A história do kinbaku e do SM japonês costuma ser contada a partir dos nomes de quem amarra. Mestres como Minomura Ko, Nureki Chimuo e Akechi Denki ocupam quase todo o espaço nas narrativas sobre a formação dessa cultura. Um texto traduzido e publicado no site Kinbaku Today, no entanto, propõe outro olhar: o de uma modelo que esteve do outro lado da corda e que ajudou a definir o tom do que se produzia em revistas, vídeos e encontros no Japão.

O material é a tradução de posts do blog de Hiromi Saotome, publicados originalmente em agosto de 2020, em que ela relembra sua convivência com Nureki Chimuo. O relato funciona como uma janela para os bastidores de uma cena que se organizava em torno de revistas especializadas, sessões fotográficas e grupos de praticantes.

Quem era Nureki Chimuo

Nureki Chimuo dedicou cerca de seis décadas ao universo do SM e ficou conhecido pela atenção quase obsessiva ao trabalho com cordas. Em uma passagem citada por Saotome, ele observa que a corda em si não tem emoção alguma: o que lhe empresta beleza é a paixão de quem amarra. Para ele, o resultado dependia de três elementos combinados — a intensidade do rigger, a sensibilidade do fotógrafo e a entrega de uma modelo que realmente gostasse de corda.

Essa ideia de que o bondage é uma construção coletiva, e não um gesto solitário de quem amarra, atravessa todo o depoimento da modelo.

O ponto de vista de quem é amarrada

Hiromi Saotome começou em filmes adultos em 1983 e, no mesmo ano, participou de uma das primeiras produções fotográficas para a revista SM Mania, ao lado de Nureki e do fotógrafo Sugiura Norio. Ela descreve a experiência com franqueza: a segunda parte da sessão previa uma cena de sexo com o editor, algo que ela detestava por desviar a experiência do bondage.

Para Saotome, a distinção era clara. A corda produzia um prazer mental, ligado à imersão em um estado próprio; o sexo, um prazer físico de outra ordem. Ela relata que não se sentia à vontade para recusar, porque recusar significava perder o trabalho como modelo de bondage — e a solidão de perder esse espaço parecia pior. Segundo ela, Nureki se mantinha discreto durante essas cenas, o que a fazia se sentir abandonada justamente por quem a observava com tanta atenção.

O momento decisivo veio quando ele, sempre brincalhão, tornou-se sério e perguntou o que ela realmente gostava. Saotome respondeu que queria ser deixada em paz, amarrada com as mãos atrás das costas, em um quarto com pouca luz. Nureki respondeu que aquilo fazia sentido: mulheres que amam corda, disse ele, não costumam gostar de provocação sexual durante a prática, porque isso dissolve o prazer específico do bondage. Ela conta que se sentiu aliviada e reconhecida.

A criação do grupo Kinbiken

Em 1985, já afastado em boa parte do circuito de revistas de SM, Nureki fundou seu próprio grupo, a Sociedade de Pesquisa da Beleza do Kinbaku, conhecida pela abreviação Kinbiken. Era um período de euforia econômica no Japão, e outros nomes da corda também criavam seus coletivos. Alguns cobravam valores altos e ofereciam sessões com nudez integral ou atividades que beiravam o jogo sexual, como forma de atrair público. O Kinbiken, segundo Saotome, manteve-se firme no propósito de tratar o bondage como estética.

Os encontros eram mensais. Para participar, era preciso telefonar para Nureki na véspera e passar por uma verdadeira sabatina: ele perguntava quais vídeos ou ensaios a pessoa conhecia, que aspectos do SM apreciava, se tinha lido o boletim do grupo. Um integrante antigo descreveu a conversa como um interrogatório que fazia suar frio, mesmo sendo apenas por telefone.

Nureki explicava a rigidez: em um ambiente em que todos buscam seriamente a beleza do bondage, alguém fora de sintonia estraga o clima. Ele também deixava as regras explícitas — nada de exposição genital ou de vibradores — e avisava aos novatos que aquilo poderia parecer entediante para quem esperava outra coisa. Quem passava pelo crivo vinha de várias partes do país, muitas vezes trazendo recortes antigos de revista para comentar poses preferidas.

As "três irmãs" e a chegada de outras mulheres

No início, as modelos dos encontros eram entusiastas de corda que atendiam ao padrão exigente de Nureki. Três se tornaram presenças fixas e ficaram conhecidas como as "três irmãs": Yuri Haruhara, que dirigia o grupo, Naomi Sugishita e a própria Hiromi Saotome.

Com o tempo, mulheres sem ligação prévia com o meio começaram a procurar o coletivo e foram convidadas a posar. Saotome reflete sobre o que isso significava: ao entrar em um espaço assim, era preciso considerar riscos concretos, como a segurança do trajeto de volta para casa, mesmo quando o discurso oficial era de tranquilidade. Ainda assim, ela interpreta essa procura como desejo de encarar os próprios gostos — e admira a coragem dessas mulheres, admitindo que, com seu temperamento reservado, talvez não tivesse conseguido sequer fazer o telefonema.

O que esse relato ensina hoje

O depoimento é valioso por deslocar o foco dos mestres para as modelos, tratadas tantas vezes como coadjuvantes quando, na prática, definiram poses, climas e limites do que se produzia. Também deixa lições práticas para comunidades kink contemporâneas: critérios de entrada claros, regras explícitas sobre o que não será feito e ambientes em que a estética da corda não se confunde com obrigação de conteúdo sexual.

Ao mesmo tempo, o texto expõe um problema que hoje se busca corrigir: a modelo relata ter aceitado cenas que não queria por medo de perder espaço. Práticas atuais recomendam o oposto — negociação prévia detalhada, liberdade real para recusar qualquer parte da cena e combinados de palavras de segurança e cuidados posteriores. Um ambiente seguro é aquele em que dizer "não" não custa a carreira nem a pertença ao grupo.

Segurança

  • Consentimento deve ser contínuo e detalhado: qualquer parte da cena pode ser recusada sem prejuízo para a pessoa.
  • Combine palavras de segurança e sinais não verbais antes de qualquer prática com cordas, e nunca amarre sozinho.
  • Cuidados posteriores (aftercare) fazem parte da prática: reserve tempo para conversa, aquecimento e verificação de marcas.
  • Ao procurar grupos ou encontros, verifique reputação e regras por escrito; evite ir sozinho a um primeiro contato com desconhecidos.
Fonte original

Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Kinbaku Today. Recomendamos a leitura do original.

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