O que a psiquiatria entende por sadismo sexual

O transtorno de sadismo sexual é uma categoria diagnóstica descrita nos manuais de classificação de saúde mental. Ela se refere a um padrão de excitação sexual recorrente e intensa provocada pelo sofrimento físico ou psicológico de outra pessoa, manifestado por meio de fantasias, impulsos ou comportamentos.

O ponto central — e que costuma ser mal compreendido — é que a categoria clínica não descreve qualquer interesse por dor ou humilhação. O diagnóstico só é aplicado quando duas condições aparecem: a pessoa colocou esses impulsos em prática com alguém que não consentiu, ou as fantasias e impulsos causam sofrimento significativo e prejuízo a quem os sente. Sem um desses elementos, não há transtorno a ser diagnosticado.

Como o DSM-5 e a CID-11 tratam o tema

A versão atual do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), da Associação Psiquiátrica Americana, chama a condição de transtorno de sadismo sexual e a classifica dentro do grupo das parafilias como um transtorno "algolagno", isto é, ligado à dor.

A Classificação Internacional de Doenças em sua 11ª revisão (CID-11), da Organização Mundial da Saúde, adota um nome diferente: transtorno de sadismo sexual coercitivo. O critério é explícito — é preciso haver um padrão de excitação dirigido a pessoas que não consentem, combinado com a prática desses atos ou com sofrimento acentuado. Sadismo e masoquismo praticados de forma consensual estão expressamente excluídos da classificação. Segundo o grupo de trabalho responsável pela revisão, padrões de excitação consensuais não constituem transtorno mental e, por isso, foram retirados da lista de transtornos.

Conceitos vizinhos que não são a mesma coisa

Vale distinguir três ideias que frequentemente se confundem:

  • Transtorno de sadismo sexual: a excitação está no sofrimento infligido; a violência pode continuar mesmo depois que a vítima cede e, em casos extremos, escalar para lesões graves.
  • Transtorno parafílico coercitivo: aqui a preferência é por parceiros não consentintes em relação a parceiros consentintes. A dor ou a ameaça pode aparecer apenas como instrumento para obter submissão, e não como o objetivo em si. Termos alternativos já usados incluem biastofilia e "estupro preferencial". A condição segue em pesquisa e não consta do DSM nem da CID atuais.
  • BDSM: sigla para bondage, disciplina, dominação, submissão, sadismo e masoquismo. Designa uma subcultura de pessoas que participam voluntariamente de formas leves ou simuladas de dor e humilhação. Não é condição diagnosticável em nenhum dos dois sistemas. Em pesquisa científica, esse interesse também aparece como padrão de "hiperdominância" — e a diferença essencial em relação aos quadros clínicos é a intenção: quem pratica busca provocar prazer no parceiro, não sofrimento genuíno.

Um pouco de história dos termos

As palavras sadismo e sadista derivam do escritor francês Marquês de Sade, autor de romances que retratavam tortura e violência sexualizadas. O termo masoquismo, por sua vez, remete ao escritor Leopold von Sacher-Masoch.

A trajetória das classificações mostra como o tema foi sendo refinado:

  • DSM-I e DSM-II: o sadismo aparecia como uma entre as "desvios sexuais", sem critérios diagnósticos definidos; o conceito de parafilia ainda não existia.
  • DSM-III: já com critérios, previa o diagnóstico tanto para atos com pessoas não consentintes quanto para a preferência por sofrimento simulado ou leve com parceiro consentinte — o manual reconhecia que encenações como bondage poderiam ser lúdicas e inofensivas.
  • DSM-III-R, DSM-IV e DSM-IV-TR: sob o nome sadismo sexual, passou a se referir apenas ao sofrimento real, não simulado. A denominação atual, com o acréscimo da palavra "transtorno", veio com o DSM-5.
  • CID-10: usava o termo sadomasoquismo, dividido conforme a pessoa preferisse aplicar ou receber, e observava que formas leves costumam ser usadas para intensificar a atividade sexual considerada habitual.

Um conceito que não deve ser confundido é o de transtorno de personalidade sádica, que não trata de interesse sexual e sim de um desrespeito generalizado pelo bem-estar alheio, geralmente associado a histórico de violência.

O que a pesquisa indica

Sabe-se pouco sobre como o sadismo sexual se desenvolve. Uma revisão sistemática de 2022 propôs que ele surge da interação de vários fatores: transferência de excitação entre emoções e resposta sexual, condicionamento clássico e operantem, dificuldades com a sexualidade considerada "normativa" e aprendizagem social.

Discute-se se existe um contínuo de intensidade que iria de formas leves (BDSM) a moderadas (transtorno parafílico coercitivo) e graves (transtorno de sadismo sexual), mas não está claro se essas categorias são realmente relacionadas ou apenas parecem ser. A Escala do Contínuo Agonístico (TACS) foi criada para medir esse construto em quatro dimensões: coerção e poder, bondage e humilhação, violência física e Killing.

A maioria das pessoas diagnosticadas com o transtorno chega ao conhecimento das autoridades por cometer crimes de motivação sexual; por isso, boa parte do conhecimento disponível vem de estudos forenses e não de amostras da população geral. Já entre praticantes de BDSM, a proporção de homens e mulheres é bem mais equilibrada. Pessoas com o diagnóstico também têm maior probabilidade de apresentar outros interesses parafílicos.

Por que isso importa para quem pratica BDSM

A distinção entre fantasia consensual e comportamento ofensivo não é detalhe burocrático: ela protege praticantes de serem tratados como doentes por escolhas negociadas e, ao mesmo tempo, mantém o foco da clínica sobre situações em que há ausência de consentimento ou sofrimento real.

Práticas de dor e humilhação entre adultos só podem ser consideradas saudáveis quando há consentimento informado e contínuo, negociação prévia detalhada, limites combinados, palavras de segurança e cuidados posteriores — o chamado aftercare. Se em algum momento o consentimento for retirado ou não existir, deixa-se o campo da prática consensual e entra-se em outro território, que pode inclusive ser criminal.

Se fantasias nesse campo causam angústia, culpa intensa ou prejuízo na vida cotidiana, ou se há impulsos dirigidos a pessoas que não consentem, o caminho indicado é buscar acompanhamento profissional especializado em sexualidade. Profissionais éticos distinguem interesse consensual de risco a terceiros e trabalham para que ninguém seja prejudicado.

Segurança

  • BDSM só é considerado saudável quando há consentimento livre, informado e revogável entre adultos.
  • Combine limites e palavras de segurança antes de qualquer prática e respeite a retirada do consentimento imediatamente.
  • Práticas com dor ou humilhação exigem cuidados posteriores (aftercare) e atenção a sinais físicos e emocionais.
  • Se impulsos sexuais envolvem pessoas que não consentem, procure ajuda profissional especializada.
Fonte original

Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Wikipedia (EN) - BDSM (CC BY-SA 4.0). Recomendamos a leitura do original.

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