Um relato pessoal com valor histórico

Em uma entrevista publicada pelo site Kinbaku Today em 30 de maio de 2019, Ugo San, pesquisador da história do bondage de cordas no Japão, compartilha lembranças pessoais e observações sobre a evolução da kinbaku. O texto não é um manual técnico: é um depoimento sobre como imagens, revistas, filmes e professores ajudaram a formar o repertório de alguém que acompanha essa cena há décadas.

Infância, mangás e primeiras sensações

Ugo situa suas primeiras memórias ligadas a emoções associadas ao SM por volta dos 8 anos, em meados dos anos 1960. Na época, mangás eram a principal diversão entre crianças. Ele cita obras de Tezuka Osamu e Umezu Kazuo e recorda que, embora fossem histórias infantis sem conteúdo erótico explícito, temas como cativeiro, disciplina e contenção do corpo despertavam nele reações intensas. Para Ugo, a sensibilidade infantil pode captar elementos que adultos não percebem.

Anos 1970: contracultura, TV e revistas

A década de 1970 é descrita como um período de contracultura e questionamento de valores. Ugo conta que passou a assistir escondido a programas de TV exibidos após a meia-noite, quando seus pais dormiam. Entre eles, o The 11PM apresentava pautas ligadas ao universo SM, incluindo filmes, bares e teatros. Nomes como Dan Oniroku, Tsujimura Takashi e Shima Shikou apareceram no programa, embora ele ainda não registrasse suas identidades.

Ele também lembra de produções aparentemente comuns que traziam cenas eróticas, como o drama Play Girls, sobre detetives mulheres. Além disso, aponta que cenas de amarração apareciam com frequência em dramaturgias tradicionais, como kabuki e bunraku, o que ajudaria a explicar certa familiaridade cultural japonesa com a corda.

No mesmo período, revistas como SM Select, SM Fan e SM King começaram a circular. Ugo diz que, no início, não tinha coragem de comprá-las em livrarias comuns; em meados da década, passou a adquiri-las em uma cidade vizinha, mas ainda sentia culpa e vergonha, chegando a descartar exemplares em um parque. A situação mudou com publicações como New Self, lançada em 1975 pela Green Planning, com Suei Akira como editor. A revista misturava conteúdo erótico e artigos variados, o que lhe pareceu menos estigmatizante. Ele também acompanhava o trabalho de Araki Nobuyoshi, Sugiura Norio e Tamai Keiyuu.

Em 1977, ao ingressar na universidade e morar sozinho em Kyoto, Ugo perdeu parte do constrangimento e começou a colecionar revistas SM. Ele recorda que muitos títulos eram parecidos, mas que uma matéria sobre fetiche por hara-kiri na publicação Sun and Moon o chocou e lhe mostrou a profundidade do universo hentai.

Primeiros nós e aprendizado formal

Em 1981, Ugo amarrou pela primeira vez uma namorada que também se interessava por práticas BDSM. Ele comprou corda asanawa em uma loja de miudezas e, segundo seu relato, não sabia que a corda precisava de preparo prévio. O casal não se limitou à kinbaku e explorou outras práticas BDSM.

Nos anos 1980, os vídeos adultos se popularizaram. Ugo cita Art Video e Cine Magic, além das cabines de vídeo que frequentava. Ele menciona Nureki Chimuo como kinbakushi em alguns desses trabalhos e Yoyogi Tadashi como pioneiro da produção audiovisual adulta japonesa. Depois de nove anos em Kyoto, mudou-se para Tóquio em meados da década. Até por volta de 2000, porém, sua relação com o SM era sobretudo de fantasia, alimentada por vídeos e revistas; foi com a internet que passou a encontrar parceiras interessadas e a ampliar a experiência real com cordas.

Para aprender técnicas, Ugo recorreu inicialmente a vídeos instrutivos de Nureki. Também conhecia o trabalho de Shima, cujo estilo considerava bastante singular. Diante da dificuldade de dominar as duas abordagens, optou por imitar Nureki. Mais tarde, buscou aulas formais: em 2007, estudou com Haruka Misaki, que havia aprendido com Kai; em 2009, passou a ter lições com Osada Steve; e, em 2014, começou a aprender com Yukimura Haruki, experiência que, segundo ele, enriqueceu sua vida com a corda. Ugo mantém um grupo de estudos sobre Yukimura no Fetlife.

