Livro
- Título
- Inbaku Shijuhatte Volume 1 (Japanese Rope Kama Sutra)
- Autoria
- Marc, Chagawa Byo, Hayashi Yūgen
Um manual que olha para o lado sensual da corda
O universo do shibari e do kinbaku ganhou alcance mundial nas últimas décadas, e esse crescimento trouxe dois movimentos paralelos. De um lado, a modalidade se aproximou do grande público, com apresentações em galerias de arte e festivais de música. De outro, permanece viva a origem dessa arte, nascida do desejo e de impulsos sadomasoquistas que encontraram espaço nos espetáculos adultos de Tóquio e Osaka e nas revistas e vídeos voltados ao público BDSM. O livro Inbaku Shijuhatte Volume 1 — que pode ser traduzido como "Kama Sutra das Cordas" — se posiciona justamente nesse segundo campo.
A resenha original é de autoria de Jonathan Ryan, cordista norte-americano conhecido na internet como Seattle Shibari, publicada no site Kinbaku Today em junho de 2022.
A tradição dos "48 movimentos"
Manuais de instrução têm longa história no Japão, cobrindo desde esgrima e adivinhação até sumô e sexualidade. O termo te significa literalmente "mão", mas no período Edo (aproximadamente entre 1600 e a década de 1860) passou a designar, por eufemismo, uma habilidade específica ou uma técnica corporal particular.
Foi nesse contexto que o sumô consagrou os famosos shijuhatte, os "48 movimentos essenciais". A mesma lógica foi aplicada aos prazeres do corpo: manuais sexuais circularam com bastante popularidade no Japão Edo, e um livro de 48 posições era entendido como um guia abrangente de técnicas para proporcionar prazer mútuo, em moldes semelhantes ao Kama Sutra indiano.
Quem fez o livro
A obra é resultado da parceria entre três artistas:
- Marc, cordista francês radicado há muito tempo em Tóquio, com mais de uma década de dedicação ao kinbaku e membro sênior da organização Ichinawakai;
- Chagawa Byo, ilustrador baseado em Tóquio, com traço delicado e bem-humorado;
- Hayashi Yūgen, calígrafo cuja produção se caracteriza por pinceladas marcantes.
Juntos, produziram um volume enxuto e elegante, pensado como fonte de inspiração para quem deseja unir cordas e desejo.
O que o livro traz — e o que ele não traz
Um ponto importante para quem procura material técnico: não há instruções de nós ou de travamentos na obra. O conteúdo se organiza em 24 técnicas descritas em texto, sempre com a corda como elemento estruturante da cena. Os capítulos são agrupados por tipo de prática, abrangendo desde o uso de vibradores até estimulação manual, estímulos orais e relações com penetração.
Cada uma das 24 técnicas recebe:
- um nome poético, como "O eco do sino, a flauta de bambu";
- um trecho explicativo sobre a mecânica básica e os benefícios da posição;
- uma ilustração;
- uma caligrafia com o nome da técnica;
- uma indicação, ao pé da página, das práticas para as quais aquele movimento é mais adequado.
As descrições são propositalmente simples, deixando espaço para adaptações conforme o gosto, a experiência e o tipo de corpo das pessoas envolvidas. O resenhista classifica a obra menos como um manual de amarração e mais como um catálogo de técnicas eróticas com corda, útil sobretudo como inspiração.
Representação e adaptação
As ilustrações retratam um casal cisgênero e heterossexual, refletindo a trajetória do próprio autor. Marc ressalta, no entanto, que as técnicas podem e devem ser adaptadas livremente por pessoas de todos os gêneros e orientações sexuais — uma observação relevante para quem consome material japonês e pode não se reconhecer nas imagens apresentadas.
O resenhista menciona ainda que um segundo volume estava a caminho, ampliando a coleção.
Contexto cultural
O texto de Ryan chama atenção para uma transformação interessante: uma prática criada em ambientes adultos e historicamente marginalizados passa a ocupar galerias sofisticadas e palcos de festivais. Para quem tem interesses variados dentro da corda, essa expansão não é um problema — mas vale lembrar que o aspecto sensual e o erotismo continuam sendo parte central dessa tradição, e não um detalhe a ser apagado.
Antes de praticar
Livros como esse servem como repertório criativo, não como substituto de formação técnica. Amarrações envolvem riscos reais de compressão de nervos, restrição de circulação e quedas, e exigem estudo com instrutores qualificados, além de negociação prévia detalhada entre as pessoas envolvidas. Combine palavras de segurança, verifique a mobilidade e a sensibilidade dos membros durante a prática, mantenha tesoura de segurança ao alcance e reserve tempo para os cuidados posteriores, que incluem conversa, acolhimento e checagem do bem-estar físico e emocional de todos.
Consentimento informado, comunicação contínua e revisão constante do que está sendo feito são a base de qualquer cena com cordas — antes, durante e depois.
Imagens da publicação original
Imagens reproduzidas da publicação original em Kinbaku Today, com autorização. Os direitos pertencem aos autores e fotógrafos. É titular e quer a remoção? Solicite aqui.
Segurança
- O livro não ensina nós nem travamentos: busque instrução prática com cordistas experientes antes de tentar qualquer amarração.
- Negocie previamente limites, palavras de segurança e o que fazer em caso de desconforto ou emergência.
- Atenção a formigamento, dormência ou perda de sensibilidade nos membros — sinal para interromper imediatamente.
- Reserve tempo para os cuidados posteriores, incluindo conversa e verificação do bem-estar físico e emocional.
Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Kinbaku Today. Recomendamos a leitura do original.
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