes de qualquer prática.
- Dinâmicas como as de Sanctuary envolvem jogos psicológicos e situações de risco; não reproduza sem consentimento contínuo, limites claros e palavras de segurança.
- Práticas com cordas, floggers ou imobilização exigem aprendizado, avaliação de riscos e cuidados posteriores; procure orientação de pessoas experientes.
Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Shibari Study (blog). Recomendamos a leitura do original.
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