Uma abordagem que muda com o contexto
Hourai Kasumi descreve seu estilo de amarrar como água, que assume formas diferentes conforme o recipiente. Essa imagem resume uma prática atenta ao contexto: a roupa da pessoa amarrada, seja quimono japonês ou vestimenta ocidental; o ambiente em que a cena acontece; as condições físicas de quem é amarrado; e o tipo de shibari que ela deseja realizar naquele momento. Entre seus recursos preferidos está o uso de mordaças, especialmente modelos inspirados em peças antigas.
A metáfora também ajuda a explicar por que Kasumi não trata o shibari como uma técnica fixa. A corda precisa responder ao corpo e à situação, e não apenas seguir um desenho predeterminado.
Beleza, cultura japonesa e expressão
Para Kasumi, a beleza no bondage de cordas não está apenas em um padrão bem feito. A expressão da pessoa amarrada deve ser realçada pela corda; um desenho tecnicamente limpo, mas sem relação com quem está ali, não basta.
Ela relaciona essa sensibilidade a práticas tradicionais japonesas, como a cerimônia do chá e o ikebana, a arte do arranjo floral. Essas tradições influenciam conduta, mentalidade e maneiras. Kasumi também menciona o conceito de wabi-sabi: às vezes busca expressá-lo, mas nem sempre. Para isso, seria necessário um conjunto de elementos adequados, como roupas apropriadas à estação e à atmosfera do lugar, o que exige custo, tempo e esforço. Por isso, ela afirma que raramente realiza essa proposta de forma completa. Palavras como misericórdia, generosidade e maternidade já foram usadas para descrever seu estilo.
Preferências, rotina e mudanças
Kasumi declarou gostar especialmente do gote, a amarração com as mãos atrás do corpo, e não se empolgar tanto com outras formas, como maete, com as mãos à frente, ou teppo, conhecida como amarração de rifle. Segundo ela, seu gosto básico não mudou muito ao longo dos anos, e ela não identifica um grande ponto de virada em sua trajetória. Em vez disso, fala de pequenas alegrias e gratidão no cotidiano.
Na época da entrevista, em 2015, ela trabalhava com kinbaku havia 16 anos e organizava sua agenda mensalmente, com dois a quatro dias de folga por mês. Também se preparava para ensinar na Europa: uma masterclass de cinco dias em Roma, entre 24 e 28 de fevereiro, e um workshop de fim de semana em Estocolmo, de 29 a 31 de maio.
Ensino, discipulado e base técnica
Além de workshops nos Estados Unidos, na Austrália e na Europa, Kasumi ensina no Japão. Seus únicos discípulos mencionados são Towa e Nara. Ela destaca Towa como uma kinbakushi mulher talentosa, capaz de atuar internacionalmente.
Sobre o aprendizado, Kasumi considera fundamental construir um espírito forte. Muitas pessoas teriam dificuldade nesse aspecto. Momentos de preocupação ou problema podem ser boas oportunidades para desenvolver potência mental, persistir sem desistir, repetir os fundamentos com diligência e lembrar o estado de espírito inicial. Para ela, a técnica não consiste apenas em executar ordens: é uma força técnica que permite encontrar a corda desejada e a corda adequada para a pessoa que se amarra naquele instante.
Fotografia e as quatro estações
Kasumi mantém um site com imagens cuidadosas, publicou trabalhos em revistas japonesas de SM e produziu DVDs. Ela também desenvolve um projeto fotográfico sobre as quatro estações no Japão e o kinbaku. Admira o trabalho do fotógrafo Patric Siboni e sonha colaborar com profissionais como ele. Segundo Kasumi, fotógrafos fora do Japão às vezes usam técnicas diferentes para capturar o espaço em três dimensões, algo que considera excelente. Ela espera que estrangeiros se interessem mais pelo Japão depois de ver essas imagens.
Kitagawa e a estética do encadeamento
Kasumi menciona Kitagawa entre os nawashi importantes para ela, ao lado de Akechi Denki e Kinoko Hajime. Conheceu Kitagawa havia mais de dez anos na época da entrevista e aprecia seu estilo tipicamente japonês, em que uma coisa conduz à seguinte, de modo comparável à culinária kaiseki. Ela expressa respeito e admiração por ele.
