Um debate sobre o futuro do kinbaku
Em dezembro de 2020, o site Kinbaku Today organizou uma conversa virtual sobre a evolução do kinbaku. O contexto era o da pandemia de COVID-19, que levou muitas comunidades a repensar práticas, encontros e formas de transmissão. Participaram Ugo, do SMpedia; Marc BeShibari, atuante na cena belga e europeia; e Sin, observador crítico da relação entre Japão, Ocidente e comercialização. O ponto de partida foi uma pergunta ampla: estaria o bondage japonês entrando em uma nova era, e o que influenciaria esse processo?
O debate não ofereceu respostas fechadas, mas trouxe perspectivas úteis para quem se interessa por história, cultura e comunidade. Três temas se destacaram: o modo como o conhecimento circulou antes do ensino em formato de escola; o papel de empresários e editoras na consolidação da cultura SM japonesa; e as tensões entre popularização, padronização e criatividade.
Ensino, escolas e mitos de linhagem
Sin argumentou que, cerca de 15 anos antes do debate, um japonês e um ocidental com experiências em artes marciais começaram a estruturar um ensino voltado sobretudo aos aspectos técnicos do bondage. Esse formato escolar teve boa aceitação no Ocidente, mas não necessariamente no Japão. Antes disso, segundo ele, o aprendizado era mais informal: revistas, filmes, vídeos e apresentações ao vivo em teatros voltados ao público adulto cumpriam um papel importante.
Ele citou exemplos históricos. Ito Seiu teria ensinado pessoas próximas já com mais de 70 anos, sem se limitar à técnica. Nureki deu palestras em meados dos anos 1970. Osada e Akechi incluíram demonstrações de cordas em seus espetáculos de SM. Arisue Go e outros incentivaram pessoas a amarrar. Para Sin, chamar essas iniciativas de escolas formais é um exagero. O mais comum eram grupos de pessoas afins, com diferentes níveis de experiência, aprendendo também umas com as outras.
A crítica se estendeu ao uso comercial de termos como deshi e ryū. Segundo Sin, Nureki ridicularizava a ideia de discipulado formal, e Akechi provavelmente não a aprovaria. Ele também questionou a tese de que o shibari teria evoluído diretamente do hojōjutsu. A punição influenciou o SM japonês, inclusive o kinbaku, mas daí a estabelecer uma linhagem direta há uma distância grande. A comparação, para ele, seria tão frágil quanto associar a masmorra BDSM a uma câmara de tortura medieval.
Sin defendeu uma visão ampla: cada pessoa pode viver o bondage como quiser, seja com interesse estético, erótico, sadomasoquista, esportivo ou espiritual. Ao mesmo tempo, observou que a remoção de elementos culturais e eróticos facilita a comercialização no Ocidente. O problema é que esse formato mais padronizado tem dificuldade de acolher trajetórias individuais, que exigem tempo, empatia, maturidade e troca entre professor e aluno.
Comercialização e cultura SM no Japão
Ugo, fundador do SMpedia em 2009, situou o debate no campo da história. O site reúne referências sobre a cultura SM japonesa, e ele deixou claro que não se considera um mestre de bondage nem professor. Sua contribuição foi mostrar como empresários e editores participaram da expansão do SM no Japão.
Ele mencionou a categoria dos shikake-nin, pessoas que atuaram nos bastidores e deram contribuições significativas, muitas vezes sem serem entusiastas do SM. Um exemplo é a revista Kitan Club, publicada entre 1947 e 1975 por Yoshida Minoru. Ela começou como revista de entretenimento, quase fechou por volta de 1952 e sobreviveu após a entrada de Minomura Kou como editor, quando passou a se dedicar ao SM.
