Livro
- Título
- Casting a Queer Circle: Non-Binary Witchcraft
- Autoria
- Thista Minai
Um boletim que mistura espiritualidade, gênero e educação kink
O mais recente boletim de Lee Harrington, publicado no site Passion & Soul, reúne notas pessoais, reflexões sobre inclusão e uma agenda de cursos e encontros previstos para agosto. O fio condutor é a ideia de que práticas espirituais, vivências de gênero e educação sobre kink podem caminhar juntas — desde que haja espaço para segurança, escuta e consentimento.
Harrington começa contando a rotina de quem se prepara para dois festivais pagãos seguidos, carregando dezenas de baralhos de tarô e oráculo para uma oficina sobre escolha e conexão com decks divinatórios. Entre malas e deslocamentos, surge a reflexão: mesmo em ambientes que deveriam acolher, a experiência de gênero ainda provoca nervosismo.
Espaços de pares, experiências vividas e o episódio de 2011
A partir do livro Casting a Queer Circle: Non-Binary Witchcraft, de Thista Minai, o texto argumenta que tradições mágicas nem sempre criam ambientes seguros para quem está fora da binariedade de gênero ou de um modelo heterossexual. Haveria, em algumas tradições pagãs, uma hostilidade inconsciente — às vezes consciente.
O boletim defende que espaços exclusivos de mulheres são importantes, porque grupos de pares oferecem a segurança necessária para conversas que só quem viveu certas experiências consegue ter. Ao mesmo tempo, lembra que "experiência de mulher" não é uniforme: mulheres que amam mulheres, mulheres gordas, mulheres negras em escolas majoritariamente brancas e mulheres com deficiência atravessaram vivências muito distintas.
O texto cita um caso marcante: em 2011, no Pantheacon, houve seguranças na porta de um ritual exclusivo para mulheres para impedir a entrada de mulheres trans. A situação é descrita como absurda, já que apenas quem não era lida como cisgênero precisava "provar" algo. O episódio motivou a organização da antologia Gender and Transgender in Modern Paganism e segue como alerta sobre práticas excludentes que ainda existem em alguns círculos.
Divindades queer e o exercício de repensar suposições
A segunda parte do texto propõe "enfeitar de queer" o imaginário: questionar a ideia de que o cálice e a lâmina sejam o único caminho para conexão e criação. Harrington lista divindades associadas a afetos e identidades dissidentes — Xochiquetzal, que protege mulheres que amam mulheres; Xochipilli, ligado a homens que amam homens; Antinous, elevado à divindade pelo imperador Hadrian; Mohini, avatar feminino de Vishnu; Tu Er Shen, guardião do afeto homoerótico; Loki, que mudou de forma e deu à luz Sleipnir; e Obatala, mãe/pai sagrado.
O convite se estende a quem não trabalha com divindades: repensar suposições sobre papéis de poder — médica, advogada, presidenta, policial, militar — e notar como o patriarcado inconsciente molda expectativas. O exercício, segundo o autor, é também uma forma de explorar a própria magia.
Aulas com foco em negociação, risco e roleplay
A agenda divulgada inclui encontros on-line e presenciais voltados à comunidade kink e a pessoas interessadas em espiritualidade inclusiva. Entre os destaques:
- Negociação bem-feita com os outros e consigo: aula sobre necessidades, limites e formas de transformar a negociação em autoconhecimento e mapa de fantasias. O texto lembra que negociar é uma prática e que ninguém nasce pronto.
- Perfis de risco: discussão sobre disposição, capacidade e interesse em assumir riscos físicos, legais, emocionais e relacionais, incluindo falácias de apostador, vínculos traumáticos e estados alterados. A aula aborda atividades de borda e exige maturidade do público.
- Roleplay sombrio: exploração de fantasias e da construção de personagens no jogo kink, com atenção ao que é tabu e ao enquadramento consensual.
- Consciência trans e brincadeiras com pessoas trans: vocabulário sobre gênero, sexo e sexualidade, revelação, desejo e conversas necessárias para um kink mais cuidadoso com pessoas de gênero diverso.
- Kink sagrado, bondage elementar e sexo mais seguro, apresentados em festivais como o Queer Spirit, na Inglaterra.
Para qualquer prática citada, o recado implícito do boletim é o mesmo: conversar antes, combinar palavras de segurança, conhecer os próprios limites, checar o contexto e reservar tempo para os cuidados posteriores.
Podcasts, poemas e recursos de integração
O boletim também divulga episódios de podcast: uma conversa no Essence Podcast, com Ben Stimpson, sobre aceitação de si e o livro Become Your Own Beloved; e um bate-papo no Passion and Soul Podcast com a musicista SJ Tucker sobre música, espírito e colaboração em vez de competição. Há ainda indicações de leitura, como um poema de Shane Rooks e um texto sobre a magia da escolha, além de referências a autocuidado, pós-cuidado e integração de experiências.
O que fica desta edição
A mensagem central é simples: inclusão exige ação, não apenas declarações. Isso vale para círculos pagãos, para grupos kink e para qualquer espaço que queira acolher pessoas de gêneros, corpos e histórias diversas — com negociação clara, respeito aos limites e cuidado com quem está presente.
Imagens da publicação original
Imagens reproduzidas da publicação original em Lee Harrington, com autorização. Os direitos pertencem aos autores e fotógrafos. É titular e quer a remoção? Solicite aqui.
Segurança
- Negociação prévia e palavras de segurança combinadas são essenciais antes de qualquer prática kink.
- Aulas sobre perfis de risco e roleplay sombrio envolvem temas de borda; avalie seu contexto, sua experiência e busque acompanhamento se necessário.
- Reserve tempo para cuidados posteriores e integração emocional depois de práticas intensas.
- Espaços exclusivos de pares exigem políticas de inclusão explícitas para não reproduzir exclusões históricas.
Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Lee Harrington. Recomendamos a leitura do original.
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