Uma entrevista para preservar a memória
Publicada em dezembro de 2019 pelo Kinbaku Today, a conversa com Saikatsu — nome de uso, não o de registro — reconstrói passagens da história do shibari japonês a partir da experiência de quem foi assistente e amigo de Akechi Denki por 24 anos. A entrevista foi conduzida com perguntas de Ugo, do SMpedia, e Bingo Shigonawa, do Bar UBU, em Shinjuku, com tradução de Yuki Sakurai e participação da modelo Airi. O objetivo declarado era registrar detalhes enquanto testemunhas dessa cena ainda podem falar, evitando que lembranças se percam ou sejam substituídas por versões imprecisas.
Infância, cinema e o primeiro fascínio
Saikatsu nasceu no fim dos anos 1940 em Kanazawa, na província de Ishikawa, e mudou-se para Tóquio em meados da década de 1960 para estudar. Seu primeiro contato com a ideia de amarras veio de um filme visto por volta de 1960, no qual uma personagem princesa aparecia amarrada. Na época, a televisão ainda não era um meio doméstico comum. Já como universitário, ele frequentou sessões de filmes eróticos japoneses, os chamados pink films, que começaram a se popularizar no início dos anos 1960 e misturavam produção barata, censura e grande demanda.
Kitan Club e a descoberta de uma comunidade invisível
O contato mais concreto com o universo BDSM veio por acaso: um colega de faculdade deixava exemplares da revista Kitan Club à vista no apartamento. Saikatsu percebeu que existiam pessoas que praticavam aquilo, não apenas fantasias isoladas. A revista, fundada em 1947, começou como publicação erótica geral e só depois foi transformada em revista de SM, com forte impulso de Minomura Kou, que usava o pseudônimo Suma. Ele comprava exemplares alternadamente com o amigo em livrarias comuns; o preço era de cerca de 350 ienes, algo próximo de 1 dólar na época.
Kitan Club publicava contos, relatos e fotos em preto e branco. Leitores enviavam textos e recebiam por manuscrito, o que ajudou a revista a durar até 1975, apesar de suspensões frequentes. Saikatsu recorda especialmente Rope Hunt, de Tsujimura, uma história com fotos que descrevia cenários e a dificuldade da experiência. Ele dizia gostar da simplicidade das amarras e do realismo daquelas produções.
O mercado adulto e a censura
Entre o fim dos anos 1960 e o início dos 1970, o mercado de cinema e teatro adulto cresceu muito no Japão. Os pink films eram rodados com economia, às vezes usando filme colorido apenas nas cenas consideradas mais importantes. O sucesso levou atrizes, roteiristas e diretores a produzir conteúdo variado para um público cada vez mais diversificado, incluindo práticas sadomasoquistas e cordas. A obra literária Hana to hebi, de Oniroku Dan, publicada em 1962, tornou-se uma referência do gênero e depois foi adaptada para o cinema.
Saikatsu lembra que a primeira exibição da adaptação de Hana to hebi foi alvo de ação policial e teve cenas cortadas. Parte do corpo das atrizes era escondida com cordas, o que deixou o resultado distante do material original. Ele conta que viu fotos e títulos na entrada do cinema e se decepcionou com a versão final. Naquele período, a presença de shibari em programas de TV ainda era rara.
Do consumo à prática
Durante muito tempo, Saikatsu foi apenas espectador e leitor. Encontrar alguém disposto a ser amarrado era difícil: era preciso ter parceira disposta, pagar uma modelo caro ou estar ligado à indústria adulta. O meio era clandestino e as pessoas raramente falavam abertamente sobre o assunto. Ele só começou a amarrar mais tarde, depois de passar a ajudar Akechi Denki, e afirma que nunca imaginou que acabaria segurando a corda.