Nos anos 1970, o Japão viveu um boom de revistas SM, algumas vendidas em livrarias comuns. Ugo citou o editor Miyasaka Shin, responsável por publicações como SM Select, SM Collector e SM Kitan. Também lembrou que Nureki Chimuo passou a ser reconhecido como kinbakushi em 1973, após se envolver em sessões fotográficas para essas revistas. Outro nome importante foi Tamai Keiyu, ligado ao teatro, que percebeu o potencial comercial dos espetáculos SM para financiar sua companhia e trouxe Osada Eikichi para o circuito, abrindo caminho para Sakurada Denjiro e Akechi Denki.
A conclusão de Ugo é que o comércio foi decisivo para o desenvolvimento da cultura SM, sem que isso precise ser julgado como bom ou ruim. Ele também comentou a nostalgia da era Shōwa, comum entre pessoas de sua geração: jovens de hoje talvez sintam falta da era Reiwa no futuro. Sobre Nureki, Osada e Akechi, arriscou que provavelmente diriam que sentem falta dos velhos tempos. Para Ugo, esses nomes não eram bons empresários: se tivessem de escolher entre dinheiro sem SM e SM sem dinheiro, escolheriam a segunda opção. Ainda assim, o comercialismo pode abrir novas direções culturais.
Ocidente, mainstream e padronização
Marc BeShibari relatou sua trajetória de quase 20 anos na Bélgica e na Europa. Ele mantém o Shibari Lounge, em Antuérpia, mas não se apresenta como especialista ou mestre. Seu interesse começou nos anos 1970, com imagens japonesas publicadas na revista Le Photo, e continuou por meio de vídeos e revistas underground. Mais de dez anos de vida espiritual e retiros na Índia, segundo ele, não eliminaram seus desejos.
Quando bares SM abriram na Bélgica, há cerca de 20 anos, ele encontrou espaço para explorar o sadismo de forma consensual com parceiros interessados. Na época, o shibari e o SM ainda tinham um caráter mais marginal e experimental. Com o tempo, a emancipação sexual e de gênero ampliou a visibilidade dessas práticas, que passaram a aparecer com mais frequência no entretenimento e no debate público.
Marc vê essa mudança com ressalvas. A entrada no mainstream trouxe aceitação, mas também deslocou o foco: a interação entre parceiros teria perdido espaço para a técnica, a moderação e uma estética mais padronizada. A globalização e a comercialização, segundo ele, produzem uniformidade também no shibari. A censura nas redes sociais reforçaria esse processo, estimulando apenas conteúdos que caibam em molduras estreitas de aceitação.
O que fica do debate
As três falas apontam para tensões reais: transmissão informal versus ensino escolar; comércio versus preservação cultural; globalização versus diversidade local; visibilidade versus padronização. Não se trata de decidir qual lado está certo, mas de reconhecer que o kinbaku não é uma tradição imutável. Ele muda conforme as pessoas, as instituições e os mercados que o cercam.
Para quem pratica ou estuda o tema, o debate sugere cautela com autoridades autoproclamadas, promessas de domínio rápido e narrativas de linhagem apresentadas como fato. Também reforça a importância de conhecer a história sem transformá-la em marketing. Em qualquer prática com cordas, consentimento, negociação prévia, palavras de segurança, atenção a riscos físicos e cuidados posteriores continuam sendo pontos centrais.
Imagens da publicação original
Imagens reproduzidas da publicação original em Kinbaku Today, com autorização. Os direitos pertencem aos autores e fotógrafos. É titular e quer a remoção? Solicite aqui.
Segurança
- Práticas com cordas envolvem riscos de circulação, compressão de nervos e lesões; busque treinamento presencial e informações sobre anatomia e primeiros socorros.
- Consentimento, negociação prévia e palavras de segurança devem ser acordados antes de qualquer cena.
- Cuidados posteriores e uma revisão do que ocorreu são recomendados após práticas de restrição.
Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Kinbaku Today. Recomendamos a leitura do original.
Discussão
Ainda não há discussão sobre este conteúdo.
Começar a discussão





