Um relato de bastidores da fotografia de bondage nos anos 1950
A terceira parte da série do fotógrafo e escritor Takeshi Tsujimura sobre as modelos de bondage que ele fotografou, publicada no site Kinbaku Today, relembra o Japão de 1953. O texto mistura memória pessoal, descrição de sessões e comentários sobre a personalidade das modelos, oferecendo um retrato da época em que a fotografia de cordas começava a ganhar espaço editorial. Hoje, esse tipo de relato deve ser lido como documento histórico: ele ajuda a entender a estética e os bastidores do gênero, mas também expõe práticas e mentalidades que não correspondem aos padrões atuais de consentimento, segurança e respeito às modelos.
Namiko Murata: a suposta ex-atriz que se tornou modelo
Entre as mulheres que responderam ao anúncio da revista, Tsujimura destaca Namiko Murata. Ela se apresentava como ex-atriz da Shochiku, mas, ao ser questionada, admitiu ter feito apenas uma participação como dublê em um drama de época. Segundo o autor, a experiência durou cerca de meio dia para render apenas alguns segundos na tela. O detalhe é usado para mostrar como o universo do cinema e o da fotografia fetichista se misturavam na época.
O autor conta que, na primeira sessão, fez apenas fotos de nu artístico; na segunda, explicou a proposta de bondage e ela aceitou sem resistência. Ele a descreve como uma modelo calma, cooperativa e silenciosa, que seguia as instruções mesmo em amarrações mais elaboradas. A publicação de seu trabalho ocorreu em várias edições de 1953: primeiro em um frontispício de julho, depois em uma matéria de agosto com várias poses, em uma sessão externa em outubro e em uma página colorida de novembro. Ela também participou de uma sessão com outras duas modelos, Fumi Sugi e Toshiko Sakaguchi.
O texto menciona ainda que Murata tinha problemas de pontualidade e que, por isso, o autor convidou outras modelos por precaução — o que teria transformado a sessão em um ensaio com três pessoas. A descrição física e psicológica feita por Tsujimura contém comentários que soam inadequados hoje, como observações sobre o corpo e a inteligência da modelo. É importante separar o valor histórico do relato desses juízos de valor, que refletem preconceitos da época e não devem ser reproduzidos como modelo de conduta.
O moinho, a cachoeira e o quase acidente
O trecho mais grave do relato narra uma excursão em meados de maio de 1953. O editor-chefe Minoda, Tsujimura e mais duas pessoas viajaram até Kasagi, na linha Kansai, e seguiram de ônibus até uma área rural próxima à aldeia de Ari'ichi. A ideia era fotografar nu artístico em meio à natureza, aproveitando o rio Kizu. Durante a exploração, o autor viu um moinho de água desativado e imaginou uma cena com a modelo amarrada às pás da roda. Ele desviou a correnteza para o canal lateral e começou a amarrar Murata com as mãos presas às pás. A sessão foi interrompida pela chegada de um grupo de pessoas, e a modelo foi solta e vestida às pressas.
Em seguida, a equipe subiu até uma cachoeira e tentou outra pose. Com as mãos de Murata amarradas atrás do corpo, ela escorregou em uma pedra coberta de musgo e caiu no rio. Como não podia se apoiar, foi arrastada pela correnteza e quase passou pela queda-d'água. Tsujimura pulou na água, segurou a perna da modelo e contou com a ajuda dos colegas para retirá-la. Ela teve apenas hematomas, mas o equipamento fotográfico foi perdido. O próprio autor reconhece que o episódio poderia ter sido fatal.
Esse trecho é um alerta evidente sobre os riscos de práticas com cordas em ambientes inadequados. Amarrar mãos atrás do corpo perto de água, alturas, máquinas em movimento ou superfícies instáveis aumenta drasticamente o perigo de queda, afogamento e lesões. Hoje, a recomendação é nunca realizar esse tipo de cena sem planejamento de risco, apoio de outras pessoas, ferramenta de corte acessível e consentimento contínuo.
Toshiko Sakaguchi e os bastidores do recrutamento
O texto também relembra o primeiro encontro com Toshiko Sakaguchi, em maio de 1953. Tsujimura chegou cedo à estação Namba, da linha Nankai, em uma manhã de garoa, e ficou observando uma mulher de suéter vermelho que parecia igualmente ansiosa à espera de alguém. Os dois evitaram contato visual e ela acabou indo embora antes da chegada do editor. O episódio ilustra como o recrutamento de modelos era informal e dependia de encontros combinados por telefone, sem os protocolos de entrevista e negociação que se esperam hoje.
O que esse relato ensina hoje
A série de Tsujimura é valiosa para pesquisadores da história do kinbaku e da fotografia fetichista japonesa, pois registra nomes, datas, títulos de publicações e o cotidiano de uma revista adulta dos anos 1950. Ao mesmo tempo, o texto mostra como a segurança e o consentimento eram tratados de forma improvisada. As modelos não aparecem como participantes plenamente informadas sobre riscos, e o autor descreve situações de perigo com naturalidade.
Para o público atual, a leitura deve combinar interesse histórico com senso crítico. Práticas de cordas exigem negociação prévia, palavras de segurança, avaliação de riscos, ferramentas de resgate e cuidados posteriores. Fotografias em locais públicos também envolvem questões de privacidade e legalidade. O relato de 1953 não deve ser usado como manual, mas como ponto de partida para refletir sobre como o meio evoluiu — e sobre o que ainda precisa melhorar.
Imagens da publicação original
Imagens reproduzidas da publicação original em Kinbaku Today, com autorização. Os direitos pertencem aos autores e fotógrafos. É titular e quer a remoção? Solicite aqui.
Segurança
- Nunca amarre mãos atrás do corpo perto de água, alturas ou máquinas; o relato descreve um quase afogamento.
- Mantenha uma tesoura de segurança ou faca de resgate ao alcance durante qualquer prática com cordas.
- Negocie limites, palavras de segurança e cuidados posteriores antes e depois da sessão.
- Fotografias em locais públicos exigem consentimento de todos e atenção a riscos legais e de privacidade.
Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Kinbaku Today. Recomendamos a leitura do original.
Discussão
Área para maiores de 18 anos. O fórum pede uma verificação de idade, feita uma vez só.
Verificar idade