Nos anos 1970, o mercado de revistas SM se ampliou. Saikatsu comprava SM Collector e depois títulos como SM Select, SM Fan e SM Mania. Ele também acompanhou a época das revistas embrulhadas em plástico, as Bini-hon, que impediam a folheagem nas lojas e às vezes escondiam conteúdo mais brando do que a capa sugeria. Mais tarde, lojas clandestinas passaram a vender jogos de computador e vídeos sem censura, incluindo material de SM.
Os primeiros shows ao vivo
O primeiro espetáculo de kinbaku ao vivo que Saikatsu viu foi no fim dos anos 1970, com Keiyu Tamai. Em um evento em Roppongi, a modelo Ami Ishikawa apareceu amarrada sobre uma pequena mesa, como objeto artístico, por 20 ou 30 minutos. Estava em gote shibari, sem roupas, e o público apenas observava. Quando ela pediu ajuda para se soltar, ninguém teve coragem de se aproximar; ela mesma se levantou e conversou com Tamai, que então a chicoteou.
Tamai fundou o Theatre Scandal em Osaka, em 1976. Denjiro Sakurada fazia apresentações de GSG em Tóquio. Os dois chegaram a fazer uma esquete juntos, classificada como teatro underground. Tamai ajudou a projetar Eikichi Osada, enquanto Sakurada se aprofundou nas cordas. Para Saikatsu, a cena de shows de kinbaku não teria amadurecido sem figuras como Tamai e Sakurada.
Akechi Denki e o Phantom Show
Em 1979, Saikatsu viu um anúncio do Phantom Show de Akechi Denki no Nakano Queen, um dos clubes SM mais antigos do Japão, e decidiu ir. Estava nervoso, mas temia se arrepender de não ver o que considerava real. O espaço era pequeno: na primeira vez havia 15 ou 16 pessoas; em algumas noites, apenas uma pessoa assistia. O formato tinha duas partes de uma hora, com cera quente e sadomasoquismo na primeira e shibari na segunda. Akechi gostava da segunda parte porque podia exibir a precisão de suas amarras e o estilo semena wa.
Antes disso, Saikatsu já tinha visto Akechi em vídeos, inclusive mascarado e em papel masoquista, sem reconhecer o nome. Depois passou a associar a imagem de óculos escuros ao kinbakushi. Akechi também explorou outros fetiches em apresentações posteriores em Shibuya, mas o entrevistado prefere destacar o trabalho de cordas.
Uma linhagem em construção
A conversa também ajuda a organizar a cronologia da cena japonesa. Os shows modernos de kinbaku são ligados a uma linhagem que passa pela obra teatral de Seiu Ito, pelas apresentações ao vivo de Kazuya Mukai com a modelo Junko Aoki por volta de 1964 e, depois, por nomes como Tamai, Osada, Sakurada e Akechi. Antes dessa geração, atrizes como Naomi Tani, conhecida como rainha do cinema SM, foram amarradas por kinbakushis como Takashi Tsujimura, Shigeru Kayama e Hiroshi Urato.
A entrevista não é um manual de técnicas. Ela registra como revistas, cinema, teatro e clubes ajudaram a formar um circuito que, por muito tempo, foi tratado como subterrâneo. Hoje, o shibari circula em workshops e eventos, mas a história lembrada por Saikatsu mostra que a prática dependia de redes de confiança, publicações especializadas e espaços presenciais.
Cuidados atuais
Ao estudar esse passado, é importante separar memória histórica de prática contemporânea. Práticas com cordas devem envolver consentimento claro, negociação prévia, palavras de segurança, atenção à circulação sanguínea e nervos, e cuidados posteriores. Cenas de palco ou de cinema não devem ser reproduzidas sem preparo e supervisão adequada.
Imagens da publicação original
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Segurança
- Texto histórico; não é um tutorial de amarração.
- Práticas atuais de shibari exigem consentimento, negociação, palavras de segurança e cuidados posteriores.
- Não reproduza cenas de palco ou cinema sem preparo e supervisão adequada.
Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Kinbaku Today. Recomendamos a leitura do original.
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