Publicada originalmente em 2008 e republicada em 2019, a entrevista conduzida por Osada Steve com Miura Takumi aborda a formação de um nawashi, o ensino do shibari e a relação entre tradição e segurança. Takumi é apresentado como alguém com cerca de quinze anos de prática na época, sendo sete deles como profissional. O texto ajuda a entender como um praticante japonês pensa a corda para além da estética: como técnica, patrimônio e responsabilidade.
Da curiosidade ao ofício
Takumi conta que o primeiro contato veio pelo interesse em SM, mas que a curiosidade cresceu ao perceber as possibilidades construtivas da corda. Para ele, o fascínio está em criar formas e estruturas variadas com um único pedaço de corda, explorando um potencial criativo que considera ilimitado. Como nawashi profissional, relata uma rotina diversificada: apresentações ao vivo, participação em vídeos próprios e de outros produtores, trabalhos para revistas, um salão de cordas aberto duas vezes por mês e atividades de pesquisa e educação. Nesse conjunto, ele destaca o ensino de práticas seguras e a preservação de técnicas históricas.
Ensino e prática supervisionada
Um dos pontos centrais é o dojo mensal de Takumi. Ele diferencia seu formato de aulas mais tradicionais, em que o professor demonstra e os alunos experimentam uma ou duas vezes. No dojo, a prioridade é a prática supervisionada, semelhante ao treino de artes marciais. O grupo é limitado a dez alunos, com cinco a sete modelos, para que cada participante tenha contato real com a amarração durante a sessão de duas horas. Takumi demonstra, observa e auxilia, mas o aprendizado acontece com as mãos na corda. Quando o aluno demonstra domínio de um nó, passa por uma avaliação de segurança, correção e rapidez; se aprovado, avança de nível e recebe um cartão correspondente.
Ele vê valor em transmitir conhecimento de modo organizado e menciona a ideia de uma associação profissional de nawashi. A proposta esbarraria, porém, na competição entre muitos profissionais e na falta de espaços de cooperação. Ainda assim, Takumi defende que aquilo que aprendeu ao longo da vida seja passado adiante e desenvolvido por outras gerações.
Internet, segurança e responsabilidade
Takumi observa que o shibari se tornou mais visível e acessível com a internet. Considera positivo que mais pessoas possam conhecer a prática em suas várias dimensões: erotismo, arte e história ligada a técnicas marciais. Ao mesmo tempo, alerta para um risco. Ao ver uma foto de alguém suspenso, um iniciante pode achar que basta ter uma pessoa e uma corda. Ele teme que a falta de noção sobre a importância da segurança leve a lesões. Por isso, insiste que educação não serve apenas para conservar a tradição, mas também para proteger quem está sendo amarrado.
Corda de juta e comprimento
Questionado sobre o uso de algodão ou náilon no Ocidente, Takumi não rejeita outros materiais, desde que a prática seja segura. Ainda assim, explica por que muitos praticantes sérios no Japão preferem o asanawa, a corda de juta: as fibras são fortes, não esticam e mantêm os nós firmes, o que dá estabilidade à estrutura. Sobre o comprimento, defende que sete metros são tradicionais e eficientes. A medida remete ao sistema japonês de tatames e ao tsubo, unidade formada por dois tatames. Além disso, o comprimento combina com a envergadura média de um adulto: ao dobrar a corda e puxá-la, o movimento se ajusta bem aos braços. Para Takumi, o critério principal é a eficiência do gesto, não o tamanho da pessoa amarrada.
Estilo, vídeos e hojojutsu
O estilo de Takumi varia conforme o contexto. Em shows, busca uma apresentação visual e acrobática, pensada para entreter o público. Em trabalhos para fotógrafos ou diretores, adapta-se ao projeto. Quando tem liberdade total, diz preferir o semenawa, seu interesse pessoal dentro do SM. Nos vídeos da produtora Bakuyukai, procura construir narrativas e mostrar a interação emocional entre quem amarra e quem é amarrado, mantendo a corda como eixo principal.
Ele também se dedica ao hojojutsu, conjunto de técnicas históricas de captura e imobilização com corda. No período Sengoku, chegaram a existir cerca de dezoito escolas com métodos próprios. Muitas desapareceram e parte do conhecimento se perdeu. Takumi estuda textos e ilustrações sobreviventes e deseja registrar o que resta, talvez em um livro. Como as imagens antigas mostram o resultado final, a reconstrução é hipotética; ele evita atribuir suas recriações como verdade absoluta de uma escola. Seu objetivo é ao menos mostrar que o hojojutsu é uma base histórica do shibari contemporâneo.
Legado e cuidados
Se for lembrado, Takumi espera ser visto como alguém que tentou proteger e preservar a tradição da amarração japonesa. Não condena inovações, desde que feitas com segurança; pessoalmente, prefere seguir o caminho da tradição.
Para o leitor atual, a entrevista reforça que shibari é uma prática entre pessoas. Antes de qualquer cena, é necessário conversar sobre limites, consentimento e expectativas. Durante a prática, palavras de segurança ou sinais combinados devem estar claros, e a pessoa que amarra precisa monitorar circulação, sensibilidade e respiração. Ao final, reservar tempo para aftercare e para uma conversa honesta sobre o que funcionou e o que precisa ser ajustado é parte do cuidado. A ênfase de Takumi em instrução, supervisão e uso adequado de materiais vale tanto para iniciantes quanto para quem já tem experiência.
Imagens da publicação original
Imagens reproduzidas da publicação original em Kinbaku Today, com autorização. Os direitos pertencem aos autores e fotógrafos. É titular e quer a remoção? Solicite aqui.
Segurança
- Aprenda amarração e, especialmente, suspensão com instrutores experientes; erros podem causar lesões graves.
- Verifique com frequência circulação, sensibilidade e respiração da pessoa amarrada.
- Combine palavras de segurança ou sinais não verbais antes de iniciar a prática.
- Reserve tempo para aftercare e para conversar sobre a experiência depois.
Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Kinbaku Today. Recomendamos a leitura do original.
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