Uma revista que funcionava como ponto de encontro
Entre as décadas de 1950 e 1970, a publicação japonesa Kitan Club foi um dos principais veículos impressos dedicados ao que hoje chamaríamos de fetiches e imaginário sadomasoquista. O arquivo digital mantido pelo site Kinbaku Today preserva e descreve exemplares dessa coleção, entre eles o número de agosto de 1963 — volume 17, edição 8 —, com cerca de 189 páginas digitalizadas. Mais do que uma curiosidade de colecionador, esse material ajuda a entender como desejos considerados marginais encontraram vocabulário e circulação antes da internet.
A edição é um retrato do formato editorial da época: ensaios fotográficos encenados, pranchas ilustradas, depoimentos pessoais, ficção em capítulos, ensaios históricos, cartas de leitores e anúncios. Tudo coexistindo no mesmo volume, como uma revista literária com um núcleo temático muito específico.
O que a edição traz em imagens
A abertura é fotográfica. Modelos aparecem em amarrações de corda em pé e sentadas, com mordaças, restrições de pernas, poses no chão e posições auxiliadas por polias e contrapesos. Há também cenas ao ar livre, com corpos presos a árvores, além de sequências de dominação feminina com botas, figuras mascaradas aplicando castigos e situações de pressão física encenada por assistentes.
Na sequência, um caderno de ilustrações explora torturas estilizadas: estímulos no nariz, suspensões com peso, imagens de bombas de ar, estrangulamento figurativo, exames forçados e um quadro de autossacrifício ritual. O conjunto é explicitamente teatral — o corpo aparece como espetáculo e como cenário de resistência imaginada, não como registro documental.
Um segundo bloco fotográfico retoma o tema com quimonos, amarrações domésticas e externas, cenas de dominação feminina e castigos com máscaras.
Vozes de leitores e memórias pessoais
A parte em prosa começa com um texto reflexivo de Endō Tamotsu sobre como ele se tornou leitor da revista. O autor fala de conformidade social, fantasia privada, vergonha e do alívio de encontrar uma linguagem compartilhada para desejos que pareciam isolados.
Depois vêm relatos assinados. Iuchi Sayūko relembra uma excursão a Kamakura que termina em uma disputa de luta livre entre mulheres nuas, com as participantes se imobilizando e se amarrando sob o olhar da narradora. Mizuura Masaki e Sawada Yoshio assinam juntos Image of Love, narrativa ilustrada sobre um casal recém-casado cujas fantasias evoluem para encenações de restrição, roupas específicas, exposição e cativeiro imaginado. Já Yutani Teruo escreve sobre a fixação por estímulos no nariz, relacionando-a a ilustrações publicadas em números anteriores e convidando leitores a enviar experiências.
Ficção, história e crítica de cinema
O miolo da revista é dominado pela ficção. Honda Yoshirō ambienta um relato de interrogatório em um escritório de magistrado do período Edo, com prisão, amarração, açoites e pesos. Tsujimura Takashi continua sua série Tales of the Thirty-Ninth Night, com uma suposta espiã industrial capturada por colegas de empresa. Nakazawa Hitoshi comenta o filme Valley of Death como espetáculo de fantasia perversa, discutindo mulheres militarizadas e dominação física.
Outros textos ampliam o repertório: a confissão de Fujishiro Yūzō sobre uma mulher obcecada por imagens de corte abdominal; a aventura serializada de Saijō Mazō, passada em cenário de guerra; The Tutor, de Ōnaka Tadashi, sobre dominação doméstica; a celebração fetichista do ouro assinada por Saijō Etsumi; o ensaio histórico de Kazuyori Emi sobre casos registrados de mulheres que praticaram seppuku nos períodos Edo e Meiji; e o quinto capítulo de Flower and Snake, novela de Dan Oniroku que mais tarde inspiraria adaptações cinematográficas japonesas.
O volume ainda inclui narrativas de Morooka Tateo, Kondō Natsuhiko e um texto autoficcional sobre enfermeiras, além de reportagem de Yoshino Mayumi sobre judocas mulheres enfrentando oponentes homens.
Cartas, anúncios e o elo entre leitores
Uma seção extensa de correspondência reúne cartas com relatos, pedidos, reações a edições anteriores e respostas da redação. No fim, anúncios vendem livros, conjuntos fotográficos, gravuras e materiais especializados, com tabelas de preços, códigos de pedido e instruções para assinaturas e envio de colaborações. Essa parte mostra que a revista funcionava como uma rede: além de publicar conteúdo, conectava pessoas com interesses muito particulares.
Como ler esse material hoje
O valor do arquivo é histórico e cultural. Ele documenta estética, vocabulário e sociabilidade de uma cena fetichista anterior à circulação digital, além de revelar como testemunho íntimo, invenção literária e encenação fotográfica se misturavam sem fronteiras claras.
Ao mesmo tempo, é importante fazer a distinção que a própria publicação não fazia: quase tudo ali é fantasia produzida para consumo, incluindo cenas de coerção, castigo e ferimento. A cultura BDSM contemporânea se organiza em torno de princípios que não aparecem nessas páginas — consentimento informado, negociação prévia detalhada, palavras de segurança combinadas e cuidados posteriores. Práticas de restrição com cordas, especialmente suspensões e posições com peso, exigem aprendizado técnico, supervisão e atenção a circulação sanguínea e respiração; não são recreações improvisadas a partir de fotos antigas.
Imagens da publicação original
Imagens reproduzidas da publicação original em Kinbaku Today, com autorização. Os direitos pertencem aos autores e fotógrafos. É titular e quer a remoção? Solicite aqui.
Segurança
- O conteúdo descrito é fantasia editorial dos anos 1960 e não serve como manual de prática.
- Cenas de automutilação, cortes e estrangulamento são representações históricas/ficcionais: não devem ser reproduzidas.
- Amarrações com corda, suspensões e uso de mordaças exigem treinamento, negociação, palavras de segurança e cuidados posteriores.
Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Kinbaku Today. Recomendamos a leitura do original.
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