Em setembro de 2023, a National Coalition for Sexual Freedom (NCSF) celebrou o Mês do Consentimento com uma entrevista conduzida por Seq, membro do conselho e presidente do comitê de diversidade, equidade e inclusão. A conversa foi com Midori, educadora, artista e referência em sexualidade alternativa, BDSM e shibari. Em vez de apresentar o consentimento como uma lista fechada de regras, a entrevista o descreve como um tema social em construção, que também atravessa as subculturas eróticas e exige reflexão contínua.
Modelo capitulativo
Midori propõe observar o consentimento por dois enquadramentos amplos. O primeiro é o modelo capitulativo, no qual uma pessoa cede autonomia ou transfere a outra a decisão. Esse formato tende a produzir uma dinâmica passiva para um dos lados e lembra a lógica de vencedor e perdedor, além de uma visão defensiva dos limites, comparados a muros. A educadora observa que essa lógica aparece em representações populares de dominação e submissão e em conversas superficiais na internet, mas está tão enraizada na cultura, na linguagem, no direito e na etiqueta que costuma passar despercebida.
Modelo cooperativo
O segundo é o modelo cooperativo, baseado em colaboração e em acordos mutuamente benéficos. Ele exige que todas as pessoas envolvidas reflitam sobre o que realmente lhes faz bem e sobre como combinar necessidades sem anular nenhuma delas. Midori usa uma analogia com química: dois elementos diferentes podem formar algo novo e único, mas combinações mal avaliadas também podem gerar reações destrutivas. Por isso, o desafio começa antes do sim, do não ou do talvez: é preciso reconhecer o que cada pessoa busca e criar, com imaginação, um acordo que funcione para todos. A entrevista critica a dificuldade cultural de incentivar criatividade e imaginação expansiva na vida adulta.
Consentimento engajado e colaborativo
Midori prefere falar em consentimento engajado e colaborativo, em vez de usar apenas os rótulos entusiasmado ou informado. Ela explica que pode ser difícil sentir entusiasmo por algo ainda não experimentado, enquanto a busca por informação pode se tornar infinita e gerar paralisia. Como exemplo, relata a decisão de saltar de paraquedas: não havia entusiasmo ingênuo, mas engajamento consciente, cooperação com a equipe e reconhecimento do medo. A ideia central é que a pessoa se sinta agente da decisão e participe ativamente da construção da experiência.
Consent Dojo e educação
A entrevista também aborda o projeto Consent Dojo. Midori conta que foi convidada a ensinar consentimento de forma isolada, mas recusou a proposta de transformar o tema em uma fórmula segura, com currículo rígido e certo ou errado. Para ela, o consentimento é complexo e cheio de nuances, e ninguém domina todas as perspectivas. O projeto nasceu como um espaço de aprendizagem em que ela convida pessoas com experiências variadas para ensinar e conversar. Entre convidados, já passaram terapeutas, artistas, especialistas em segurança digital, organizadores de festas, autores, professores e profissionais de BDSM. O Consent Dojo está em seu terceiro ano e segue gratuito, financiado em grande parte por apoiadores.
Midori, arte e projetos atuais
Midori se apresenta como educadora, artista e consultora. Nascida e criada no Japão, vive há mais de 30 anos em São Francisco e se identifica como japonesa e nipo-americana. Ela mantém um estúdio de arte e produz pinturas, esculturas, instalações e performances. Na entrevista, defende abertamente que artistas vivos sejam remunerados e convida o público a comprar obras, ingressos e livros de criadores contemporâneos. Atualmente, atua como co-diretora de currículo do programa Kink Informed Certification da Sexual Health Alliance, voltado a terapeutas, coaches e organizadores comunitários. Também retomou o ForteFemme Women’s Dominance Intensive, encontro presencial para mulheres que explora poder e agência autênticos, e trabalha em um novo livro na esteira de Seductive Art of Japanese Bondage, com prévias gratuitas publicadas no blog da TwistedMonk.
Cuidados e aplicação prática
Para quem participa de práticas de kink, as ideias da entrevista reforçam que consentimento não é apenas um sim inicial. Ele precisa ser negociado, checado ao longo da cena e revisitado depois. Combinar palavras de segurança, formas de comunicação não verbal e planos de interrupção é parte da responsabilidade de todas as pessoas envolvidas. Práticas de cordas, imobilização ou impacto exigem treinamento, atenção a riscos físicos e cuidados posteriores. A proposta cooperativa não elimina assimetrias ou conflitos; ela pede que sejam tratados com conversa, criatividade e responsabilidade compartilhada. Todo o conteúdo é destinado a adultos e deve ser adaptado ao contexto, às necessidades e aos limites de cada pessoa.
Segurança
- Consentimento deve ser contínuo, negociado e verificado ao longo da prática, não apenas no início.
- Combine palavras de segurança e formas de checagem antes de qualquer cena; revise depois.
- Práticas de cordas e imobilização exigem treinamento, supervisão e atenção a riscos físicos.
- Cuidados posteriores e conversa sobre limites ajudam a preservar o bem-estar emocional.
Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de NCSF - National Coalition for Sexual Freedom. Recomendamos a leitura do original.
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