O que é esta edição

O arquivo do site Kinbaku Today dedica uma ficha à edição de junho de 1964 da revista japonesa Uramado, volume 9, número 6. A publicação, com 227 páginas digitalizadas, é um exemplo típico das revistas especializadas em temas SM que circulavam no Japão do pós-guerra e que hoje são estudadas como documento cultural e histórico.

A ficha descreve o sumário completo da edição, com 28 itens, e lista 23 colaboradores nomeados. O material está disponível como PDF e integra um esforço de preservação desse tipo de imprensa, que costuma sobreviver apenas em coleções particulares.

Uma revista de formato híbrido

O traço mais marcante da edição é a mistura deliberada de gêneros. Na mesma revista convivem ficção seriada, crítica literária, ensaios sobre história e cultura, ensaios fotográficos com cordas, histórias em quadrinhos, traduções e reaproveitamento de material estrangeiro, além de seções dedicadas à correspondência dos leitores.

Entre os destaques descritos no arquivo estão:

  • “The Mystery of Panorama Island”, parte 2 — thriller erótico seriado escrito por Kitazono Tōichirō e ilustrado por Nakagawa Ayako, seguido por uma resposta crítica de Shibayama Sadatoshi, que comenta o rumo da trama e faz pedidos ao autor;
  • “Modern Masochism Cultural Criticism”, 27ª parte, de Morishita Takashige, que analisa representações de masoquismo em dramas televisivos, cinema, fotografia e música popular, comparando o Japão com o Ocidente;
  • “Body-Impact Masochism Theory”, 24ª parte, de Mizuo Kyū, um dos esforços teóricos mais longos da revista para pensar o masoquismo como experiência, e não apenas como imagem;
  • “History of the Cruelty of Seppuku”, parte 1, de Natsukawa Kōichirō, ensaio histórico sobre o ritual, com discussão anatômica e ilustrações;
  • “An Irresponsible Boom”, de Shigemori Azuma, em que um leitor critica o boom de livros, filmes e reportagens sensacionalistas sobre SM, argumentando que representações distorcidas exploram o interesse do público;
  • crítica literária de Andō Izumi e de Eda Kiriko, dedicada a obras de ficção japonesas da época;
  • quadrinho “Female Ninja Okyan”, além de contos enviados por leitores e uma seção de notícias e recados da comunidade.

Cordas, fotografia e material importado

Boa parte da revista é visual. O arquivo registra ensaios fotográficos assinados por Fujisawa Osamu, Inojima Masaya e Yoshida Hisashi, com destaque para sequências em que uma modelo de quimono aparece amarrada em poses encenadas, além das ilustrações em miniatura de Okinawa Shōji.

Há também seções de material estrangeiro: um conjunto de fotografias norte-americanas recém-importadas, imagens atribuídas a um museu etnográfico alemão e stills de filmes reunidos sob o rótulo “Screen Climax Collection”. Esse trânsito internacional mostra como o imaginário visual do bondage circulava entre países muito antes da internet.

No fim da edição, um índice geral remete a números anteriores, transformando a revista em ferramenta de consulta sobre a própria trajetória editorial.

Como ler esse material hoje

Para quem estuda a história do BDSM, a edição é valiosa por três motivos. Primeiro, revela que já nos anos 1960 existia uma cultura de leitores ativos, que escreviam, criticavam e enviavam contos — algo próximo do que hoje seriam fóruns e comunidades on-line. Segundo, mostra a tentativa de levar o assunto para o terreno da teoria e da crítica cultural, e não apenas do entretenimento. Terceiro, evidencia a presença de vozes dissonantes dentro da própria publicação, como a crítica ao sensacionalismo midiático.

É importante, porém, fazer uma distinção clara. Muitas das narrativas de ficção descritas no sumário envolvem cárcere, coerção e violência contra personagens femininas. Elas pertencem ao repertório fantástico e literário da época, e não descrevem nem recomendam condutas reais. Práticas de BDSM entre adultos baseiam-se em consentimento informado, negociação prévia, limites acordados, palavras de segurança e cuidados posteriores — elementos ausentes das tramas ficcionais de revistas como essa.

Ler esse acervo, portanto, é um exercício de história cultural: entender como uma sociedade de meados do século XX falava sobre desejo, poder e punição, sem transformar essas fantasias em modelo de comportamento.

Segurança

  • As tramas ficcionais da revista retratam cárcere e coerção; são fantasia literária de época e não servem de modelo para práticas reais.
  • Práticas de BDSM entre adultos exigem consentimento, negociação de limites, palavras de segurança e cuidados posteriores.
  • O material original é sensacionalista em vários trechos; esta leitura é histórica e não endossa representações abusivas.
Fonte original

Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Kinbaku Today. Recomendamos a leitura do original.

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