Livro

Título
Shibari You Can Use
Autoria
Lee Harrington

Um tour por comunidades do sul dos Estados Unidos

No episódio PS051 do podcast Passion & Soul, publicado em outubro de 2014, o educador e autor Lee Harrington relata uma viagem que ele chamou de Dirty South Tour: cinco estados em quatro dias, com aulas em Alabama, Mississippi, Louisiana, Arkansas e Tennessee, encerrando em Nova Orleans. O objetivo de longo prazo era ensinar em todos os estados norte-americanos — naquele momento ele havia chegado a 40. Mais do que levar conteúdo, ele descreve o que mais o marcou: ver comunidades vizinhas se conhecendo, pessoas que não se viam há anos se reencontrando e grupos que nunca haviam trabalhado juntos dividindo o mesmo espaço.

A música como parte da experiência

Boa parte do episódio é dedicada ao som. Harrington conta que, em uma festa de prática (play party) em Mobile, um casal montou seu espaço em um canto, colocou um aparelho de som ao lado, estendeu um lençol no chão e organizou uma cesta com cordas e brinquedos de sensação. Antes de começar, os dois respiraram juntos; só então a música foi acionada. Entre as faixas tocadas estava "Same Love", de Macklemore e Mary Lambert.

O relato destaca como a trilha sonora pode funcionar como um roteiro compartilhado: quem conduzia a cena escolhia as músicas de modo a acompanhar o ritmo da interação, e outras duplas na sala — inclusive quem estava com cordas feitas à mão — assistiam e depois repetiam o movimento em seus próprios espaços. Harrington descreve ter buscado suas próprias cordas e participado daquele fluxo coletivo, em que a respiração das pessoas presentes e a batida das músicas se somavam. Ele remete a um episódio anterior do podcast, "The Path of Rhythm", em que já havia falado sobre ritmo e presença.

Vale lembrar que, em ambientes de prática, som alto, iluminação e circulação de pessoas devem ser combinados com antecedência com quem organiza o evento e com quem está cena, para não invadir o espaço alheio.

Consentimento como tema de comunidade

Durante a mesma viagem, Harrington conversa com uma representante da NCSF (National Coalition for Sexual Freedom) sobre projetos de consentimento em que a entidade trabalhava. O episódio também descreve festas realizadas após as aulas, em casas e espaços convertidos, com comida, convivência e áreas separadas para prática — um formato comum em comunidades kink, em que regras de conduta, negociação prévia e palavras de segurança são apresentados a quem chega.

Memória, privilégio e o que não se pode saber

O relato toma um rumo mais denso quando Harrington fala de duas visitas: ao Museu Nacional da Segunda Guerra Mundial, em Nova Orleans, onde viu a exposição sobre a experiência nipo-americana no conflito, e a um antigo campo de internamento no caminho para Little Rock. Ele descreve o cemitério, a torre cenográfica na entrada, os campos de algodão ao redor e a escala do que restou, mencionando também o relato público de George Takei sobre a infância em um desses campos.

Dessa experiência nasce a parte central da reflexão: a consciência de que visitar um museu e sentir tristeza não equivale a ter vivido aquilo. A partir daí, ele volta o olhar para a própria trajetória — inclusive para o livro que escreveu sobre amarrações com cordas — e questiona o quanto o meio fetichista consome elementos de outras culturas transformando-os em exotismo.

Entre os exemplos citados estão a confusão entre roupas e tradições de países asiáticos diferentes, o uso de termos generalizantes para falar do "Oriente" e a redução de práticas como o tantra a uma dimensão puramente erótica. Harrington argumenta que o poder de certas práticas ligadas ao tabu depende do contexto cultural em que surgiram: o que é transgressor em um ambiente pode não ter o mesmo peso em outro, e isso precisa ser reconhecido em vez de simplesmente reproduzido.

Ele encerra citando outra faixa de Macklemore, "White Privilege", que o levou a pensar sobre lugar de fala e sobre o desconforto produtivo de perceber o que não se sabe.

Perguntas que ficam para quem pratica

  • De onde vêm as técnicas que uso e quem as desenvolveu?
  • Estou distinguindo culturas diferentes ou tratando todas como a mesma coisa?
  • Uso elementos de outra tradição como adorno exótico ou com entendimento e respeito?
  • Meu espaço de prática é acolhedor para pessoas de origens diferentes da minha?

Segurança

  • Em festas de prática, combine regras do espaço, negociação prévia e palavras de segurança antes de iniciar qualquer cena.
  • Cenas com cordas exigem atenção a circulação, sensibilidade e tempo: nunca deixe alguém sozinho durante a imobilização.
  • Reserve tempo para cuidados posteriores e para checar como a pessoa está depois da cena.
  • Ao usar músicas ou elementos culturais de outras tradições, verifique contexto e consentimento das pessoas envolvidas.
Fonte original

Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Lee Harrington. Recomendamos a leitura do original.

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