Uma modelo no centro da história
O texto publicado no Kinbaku Today é a tradução de um relato de Hiromi Saotome, modelo que atravessou décadas da cena de SM japonesa. A nota introdutória da tradução faz uma observação importante: quando se conta a história do kinbaku e do SM japonês — áreas que, na prática, são inseparáveis — costuma-se destacar apenas as grandes figuras do laço, nomes como Minomura Ko, Nureki Chimuo e Akechi Denki. As modelos, amadoras e profissionais, ficam em segundo plano, embora tenham sido fundamentais para dar forma e conteúdo a essa cultura, das revistas como a Kitan Club aos vídeos e à era moderna dos AVs. Sem elas, argumenta a nota, o SM japonês talvez nunca tivesse saído do formato de revista alimentada por colaborações de leitores.
De 1983 ao projeto Tomoshibi
Saotome estreou em filmes adultos em 1983 e, no mesmo ano, participou de um de seus primeiros ensaios para revista, na publicação SM Mania, ao lado de Nureki Chimuo e do fotógrafo Sugiura Norio. Quase três décadas depois, em 2011, seu envolvimento com revistas comerciais de SM havia terminado e a Sociedade de Pesquisa da Beleza do Kinbaku (Kinbiken) tinha se dissolvido. Nureki estava com 81 anos. Foi nesse contexto que ele propôs um projeto chamado "Tomoshibi Planning", com um olhar renovado.
A ideia não era só dele. O projeto foi concebido por quatro pessoas: Nakahara Rutsu, diretor do Fuzoku Shiryokan (um arquivo da indústria do sexo, biblioteca para associados em Iidabashi, Tóquio), a fotógrafa e editora Sachi Yamanouchi, o próprio Nureki e Saotome como modelo.
Contra a escalada do explícito
O "olhar renovado" significava buscar um "erotismo masoquista autêntico". O diagnóstico do grupo era claro: os vídeos adultos estão em toda parte, a internet oferece imagens eróticas sem fim, e mesmo no SM a norma passou a ser a nudez total, incluindo pelos, com estímulo insistente por meio de massageadores elétricos e vibradores. No bondage, o número de cordas usadas só aumenta. A proposta era voltar às raízes e recuperar o espírito da era Kitan Club. Nureki seria a ponte para isso, por ser o único do grupo que conhecia aquela forma antiga de erotismo — a ideia era que ele revisitasses suas origens e expressasse a alegria de amarrar, o espírito do masoquismo e o erotismo.
Negociação e limites antes do ensaio
Quando a intenção do ensaio foi confirmada, Nureki procurou Saotome. Ela aceitou de imediato, mas expôs suas preocupações. Em um ensaio anterior, no Mania Club, em 2005, ela precisou interromper várias vezes, e muito tempo havia passado desde então. Não tinha certeza de que conseguiria suportar um bondage tão intenso: resistência física e força muscular estavam menores. Ao pensar em um ensaio, imaginava a corrida contra o tempo da montagem de luz do fotógrafo Sugiura e duvidava de sua capacidade de sustentar as poses.
A resposta de Nureki foi tranquilizadora e reveladora de sua concepção estética: nada de bondage de espetáculo, como suspensões, e absolutamente nenhum "concurso de resistência à tortura cruel", porque não há erotismo nisso. Saotome teve a sensação de que aquele poderia ser seu último trabalho de bondage para divulgação — sensação reforçada pelo fato de Nureki ter enviado a ela todos os roteiros atualizados de seu diário, o "Talking Theater", demonstrando empenho em se conectar com todos em nível consciente.
A história como parte da corda
No capítulo 158 do diário, Nureki admitiu que a princípio não havia história alguma: queria apenas mostrar o ato de amarrar, o processo e as reações da modelo. Foi o diretor Nakahara quem apontou que seria melhor construir uma narrativa. A observação era pertinente, porque "apenas amarrar" e "minhas reações" eram fórmulas já conhecidas no universo do Kinbiken e resultariam apenas em mais uma obra nos mesmos moldes.
A conclusão registrada no capítulo 160 é que a história é indispensável ao kinbaku, e que sem alguma emoção fica difícil expressar qualquer coisa — o que diferencia uma sessão privada de um trabalho feito para ser visto. O roteiro, reescrito e redistribuído quase diariamente, priorizava filmar dentro de um fluxo natural e preservar a sensação de realismo, evitando cenas artificiais. O enredo acompanha a psicologia do BDSM: por que os homens amarram mulheres e por que elas não tentam seriamente escapar quando estão amarradas. A personagem é uma esposa às voltas com a dívida do marido; o homem é um cobrador. Um arranjo aparentemente clichê, mas escolhido como retrato pé no chão de um homem e uma mulher.
Duas decisões estéticas se destacam. A primeira: nada de figurinos chamativos — roupas comuns do dia a dia. A segunda: a locação, uma casa antiga em Musashi, Tóquio, residência da fotógrafa, considerada ideal para o realismo. E, sobretudo, o projeto não teria nudez nem representação sexual explícita. Despir alguém, na formulação do texto, é mero erotismo; o objetivo era outro. O desafio central era medir quanto erotismo é possível evocar em uma apresentação sem nudez alguma.
O dia 1º de maio de 2011
O ensaio aconteceu em um domingo, 1º de maio de 2011, sob céu levemente encoberto — condição considerada perfeita. Saotome vestiu a roupa que usava em casa e escolheu calcinha bege, para que não parecesse artificial quando puxada. A amarração em si era muito simples, mas o trabalho se mostrou surpreendentemente exigente em outro sentido, justamente pela carga narrativa e pela busca de naturalidade.
O que o relato ensina
O texto é sobretudo um documento de história cultural, mas oferece pistas valiosas sobre como uma prática pode ser conduzida com respeito:
- a modelo foi consultada antes e pôde expor limites físicos e dúvidas sem constrangimento;
- o rigger ajustou o escopo da sessão em função desses limites, descartando suspensões e provas de resistência;
- a estética foi definida em conjunto, com objetivos explícitos e recusa consciente da nudez e do exibicionismo;
- o realismo e a narrativa foram tratados como parte do cuidado com a cena, não como enfeite.
Esses elementos mostram que a negociação e a clareza de intenções não são obstáculos à expressão artística: podem ser justamente o que permite que ela aconteça.
Segurança
- Combine limites e intensidade antes de qualquer ensaio ou sessão, como Saotome fez ao recusar suspensões e provas de resistência.
- Suspensões e poses prolongadas envolvem risco de lesão: exigem supervisão, checagem de circulação e palavras de segurança combinadas.
- Reserve tempo para cuidados posteriores e para conversar sobre o que funcionou e o que precisa mudar.
Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Kinbaku Today. Recomendamos a leitura do original.
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