Uma revista, um período, um vocabulário visual
O volume 6, número 6, da revista japonesa Uramado, publicado em junho de 1961, está disponível em formato digitalizado no arquivo do site Kinbaku Today, com cerca de 200 páginas em PDF. Mais do que uma curiosidade bibliográfica, a edição funciona como um retrato de como a imprensa erótica japonesa do pós-guerra organizava e divulgava imaginário sadomasoquista — misturando ficção seriada, ilustração, fotografia de cordas, ensaísmo e a nascente cultura de cartas de leitores.
Vale situar o leitor: trata-se de material histórico, produzido em um contexto muito anterior aos debates contemporâneos sobre consentimento, negociação e segurança que hoje estruturam a prática BDSM. Ler essa edição exige, portanto, distância crítica. Muitas narrativas ali publicadas descrevem coerção, cativeiro e castigo como recursos dramáticos de fantasia, e não como modelos de conduta.
Como a edição está organizada
A abertura é deliberadamente visual. Uma ilustração de página inteira de Ishizuka Yoshiyuki, ambientada no "Salão de Enma" — uma referência ao senhor budista do inferno —, mostra carrascos demoníacos preparando suplícios. Em seguida vem uma seleção editorial de arte erótica e de bondage e a sequência fotográfica Mountain Stream ("Riacho da montanha"), de Yamashita Kyūjirō, com uma mulher amarrada em cenário de floresta e pedras.
Esses primeiros blocos estabelecem o vocabulário que reaparece ao longo de toda a revista: cordas, imobilização, punição, voyeurismo e sofrimento teatralizado. É um repertório estético, e a edição o utiliza como assinatura.
Ficção seriada: do período Edo à Bastilha
O corpo principal da revista é ocupado por narrativas longas, com variação ampla de cenário histórico:
- Tale of an Old Chivalrous Rogue, de Yagiri Jūhachi, ambientado no período Edo;
- The World Beneath the Skirt, de Ama Tetsurō, com olhar voyeurístico e fetichista sobre a vida urbana moderna;
- The Black Female Prisoner of the Bastille, de Shimamoto Haruo, que transforma a Revolução Francesa em narrativa de prisão e suplício, ilustrada por Nakagawa Ayako;
- The Demonic Visitor Comes Crawling, de Hamamatsu Takeshi, e a história de vingança Leave the Revenge to Me, de Madenokōji Arashi.
Há também textos que se apresentam como história social, testemunho pessoal ou reflexão psicológica: Tales of Meiji Women Factory Workers, de Higuchi Itsuma, sobre exploração e disciplina em fábricas têxteis Meiji; Confession: A Fool's Letter, de Minamimura Ran; Hair and Eyebrow Box, de Ōtsuka Masao, em torno do cabelo como objeto fetichista; e If You Peek into a Bewitching Dream, You Will Be Bound, de Fujimi Iku.
O lado ensaístico
Dois textos se destacam por tentar interpretar, e não apenas encenar, o desejo masoquista. Intoxication with Reversal, de Hijiri Ryūzō, discute a inversão de papéis entre dominação e submissão com exemplos da ficção erótica e policial japonesa. Já Temptation into Masochism, de Kuroda Shirō, propõe ler experiências cotidianas através de uma chave masoquista, recorrendo a referências literárias, históricas e sociais.
Esses ensaios ajudam a entender como a revista construía legitimidade intelectual para o tema, aproximando-o de debates sobre psicologia, hierarquia social e gênero.
Fotografia de cordas e cultura de leitores
A parte fotográfica não se limita ao cenário externo. Portfólios como Warehouse Interior, de Yoshida Hisashi, e Floor Stand, de Fukamori Eiji, usam ambientes internos — caixas empilhadas, um abajur de chão, paredes — como elementos de encenação e de restrição. São imagens de estúdio, com preocupação evidente de composição e de reaproveitamento de objetos domésticos como suportes visuais.
A edição também reserva espaço para cinema, lazer, colunas de informação e correspondência de leitores. Uramado Down percorre escândalos, crimes, filmes, artistas e discussões sobre gostos em transformação; Uramado Miscellany and New Film Introductions, de Sunaiji Hiroshi, resenha filmes japoneses de época; e Uramado Information reúne cartas e avisos editoriais. Um texto de Koma Katsuhiko investiga criticamente o alegado caso de tortura com serpentes atribuído a Asao, questionando a precisão de relatos sensacionalistas.
O fechamento traz Pleasure-Torture Garden 6: Rope, Love, and Dreams, de Tonomura Megumi, seguido da coletânea fotográfica Pleasure-Torture Photo Collection e de uma retrospectiva de ilustrações de números anteriores — sinal de que a revista já pensava sua própria trajetória visual.
Por que esse material importa hoje
Entre os nomes creditados na edição estão Akashi Shio, Aki Hisao, Ama Tetsurō, Fujimi Iku, Fukamori Eiji, Hamamatsu Takeshi, Higuchi Itsuma, Hijiri Ryūzō, Ishizuka Yoshiyuki, Koma Katsuhiko, Kuroda Shirō, Madenokōji Arashi, Minamimura Ran, Ōtsuka Masao, Shimamoto Haruo, Sunaiji Hiroshi, Tonomura Megumi, Yagiri Jūhachi, Yamashita Kyūjirō e Yoshida Hisashi.
Para pesquisadores de história da sexualidade, design editorial e cultura visual japonesa, acervos como esse permitem observar como o imaginário de cordas e restrição circulou em papel antes de se tornar referência global do shibari contemporâneo. Para o público praticante, é um documento de época — útil justamente por contraste: mostra o quanto a prática atual se apoia em princípios que aquela imprensa não formulava, como consentimento explícito, negociação prévia, palavras de segurança combinadas e cuidado posterior entre as pessoas envolvidas.
Ler o passado com atenção é o que permite não confundir fantasia editorial dos anos 1960 com protocolo de prática segura nos dias de hoje.
Imagens da publicação original
Imagens reproduzidas da publicação original em Kinbaku Today, com autorização. Os direitos pertencem aos autores e fotógrafos. É titular e quer a remoção? Solicite aqui.
Segurança
- O conteúdo da revista é ficção e ensaísmo histórico dos anos 1960; cenas de coerção, cativeiro e castigo ali descritas não devem ser reproduzidas como conduta real.
- Práticas com cordas exigem aprendizado com instrutores experientes, negociação prévia, palavras de segurança combinadas e atenção a riscos circulatórios e nervosos.
- Cuidados posteriores (aftercare) e revisão da cena após a prática são recomendados.
- Nunca se deve reproduzir qualquer dinâmica sem consentimento livre, informado e revogável de todas as pessoas envolvidas.
Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Kinbaku Today. Recomendamos a leitura do original.
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