Kinbaku e shibari: palavras em movimento

Ugo concorda que kinbaku e shibari têm diferenças sutis, mas evita generalizações. O sentido dependeria da idade de quem fala, do conhecimento histórico, da cultura local, da trajetória pessoal e do contexto da conversa. Para ele, shibari é um termo mais flexível, enquanto kinbaku teria uso menos elástico. Ainda assim, ressalta que dez pessoas podem dar dez respostas diferentes.

Ele lembra que Ito Seiu usava as duas palavras por volta de 1900. Na leitura de Ugo, shibari designava o que hoje se entende por shibari ou kinbaku, enquanto kinbaku representava uma motivação histórica ligada ao teatro kabuki. Para Ito, seme, a ideia de tortura, era o termo equivalente a sadomasoquismo, e shibari era a ferramenta principal dessa prática. Ugo observa que o significado das palavras está sempre em transformação e que, em 2050, os termos podem ter sentidos completamente diferentes.

Influências ocidentais e evolução cultural

Quando questionado sobre influências ocidentais, Ugo afirma que publicações japonesas trataram de John Willie e de trabalhos relacionados, sinalizando que editores sabiam do interesse do público. Ele cita também Irvine Klaw e Bettie Page e recorda que o livro The Beauty of Kinbaku, de Master K, de 2008, examinou a influência mútua entre Willie e o círculo da Kitan Club.

Sobre a invenção do vídeo, Ugo considera evidente que novas tecnologias estimulam pessoas criativas. Ele menciona o livro Revolutionary History of AV, de Fujiki TDC, publicado em 2009, como uma análise da história das tecnologias de vídeo e da produção adulta japonesa.

Ugo também comenta a expansão internacional da corda e a diversificação de abordagens, como trabalhos mais estéticos, yoga shibari e mindfulness kinbaku. Ele vê com naturalidade esse movimento e compara a difusão da kinbaku à do sushi, que ganhou formas locais pelo mundo. Para ele, estilos como os de Naka, Kanna e Ranki podem ser estudados ou modificados, e a cultura japonesa da corda, com menos de cem anos de história, segue em transformação. Ugo diz que pretende permanecer ligado ao estilo Shōwa antigo, mesmo que ele se torne menos comum, e que não tem interesse pessoal em fazer kinbaku quase erótica, embora goste de assistir.

Terminologia recente e mitos históricos

Na entrevista, Ugo afirma que boa parte da terminologia da kinbaku foi inventada recentemente, muitas vezes de modo improvisado, e não deveria ser tratada como verdade absoluta. Ele reconhece que o hojōjutsu, arte tradicional de amarrar, tem seu próprio vocabulário, mas considera limitada sua influência sobre a kinbaku. Muitos termos teriam surgido após a Segunda Guerra Mundial.

Ele cita exemplos: Matsui Kenji teria nomeado amarras a partir de brasões de clãs de Kansai por semelhança visual; Nureki precisava de nomes para as amarras que mostrava ou ensinava em vídeos; e Aotsuki Nagare teria aperfeiçoado o Futomomotsuri. A conclusão é que várias amarras vistas como históricas podem ter origem mais recente do que se imagina.

Consentimento e segurança

A entrevista trata de história e experiência pessoal, não de instruções técnicas. Em qualquer prática com cordas, é essencial conversar antes, estabelecer limites claros, combinar palavras de segurança e garantir consentimento contínuo. Cordas exigem preparo adequado e atenção à circulação sanguínea, à sensibilidade e ao risco de lesões; técnicas de suspensão não devem ser improvisadas. Também é importante reservar tempo para cuidados posteriores e acompanhar o bem-estar físico e emocional de todas as pessoas envolvidas.

Segurança

  • Pratique apenas com consentimento mútuo, negociação prévia e palavras de segurança.
  • Cordas exigem preparo e atenção a circulação, sensibilidade e risco de lesões; não improvise técnicas de suspensão.
  • Reserve tempo para cuidados posteriores e acompanhe o bem-estar físico e emocional de todas as pessoas envolvidas.
Fonte original

Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Kinbaku Today. Recomendamos a leitura do original.

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