Uma conversa sobre cordas históricas
Publicada em 12 de abril de 2020 pelo site Kinbaku Today, a entrevista com Haru-to-Kyou trata de sua trajetória e de suas pesquisas sobre amarras japonesas antigas. O foco não é o shibari contemporâneo como espetáculo, mas o estudo de técnicas históricas ligadas ao encarceramento, à tortura e à execução no Japão feudal. O próprio entrevistado alerta que esse conhecimento é perigoso e não deve ser tratado como tutorial.
Haru-to-Kyou nasceu em Osaka, em 6 de fevereiro de 1966. Seu apelido vem de partes dos nomes de dois filhos. Antes de se dedicar à pesquisa de cordas, trabalhou com música e atuou em bares fetichistas de Tóquio. Ele administrou o BUG, em Ikebukuro, a partir de junho de 2002, e depois o comprou do antigo dono. Com o tempo, o local passou a ser chamado pela mídia de happening bar, embora sua proposta original fosse reunir diferentes preferências fetichistas. Diante da mudança do cenário e da confusão de costumes, ele decidiu fechar o BUG. Após quatro anos de pausa, abriu o Haru BAR, também em Ikebukuro, com foco em kinbaku.
Encontro com Akechi Denki
A aproximação com a pesquisa histórica ocorreu por meio de Akechi Denki. Haru-to-Kyou já fazia kinbaku quando o viu se apresentar no BUG e decidiu que queria aprender com mais profundidade. Como Akechi não lhe dava aulas formais, ele acompanhava o trabalho do mestre como assistente e aprendia pela observação. Com o tempo, os dois começaram a pesquisar amarras antigas juntas. Depois da morte de Akechi, Haru-to-Kyou continuou o trabalho.
Em setembro de 2006, ele se tornou segunda geração do Bakuyukai de Miura Takumi, iniciativa que organizou o ensino de shibari em formato de dōjō. Mais tarde, abriu o Haru-to-Kyou Studio, instalado em uma casa do período Edo em Kyonan, na província de Chiba. O imóvel foi danificado pelo tufão Hagibis, em outubro de 2019, e passava por reparos quando a entrevista foi feita.
Pesquisa no período Edo
Haru-to-Kyou percorre museus, arquivos, residências históricas e coleções particulares em busca de registros sobre amarras antigas. Ele cita visitas a regiões dos antigos domínios de Satsuma, Chōshū, Tosa e Aizu. Muitos documentos são mantidos por famílias como heranças e não podem ser fotografados; nesses casos, ele observa, conversa com os responsáveis e produz imagens a partir de desenhos monocromáticos antigos. Seu objetivo é lembrar como funcionavam práticas criminais e punitivas do fim do período Edo.
O entrevistado distingue suas cordas das usadas em contextos eróticos modernos. Ele afirma se especializar em cordas de tortura, como o torinawa e o hojō-jutsu. O torinawa também aparece como hobaku-nawa ou hojō-nawa e, segundo ele, podia ser executado com aranawa, uma corda de palha que não aperta ao molhar. A asanawa, por outro lado, é associada a fibras que encolhem com a umidade. Em vez de muitos nós, essas amarras usavam voltas e amarrações engenhosas. Um método chamado sayō-nawa utilizava travas do tipo kannuki para tensionar a corda e aplicar carga, sendo descrito como kinbaku clássico.
A fonte menciona que carcereiros samurais teriam desenvolvido técnicas ao longo de séculos, inclusive formas de matar prisioneiros sem que a causa fosse facilmente identificada. Também se discute uma narrativa ficcional sobre um senhor feudal no fim do período Edo, usada para ilustrar o torinawa. Essas passagens devem ser lidas como contexto histórico e artístico, não como instrução.
Corpo, articulações e ausência de corda
Durante a entrevista, Haru-to-Kyou demonstrou como imobilizar uma pessoa manipulando articulações e membros, sem usar corda alguma. Segundo ele, esse conhecimento vem também de sua experiência com boxe desde os 11 anos e com massagem esportiva, que o ajudou a compreender melhor a anatomia humana. A demonstração foi feita com modelos adultas e voluntárias.
A fonte ressalta que esse tipo de técnica é extremamente perigoso. Nas mãos de um especialista, amarras históricas poderiam levar à morte ao longo de um dia; nas mãos de iniciantes, lesões fatais poderiam ocorrer em segundos. Por isso, o conteúdo não deve ser reproduzido. O texto menciona ainda que grande parte do que se sabe sobre o uso marcial e punitivo de cordas foi pesquisada nos últimos 15 anos, especialmente após a morte de Akechi Denki.
Contexto e limites éticos
A entrevista também reflete sobre como o interesse moderno por sadomasoquismo e erotismo impulsiona a pesquisa histórica, mas não se confunde com as práticas antigas. O período Edo foi marcado por violência institucional, baixo valor da vida humana e castigos cruéis. Estudar esses usos exige separar pesquisa de apologia.
No shibari contemporâneo, a prática deve ser consensual, negociada e acompanhada de cuidado. Cordas podem comprimir nervos, prejudicar a circulação e causar lesões graves. Por isso, o texto serve como material informativo sobre história e cultura japonesas, não como manual de amarração. Praticantes atuais precisam de treinamento, supervisão, palavras de segurança e atenção aos sinais do corpo. Cuidados posteriores e comunicação após a cena também são essenciais.
Segurança em primeiro lugar
A leitura deste conteúdo deve vir acompanhada de cautela. As técnicas descritas pertencem a contextos de violência histórica e não têm lugar em práticas consensuais modernas. O shibari atual depende de consentimento claro, negociação prévia, revisão de riscos e respeito aos limites de cada pessoa. Nenhuma imagem, vídeo ou relato deve ser usado como substituto de aprendizado presencial com profissionais qualificados.
Segurança
- As técnicas históricas descritas são associadas a tortura e execução; não são instruções e não devem ser reproduzidas.
- Práticas com cordas exigem treinamento, consentimento, negociação prévia, palavras de segurança e revisão constante de circulação e nervos.
- Evite aprender nós por vídeos ou fotos sem supervisão; há risco de lesões graves, inclusive quedas e compressão nervosa.
- Cuidados posteriores e comunicação após a cena são essenciais.
Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Kinbaku Today. Recomendamos a leitura do original.
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