Livro

Título
Shibari You Can Use
Autoria
Lee Harrington

Uma ideia nascida em volta de um único ponto de suspensão

O episódio do podcast Erotic Awakening apresentado por Lee Harrington, publicado em maio de 2013, é menos uma aula técnica e mais um relato de memória coletiva. Harrington, educador e autor ligado à prática de cordas, usa o espaço para falar do Shibaricon — encontro anual realizado em Chicago — e de como ele deixou de ser um evento pequeno para se tornar um marco na organização de praticantes de bondage.

Segundo o relato, a semente do Shibaricon surgiu no Black Rose, em 2003. Naquele encontro havia apenas um ponto de suspensão disponível, e um grupo de praticantes — entre eles Mortis (também chamado de Rigger Mortis), Bill Andrew, Dov e o próprio Harrington — acabou se reunindo ao redor desse equipamento para fazer suas amarrações. Foi ali que surgiu a pergunta que viraria projeto: não seria possível criar um espaço com vários pontos de suspensão ao mesmo tempo? A conversa passou por cidades como Nova Orleans, Washington e Nova York, mas Mortis decidiu não esperar e organizou a primeira edição em Chicago, onde morava.

De 75 pessoas a um andar inteiro de hotel

A primeira edição, em 2004, aconteceu em um hotel modesto e teve público pequeno — algo em torno de 75 participantes, segundo a lembrança do apresentador. Havia discussões sobre salas silenciosas e salas barulhentas, sobre respeito aos espaços e sobre convivência entre personalidades muito diferentes. Ainda assim, o ponto central do relato é que o encontro aconteceu: uma ideia coletiva se transformou em algo concreto.

Quase uma década depois, o evento reunia cerca de 800 pessoas e ocupava todo o piso inferior de um grande hotel na cidade. Para Harrington, acompanhar essa transformação significa observar um sonho virar realização e, mais do que isso, virar comunidade. Ele destaca que, dez anos antes, existiam praticantes de bondage e grupos animados, mas a noção de uma "comunidade de cordas" simplesmente não existia como conceito organizado.

Como o kink muda de ícone

O episódio também propõe uma reflexão sobre modas dentro do meio. O clichê de "chicotes e correntes", herdado do imaginário dos anos 1970 e 1980, já não descreve bem o que se vê nas práticas atuais. Nos anos 1990, segundo o autor, ganharam destaque o flogging florentino com dois chicotes em movimento simultâneo, a mumificação, o single tail e práticas de perfuração temporária. Já no início dos anos 2010, as imagens que circulavam em redes sociais voltadas ao público alternativo eram dominadas por suspensões em corda.

Harrington observa ainda que muitas expressões tidas como tradição têm origem recente e documentada. O nó conhecido como boola-boola, por exemplo, foi criado por Mortis e Bill Andrew sem um nome definido na época — e depois virou vocabulário comum. Para ele, essas narrativas de linhagens antigas fazem parte da mitologia afetiva do grupo, construída por pessoas que conviveram e cresceram juntas.

Amizades, perdas e cultura material

Boa parte do texto é dedicada às lembranças pessoais do apresentador, que calcula ter participado de oito das dez edições do evento, além de ter dado dezenas de aulas, feito apresentações, sessões de autógrafos e atendimentos individuais. Ele cita a ausência do amigo Brian, conhecido como Ayem Willing, com quem dividiu palcos e viagens — inclusive a lembrança de um corset feito sob medida e entregue meses depois, embrulhado em papel de seda e corda.

Também aparecem memórias do Bondage Rodeo promovido pela loja Twisted Monk, com brincadeiras em que participantes levavam objetos inusitados ao palco — um casal que chegou direto de uma viagem de caiaque, por exemplo, apresentou um remo como se fosse parte do kit de brinquedos. São episódios leves que ajudam a explicar por que eventos presenciais importam tanto: eles funcionam como marcadores de tempo e de vínculo.

O que fica do relato

O texto original é sobretudo um depoimento sobre pertencimento. Ele mostra como encontros presenciais, mesmo com atritos e personalidades difíceis, podem sustentar uma rede de aprendizado, amizade e transmissão de técnica. Para quem se interessa pela história do bondage contemporâneo, o episódio funciona como fonte oral: nomes, datas aproximadas e a memória de como um espaço de prática se converteu em comunidade.

Segurança

  • Práticas com corda envolvem risco de compressão de nervos e restrição circulatória: estude anatomia e faça aulas práticas com quem tem experiência.
  • Tenha sempre uma tesoura de segurança ao alcance e nunca deixe alguém suspenso sem supervisão.
  • Combine previamente limites, palavras de segurança e sinais não verbais, e reserve tempo para os cuidados posteriores.
  • Suspensão exige equipamento e pontos de ancoragem adequados, verificados por pessoa competente; improvisos podem causar quedas graves.
Fonte original

Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Lee Harrington. Recomendamos a leitura do original.

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