Uma polêmica que sempre retorna
De tempos em tempos, a comunidade BDSM se envolve em um debate acalorado sobre o valor terapêutico do kink. Violet Bights, educadora de cordas e assistente social clínica licenciada, acompanha essa conversa de um lugar privilegiado: atua justamente na intersecção entre kink e saúde mental, tanto nas redes quanto no consultório. Segundo ela, o lançamento de Sexuality Beyond Consent: Risk, Race, Traumatophilia (2023), da psicanalista Avgi Saketopoulou, deu ao tema um tom de urgência, ao provocar reflexões sobre como traumas e histórias pessoais aparecem na forma como as pessoas brincam. O efeito colateral, ironiza, é que também passamos a analisar demais os próprios desejos.
O que define uma atividade como "terapia"
Terapia, em geral, é entendida como uma atividade cujo objetivo é melhorar a saúde física e psicológica ou a capacidade funcional — ou seja, o propósito é o resultado. A pergunta que vale fazer, então, é: buscar corpo e mente saudáveis é o que torna alguém kinky? Provavelmente a maioria das pessoas diria que não. O BDSM não é uma modalidade de ginástica excêntrica; é um ofício, uma cena, um elemento de identidade. Ainda assim, é inegável que a prática traz alguns efeitos fisiológicos — e é aí que a conversa fica interessante.
Ferramenta de diagnóstico ou caminho de autoconhecimento?
Talvez o BDSM funcione melhor como uma lente diagnóstica do que como tratamento. Quem frequenta encontros da cena costuma ter, ou já ouviu, uma história de como o kink ajudou a identificar algum desalinhamento interno. É o caso de Gorgone, cofundador da Shibari Study, que atribui ao shibari parte do enfrentamento da dissociação causada por TDAH e hipermobilidade. A primeira vez amarrado é descrita como uma "encarnação súbita": a sensação inédita de habitar o próprio corpo.
Dados apontam que isso não é raridade. A TASHRA (The Alternative Sexualities Health Research Alliance) lista entre as motivações mais comuns para participar de BDSM o suporte à saúde mental, a atenção plena, a lida com a neurodivergência e a gestão da interocepção. Com seus protocolos claros de comunicação, um perfil sensorial particular e uma comunidade embutida, a cena kink oferece recursos para necessidades frequentemente ignoradas por pessoas neurodivergentes. O pesquisador Liam Wignall cita um número bastante difundido: entre 30% e 50% das pessoas em comunidades kinky podem apresentar traços de autismo.
Nada disso significa que procurar uma Dominadora vai apagar a ansiedade social ou resolver questões familiares não resolvidas. Como brinca Violet, Freud adoraria que fosse assim. O ponto é outro: o kink pode abrir caminhos de crescimento pessoal. "Não acho que o shibari tenha propriedades curativas, mas acho que é um meio que nos ajuda a praticar intimidade, empatia e despertar sensorial", diz Gorgone.
A corda como espelho
Para Gorgone, a corda escancara o grau de conexão de alguém consigo e com os outros — sensações, limites, desejos. E o inverso também vale: uma pessoa desconectada e egoísta vai produzir um shibari desconectado e egoísta. Trata-se, no fim, de cultivar percepção.
Quando a estética do cuidado vira vitrine
Há quem defenda ir além do vocabulário terapêutico e questionar por que nos apegamos tanto a ele. Esse enquadramento é fruto do encontro do kink com valores ocidentais que medicalizam a relação com o corpo. Iniciantes que não elaboram o desconforto diante do caráter erótico do shibari podem acabar higienizando a prática e apagando suas origens — um processo típico de assimilação de subculturas pela mainstream. O exemplo do pole dance, que migrou do universo dos clubes para o de atividade fitness, é lembrado no texto.
Do outro lado, parte dos praticantes teme que a popularização da corda reforce o estigma. Afinal, só em 2013 o DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) deixou de classificar o BDSM como transtorno. Alguns criticam inclusive plataformas de ensino com estética muito polida, acusadas de esterilizar a prática. Gorgone entende a crítica, mas aposta na coexistência: uma aparência mais comportada também evita problemas jurídicos e contábeis que assombram produtores de conteúdo adulto.
Mais preocupante é o avanço de supostos "terapeutas de shibari" que cobram valores altíssimos prometendo retorno a uma divindade interior pré-traumática — tarefa impossível até para o mais experiente psicanalista. Violet classifica esse tipo de oferta como predatória, sobretudo porque mira pessoas em sofrimento.
A cultura muda: o espelho do yoga
A disputa sobre a "alma" do shibari — arte? medicina? religião? — revela mais sobre nós do que sobre a prática: uma dificuldade coletiva de lidar com conflitos morais e, talvez, com um vazio espiritual. A ênfase em ser salvo ou curado ecoa tempos turbulentos.
Vale lembrar que percepções públicas mudam. O yoga, visto como exótico e tabu no Ocidente até os anos 1970, surfou a onda do bem-estar e hoje soma cerca de 300 milhões de praticantes. Há quem tema futuro parecido para a corda, impulsionado por plataformas que censuram qualquer coisa levemente sensual — o que gera um vocabulário codificado de "não se preocupe, não é nada demais" para escapar de bloqueios. Se a tendência continuar, adesivos de "rope bunny" podem virar item de papelaria.
Conclusão: significado sem patologização
Uma lição repetida por Carter J. Carter, colega de Violet, resume bem o debate: algo não precisa ser terapia para ser significativo e curativo, nem para ajudar alguém a crescer e se conectar. Dizer que a corda é terapia insinua, nas entrelinhas, que as pessoas fazem BDSM porque há algo quebrado a consertar. E não é difícil ver quem lucra com essa mensagem.
O que talvez se busque, no fim, não é um tratamento, e sim bem-estar de verdade: aquela sensação de segurança e soberania que começa por dentro. Praticar com consentimento claro, negociação prévia, palavras de segurança combinadas e cuidados posteriores é o que sustenta qualquer cena — sem prometer cura a ninguém.
Imagens da publicação original
Imagens reproduzidas da publicação original em Shibari Study (blog), com autorização. Os direitos pertencem aos autores e fotógrafos. É titular e quer a remoção? Solicite aqui.
Segurança
- Kink não substitui acompanhamento psicológico ou psiquiátrico; se houver sofrimento intenso, procure um profissional qualificado.
- Desconfie de cursos ou sessões caras que prometem cura traumática por meio de cordas; treated como possível prática predatória.
- Combine previamente limites, palavras de segurança e cuidados posteriores com quem for praticar.
- Práticas de restrição envolvem riscos físicos: informe-se sobre anatomia, circulação e técnicas seguras antes de amarrar.
Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Shibari Study (blog). Recomendamos a leitura do original.
Discussão
Ainda não há discussão sobre este conteúdo.
Começar a discussão





