Um podcast que cruza espiritualidade e sexualidade
Em outubro de 2011, o programa de áudio Erotic Awakening, apresentado por Lee Harrington e publicado mensalmente na terceira segunda-feira do mês, trouxe como convidado alguém que circula há mais de uma década tanto pela cena pagã quanto pela cena BDSM. Asrik é descrito no episódio como apresentador de aulas sobre kink, facilitador de cenas e entusiasta de modificações corporais, além de participante ativo do Centro para Cultura Sexual Positiva de Seattle e de iniciativas ligadas ao público jovem adulto da região. Ele também integra o Clan Tashlin e mantém um projeto de registro de relatos sobre modificações corporais e experiências transformadoras ligadas ao kink.
O tema central da conversa não é uma técnica ou uma prática específica, e sim uma pergunta mais ampla: o que faz um vínculo — afetivo, erótico ou comunitário — durar? A partir daí, os dois conversam sobre ambientalismo, espiritualidade e formas de se relacionar.
Jogos finitos e jogos infinitos
A conversa parte de um livro de filosofia política que propõe distinguir dois tipos de jogo. Nos jogos finitos, há um vencedor, um perdedor e um encerramento claro — como uma eleição ou uma partida. Nos jogos infinitos, o objetivo não é ganhar, mas manter o jogo acontecendo, porque a vida continua independentemente do resultado pontual de hoje.
Segundo Asrik, boa parte da política e também das nossas expectativas amorosas opera com lógica de soma zero: se alguém conquista algo, entende-se automaticamente que outro perdeu. A proposta é deslocar o olhar para o longo prazo, o que tenderia a aumentar a quantidade de projetos — inclusive projetos de relação — que se sustentam no tempo.
Amor como jogo infinito
A aplicação dessa ideia aos relacionamentos é direta: em vez de tratar cada vínculo como um livro que abre e fecha de forma definitiva, encará-lo como um ciclo que atravessa a vida. Isso não significa negar o fim de relações nem ignorar a dor de uma separação; significa recusar a narrativa de que existe uma única chance e um único par certo.
Um exemplo trazido na conversa: alguém que só descobre o kink ou o poliamor depois dos 40 ou 50 anos costuma se lamentar pelo tempo “perdido”. O contra-argumento apresentado é que essa pessoa chega com paciência, seriedade e inteireza que alguém no início da vida adulta dificilmente teria. A experiência anterior não é desperdício: é o que torna possível estar ali daquela maneira.
O papel do acaso e da maturidade
Os dois conversam sobre a noção de que nem tudo está sob controle. Asrik relata que passou a encarar a própria trajetória como algo em que o acaso tem peso real — não como passividade, mas como respeito ao tempo das coisas. Diante de uma paixão impossível no momento, a pergunta deixa de ser “por que não agora?” e passa a ser “o que esse momento está dizendo?”.
Lee contribui com uma história que ouviu em uma viagem de ônibus entre Nova York e Baltimore, a caminho de um evento de comunidades de troca de poder: um casal que se conhecia desde os seis anos, teve namoros na infância e na adolescência, seguiu caminhos completamente distintos — casamentos, outros relacionamentos — e se reencontrou por acaso, já na casa dos 40. Em poucos meses, ambos concluíram que a relação fazia sentido naquele ponto da vida, embora não fizesse nenhum sentido décadas antes. Asrik responde com um caso semelhante: dois antigos namorados de colégio que se reaproximaram e se casaram aos 80 anos, após 60 de afastamento.
A conclusão defendida no episódio é que aceitar que “agora não é o momento” não precisa ser uma experiência destruidora, sobretudo em um contexto em que as pessoas vivem mais e com mais saúde por mais tempo.
Por que isso interessa às comunidades kink
O raciocínio tem consequências práticas para quem participa de comunidades de kink, poliamor e modificação corporal. Relações que se sustentam dependem de manutenção contínua: conversas periódicas sobre expectativas, espaço para renegociar acordos e disposição para acompanhar mudanças de desejo e de contexto ao longo dos anos. A metáfora do jogo infinito funciona como convite a pensar em durabilidade em vez de conquista.
O episódio também tangencia o modo como as redes sociais transformaram a formação de vínculos e de tribos, tema que os dois reconhecem merecer uma conversa própria.
Cuidados que continuam valendo
Nenhuma reflexão filosófica substitui o básico. Em qualquer relação que envolva kink ou não monogamia, consentimento informado, negociação clara e revisão constante dos combinados seguem sendo a base — assim como o cuidado posterior após experiências intensas e a liberdade de sair de qualquer acordo que deixe de fazer sentido para uma das partes.
Segurança
- Consentimento e negociação devem ser revistos ao longo do tempo, não apenas no início da relação.
- Em relações não monogâmicas, acordos precisam ser explícitos e renegociáveis por todas as pessoas envolvidas.
- Reflexões sobre destino ou acaso não substituem a responsabilidade de comunicar limites e usar palavras de segurança em práticas.
Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Lee Harrington. Recomendamos a leitura do original.
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