A corda como comunicação
Para Kasumi, a comunicação pela corda diminui a distância entre ela e a pessoa amarrada e busca sincronizar as almas por meio da amarração. Ela reconhece que a afinidade varia e que nem sempre a sintonia acontece, mas tenta aproximar-se o máximo possível.
A cerimônia do chá, o ikebana e outras expressões culturais japonesas teriam em comum o cuidado com os objetos, tratados como se tivessem alma. Kasumi diz tentar tratar a corda como uma flor: sem afeto no manuseio, sua beleza, seu brilho e seu encanto não aparecem, e ela se torna sem intenção. Quando coloca o coração no objeto, acredita que ele adquire intenção e aura. Para ela, uma grande beleza nasce no kinbaku quando as emoções se sincronizam. Assim como no ikebana a escolha das flores depende do vaso, cada modelo pede uma amarração diferente, que a faça aparecer da melhor forma.
Em práticas reais, essa sintonia depende de negociação prévia, consentimento claro, comunicação durante a cena e atenção a palavras de segurança. O cuidado estético não substitui protocolos de segurança física e emocional.
A mentalidade “tipo M” e o serviço
Ao comentar uma entrevista de Akira Naka, que se descreveu mais como masoquista do que sádico, Kasumi disse que provavelmente falaria algo semelhante. Ela identifica em si uma personalidade “tipo M”, mas esclarece que isso não significa ser escrava em contexto de SM nem gostar necessariamente de dor. Em sua visão, o tipo M está ligado a servir. Amarrar com dedicação para que a pessoa amarrada se sinta bem seria uma mentalidade de serviço: amarrar é cuidar de quem está sendo amarrado.
Akechi Denki e as lições de respeito
Kasumi conheceu Akechi Denki cerca de 15 anos antes da entrevista, quando tinha 19 ou 20 anos. Ainda estudante, encontrou o nome dele em uma revista de SM e ficou fascinada pelo shibari. Depois de adulta, trabalhou como dominatrix profissional em um dungeon de SM, mas percebeu que aquele não era o mundo da corda que buscava. Deixou o local e mudou-se de Nagoya para Tóquio com o objetivo de conhecer Akechi.
Ela nunca fez show nem DVD com ele. As lições que guardou são principalmente mentais: ao realizar práticas mais intensas, é preciso preparar também o espírito. Um detalhe importante que aprendeu foi não atingir a pessoa amarrada acidentalmente com o nawajiri, a ponta da corda. Isso exige atenção aos sentidos e aos sete metros inteiros de corda, além de respeito pela pessoa amarrada. Depois disso, diz ela, é possível desfrutar da corda.
Considerações finais
Kasumi encerra valorizando perguntas ligadas à cultura japonesa, como wabi-sabi e ikebana, e espera que mais estrangeiros interessados em kinbaku visitem o Japão. Ela descreve seu país como um lugar de ambiguidade, com mais de mil anos de história e ao mesmo tempo aberto à tecnologia recente. Para ela, o diálogo com a cultura japonesa se parece com uma conversa zen, sem resposta única: pensamentos podem ter implicações, e a ambiguidade faz parte do país.
Imagens da publicação original
Imagens reproduzidas da publicação original em Kinbaku Today, com autorização. Os direitos pertencem aos autores e fotógrafos. É titular e quer a remoção? Solicite aqui.
Segurança
- Pratique shibari somente com consentimento claro e negociação prévia entre as pessoas envolvidas.
- Combine palavras de segurança e sinais não verbais antes da cena, especialmente se houver mordaça.
- Atenção ao corpo: cordas podem comprimir nervos e vasos; revise pontos de pressão e tenha itens de corte seguros por perto.
- Inclua cuidados posteriores, como checagem emocional, hidratação e espaço para conversar sobre a experiência.
Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Kinbaku Today. Recomendamos a leitura do original.
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