Uma revista, vários formatos

O volume 28, número 12 — cumulativo 322 — da revista japonesa Kitan Club chegou às bancas em dezembro de 1974 e hoje circula como PDF digitalizado de 174 páginas. Folhear esse arquivo é perceber que a publicação não se limitava a um único gênero: o sumário reúne ensaio fotográfico, reportagem em primeira pessoa, conto erótico serializado, ensaio técnico, crônica de viagem e até notas de cultura popular. É esse hibridismo que faz do número um documento útil para quem pesquisa a imprensa fetichista e a formação de uma subcultura do SM no Japão do pós-guerra.

A abertura fotográfica

A sequência inicial, intitulada White Pig Just Arrived, é assinada pelo fotógrafo Tsukamoto Tetsuzo. São dezenas de páginas de estúdio com modelos em amarrações de corda, vendas, mordaças, poses suspensas e poses no chão, alternando preto e branco e cor. As legendas individuais comentam postura, restrição e encenação — o conjunto tem caráter claramente teatral e documental, mais próximo de um portfólio de palco do que de um registro espontâneo.

Reportagem em forma de diário

O bloco mais extenso do número é The Woman Who Wants to Become a Beast, também de Tsukamoto Tetsuzo. Ao longo de mais de quarenta páginas, o autor mistura narrativa em primeira pessoa, correspondência, deslocamentos e sessões encenadas com a protagonista, numa estrutura de diário de acompanhamento. O texto se apresenta como performance documental prolongada, e não como artigo convencional — um formato que a revista cultivava como marca editorial.

Ficção seriada e cultura de leitores

A revista mantinha várias novelas em capítulos: Great Eruption, de Chiba Aooni, chega à 72ª parte; Female Captive, de Saji Asazo, à décima; The Gate of Shiran, de Furyu Gokudoken, à 41ª. Há ainda o pastiche Machiko, de Ozawa Junichi, e a resposta ilustrada de Kitagawa Mariko a imagens enviadas por leitores e atribuídas a Suzaki Akira — um indício de como a publicação funcionava também como espaço de troca com o público, com pautas sugeridas por cartas e desenhos.

Vale registrar que boa parte dessas narrativas trabalha com cenários de cativeiro e coerção como fantasia literária, recurso comum na ficção erótica da época. Esses enredos não descrevem práticas consensuais contemporâneas e não devem ser lidos como manual de conduta.

Técnica, estética e sociabilidade

O miolo da revista desloca o foco para a reflexão sobre a prática. Takahashi Hideki discute o uso do quimono furisode de noiva em amarrações, tratando vestimenta, volume de tecido e postura como elementos visuais. Niikawa Hiroo dedica o segundo capítulo de sua série ao sarugutsuwa, um tipo de mordaça, abordando história, desenho e efeitos sensoriais. The Aesthetics of Bondage, de Roman-ha Sei, defende explicitamente a amarração como assunto estético e combina argumento e fotografias de poses — posições nomeadas, colocação de cordas, suspensão e recursos de cena.

Em paralelo, Oniyama Kosaku continua, na 57ª parte, sua série Masochism and Wages, que acompanha a rotina de trabalhadores e a economia cotidiana em torno da identidade masoquista. É o lado quase sociológico da revista: menos espetáculo, mais observação de como as pessoas organizam vida, dinheiro e desejo.

Olhar para fora e temas paralelos

A parte final amplia o repertório. Haseda Kameji escreve uma crônica de viagem ao Havaí que funciona como análise crítica do filme estadunidense Deep Throat e da indústria pornográfica dos Estados Unidos, comparando circuitos comerciais, publicidade e censura com o cenário japonês. Omatsu Hirahiko segue com o segundo capítulo de seu caderno sobre sumô feminino, investigando origens regionais e mudanças históricas do esporte entre o período Edo e a modernidade, acompanhado de ilustrações. O número encerra com uma homenagem ilustrada de Mizue Shin a Fukada Kikuko.

Por que esse arquivo importa

A lista de colaboradores do número — de Ikeda Masaru a Sugitani Junji, passando por fotógrafos, desenhistas e romancistas — mostra uma redação estável e uma divisão de trabalho consolidada. Para pesquisadores, o valor está justamente na mistura: fotografia de estúdio, ficção, ensaio técnico e correspondência convivendo nas mesmas páginas. É um retrato de como uma subcultura se representa, negocia vocabulário e constrói imaginário próprio.

Ao consultar materiais assim, porém, vale separar contexto histórico de prática atual. O que hoje se entende por BDSM seguro pressupõe consentimento explícito e contínuo, negociação prévia de limites, palavras de segurança combinadas, atenção a riscos físicos — circulação, nervos, articulações — e cuidado posterior entre as pessoas envolvidas. Fantasias de coerção pertencem ao terreno da ficção e da encenação combinada; fora dele, não têm lugar.

Segurança

  • O conteúdo descreve material de arquivo dos anos 1970 com fantasias ficcionais de cativeiro e coerção; são encenações narrativas, não modelos de conduta.
  • Práticas com cordas envolvem riscos de circulação e lesão nervosa: exigem aprendizado, negociação prévia e palavras de segurança.
  • Imagens e textos antigos refletem padrões editoriais da época e não substituem o princípio atual do consentimento informado e contínuo.
  • Ao reproduzir ou estudar o material, evite apresentar cenas não consensuais como prática recomendada.
Fonte original

Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Kinbaku Today. Recomendamos a leitura do original.

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