Uma revista que já não precisava se justificar
O número de agosto de 1966 da Kitan Club, revista japonesa dedicada a bondage, sadomasoquismo e fetichismo, ocupa 153 páginas e chega ao leitor como uma publicação bastante diferente daquela dos primeiros anos da década de 1950. O verbete do arquivo Kinbaku Today descreve essa edição como um fórum subcultural consolidado, com personalidades recorrentes, debates internos, vocabulário técnico próprio, expectativas de leitor e até um pequeno ecossistema comercial.
A diferença central está no tom. Em vez de apenas comprovar que praticantes de SM existiam, a revista passa a conversar com eles: publica cartas, responde dúvidas, comenta edições anteriores, discute modelos e técnicas, e trata assuntos como corda, fotografia e ficção como repertório compartilhado.
A corda como conceito, não como adereço
As páginas iniciais são dominadas por correspondência e notas editoriais. Um dos eixos mais interessantes é a reflexão sobre a palavra japonesa para corda e sobre o ideograma 縄. Os colunistas distinguem o ato comum de amarrar da construção de uma imagem erótica, discutindo vocabulário, estética e carga emocional.
A corda aparece ali em várias camadas ao mesmo tempo:
- como prática técnica e artesanal;
- como gênero fotográfico, com enquadramento e composição próprios;
- como linguagem de relação entre pessoas;
- como tema histórico e filosófico, presente inclusive em ensaios sobre mitologia.
Ficção, confissão e vida doméstica
A edição aposta forte na narrativa seriada. "A História Dramática de um Coração Ferido", de Saijō Shō, ocupa dezenas de páginas e desenvolve, sobretudo por meio de diálogos, um melodrama psicológico sobre desejo, manipulação e dependência emocional. Já "O Nariz da Esposa é Meu" desloca o fetichismo para dentro do casamento: o tom é conversacional e bem-humorado, tratando a fixação corporal como parte do cotidiano conjugal.
Há também os formatos de testemunho em primeira pessoa, que a revista cultivava havia anos e que flutuam entre ficção, memória e texto editado. Um relato descreve como o interesse por cordas se formou aos poucos, por acúmulo de imagens, revistas e encontros, e não por um único evento marcante — algo próximo de uma pequena história da iniciação subcultural.
Imagem, processo e o olhar da câmera
O material fotográfico mais extenso é a série "SM Camera Hunt", que mostra uma modelo em diferentes amarrações: de pé, com arnês de peito, no chão, com os braços presos atrás do corpo e combinações com corda no tronco e nas coxas. O ponto historicamente relevante é que a revista não apresenta apenas o resultado final, mas o processo: a modelo comenta, quem amarra ajusta, as poses mudam e o texto narra a progressão.
A câmera deixa de ser um registro posterior e passa a integrar a cena. Espaços domésticos japoneses, como o tatame e as portas deslizantes, servem de estúdio. Ao final, uma sequência de "SM disfarçado" mostra participantes fantasiados, com máscaras e roupas improvisadas, misturando humor, roleplay e teatralidade — um lado lúdico e amador que relatos históricos costumam ignorar.
Imprensa, cinema e vocabulário médico
A revista também acompanha a circulação do imaginário de cordas fora de suas páginas. Uma coluna de correspondência cinematográfica analisa cenas de bondage em dramas de televisão, discutindo enquadramento, censura, realismo e apelo sensacionalista.
Outra frente são os textos sobre homossexualidade e leitores do sexo feminino. Eles preservam o vocabulário medicalizante e patologizante da época — algo que hoje deve ser lido de forma crítica —, mas ao mesmo tempo abrem espaço para que identidades estigmatizadas fossem narradas em primeira pessoa.
Entre os destaques do índice estão ainda uma coluna sobre o uso de mordaças na representação literária, um ensaio sobre o ideograma do verbo amarrar, um texto de crítica social, uma defesa de padrões editoriais menos vulgares para as revistas eróticas e um ensaio que reconstrói o mito grego de Ariadne para falar de labirinto, cativeiro, ritual e fio condutor.
O que essa edição ensina hoje
O valor desse número está em mostrar uma cultura impressa madura. A corda aparece como técnica, gênero fotográfico, linguagem de vínculo, fonte de humor, produto comercial e marcador de identidade. A revista funciona ao mesmo tempo como escola, salão, teatro, arquivo e caixa de correio.
Vale lembrar, porém, que se trata de material de outra época, com convenções editoriais próprias e, em alguns trechos, imagens de violência encenada que hoje causam desconforto. A leitura mais produtiva é histórica e contextualizada.
Do arquivo para a prática atual
Nada do que se lê em uma revista de 1966 substitui os cuidados que a prática exige hoje. Práticas com cordas envolvem riscos reais de circulação, compressão de nervos e lesões, e por isso pedem aprendizado com quem tem formação técnica, escolha de material adequado e revisão constante dos pontos de pressão.
Acima de tudo, qualquer cena contemporânea se organiza em torno de consentimento informado, negociação prévia detalhada, limites claros, palavras de segurança combinadas e cuidados posteriores, incluindo conversa, água, agasalho e acolhimento emocional. O interesse histórico por revistas como a Kitan Club não deve ser confundido com endosso a tudo o que elas publicavam.
Imagens da publicação original
Imagens reproduzidas da publicação original em Kinbaku Today, com autorização. Os direitos pertencem aos autores e fotógrafos. É titular e quer a remoção? Solicite aqui.
Segurança
- O material original é de 1966 e inclui imagens de violência encenada; leia-o como documento histórico, não como modelo de conduta.
- Práticas com cordas envolvem risco de lesão nervosa e circulatória: busque instrução técnica presencial antes de tentar suspensões ou amarrações complexas.
- Toda prática atual deve ter consentimento informado, negociação prévia, palavra de segurança combinada e cuidados posteriores.
- Cenas de roleplay com temática de coerção devem ser previamente acordadas entre as pessoas adultas envolvidas.
Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Kinbaku Today. Recomendamos a leitura do original.
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