Um nome com longa estrada

Sin acumula mais de quarenta anos de envolvimento com BDSM. Seu primeiro contato prático com cordas em contexto de kink ocorreu em 1984, quando amarrou sua esposa; desde então, seguiu explorando o assunto. É autor de Year of the Bakushi (2016) e The Psychology of BDSM & Rope Bondage (2019), colaborador frequente do Kinbaku Today e entrevistador de kinbakushis conhecidos. Também atua como engenheiro de desenvolvimento, fundou a Amatsunawa e, mais recentemente, a KOUMANAWA. No circuito underground, apresenta-se regularmente desde 2011 e desenvolve métodos próprios a partir do que aprendeu com professores e amigos japoneses.

A entrevista publicada pelo Kinbaku Today em setembro de 2025 revisita essa trajetória e apresenta sua nova empreitada no mercado de cordas.

Da Amatsunawa à KOUMANAWA

Sin conta que sua relação com a Marusan Japan, fabricante japonesa de juta, já durava mais de uma década quando, no fim de 2019, passou a considerá-la a melhor opção para produzir corda de juta. Em março de 2020, havia planos de visitar a fábrica da empresa em Bangladesh, mas a pandemia de Covid-19 cancelou voos e fechou fronteiras quatro dias antes da viagem. Sem acompanhar a produção de perto, surgiram problemas.

Em 2014, ele havia fundado a Amatsunawa como comerciante individual, reinvestindo lucros em pesquisa e desenvolvimento sobre juta, alternativas ao JBO e desenho de cordas específicas para shibari. Em 2021, porém, recebeu uma oferta de investimento e acabou deixando o controle da empresa. Depois de uma sequência de episódios que, segundo ele, se mostraram conectados, seu advogado recomendou que se afastasse. Sin não entra em detalhes por causa de possível ação judicial, mas descreve o período como difícil.

Tempo depois, a Marusan o procurou para retomar a parceria. Assim nasceu a KOUMANAWA: kouma, em termos da indústria japonesa de cordas, remete a juta, e nawa significa corda. O nome teria sido sugestão da própria Marusan, que enxergou sua visão para o mercado e, segundo ele, também deixou de fornecer à Amatsunawa.

O problema do JBO

A busca por uma corda adequada ao corpo não foi apenas comercial. Sin relata que uma parceira de cordas passou mal durante uma amarração: sentiu tontura e desenvolveu placas vermelhas nos punhos e antebraços. Um hospital administrou medicação. Ele ressalta que não é médico e que não pode afirmar que se tratava de anafilaxia, mas a reação o levou a investigar a causa. A suspeita recaiu sobre o JBO, óleo de batching de juta usado em cordas industriais.

Segundo ele, o material vinha de uma pequena loja de cordas em Tóquio, do tipo encontrado em várias partes do Japão. A ficha de segurança do fornecedor, que produzia na China, alertava que o JBO não deveria ser aquecido acima de 38 °C para evitar liberação de sulfeto de hidrogênio e mercaptanos alquílicos, substâncias associadas a risco respiratório. O documento também indicava que o produto não é biodegradável e é prejudicial a organismos aquáticos. Sin menciona ainda artigos científicos que apontam riscos de câncer de pele e de fígado, sempre tratando o tema como informação a ser verificada, não como diagnóstico.

Ele afirma que essas cordas são feitas para uso agrícola, não para amarrar pessoas. Métodos caseiros como ferver, cozinhar no vapor ou assar não eliminariam o JBO por completo. Há quinze anos, diz, muitos no Japão nem conheciam o termo: a corda disponível nas lojas simplesmente vinha com o óleo, independentemente do fabricante.

Uma cadeia produtiva controlada

Em 2015, Sin encomendou 500 kg de corda sem JBO a uma fábrica em Aichi, acreditando que ela própria produzia o material. Depois descobriu que a fabricação fora subcontratada pela Marusan, o que encarecia muito o transporte entre Bangladesh, Japão e Europa. A experiência reforçou sua conclusão de que não basta comprar corda pronta: é preciso controlar o fio, a matéria-prima e o processo.

Com a nova parceria, a Marusan investiu em uma fábrica de fios própria, operacional desde novembro de 2024, sem uso de JBO. Sin detém o segredo industrial, atua como engenheiro consultor e é distribuidor global exclusivo. A equipe inclui o especialista em juta Ando-san, além de profissionais de produção, compra de matéria-prima, limpeza das fibras e operação de máquinas. Todos teriam sido treinados para entender por que cada etapa precisa seguir determinada especificação.

O desenvolvimento resultou no fio KI-grade, chamado KOUMANAWA Ito, pensado para reduzir impurezas, ajustar o óleo de soja usado no processamento e melhorar a compressibilidade e a resistência longitudinal. Isso permitiria trabalhar com torções mais soltas na corda sem perder equilíbrio e durabilidade. O primeiro marco é a estrutura da corda; a disponibilidade comercial deve ocorrer no ano seguinte, depois do atendimento a pedidos atacadistas.

A empresa pretende fechar a loja virtual e concentrar-se na distribuição global para a fábrica, deixando o comércio eletrônico para revendedores. Ainda assim, clientes finais poderão comprar diretamente. Cordas coloridas estão nos planos, com tingimento da matéria-prima antes da mistura e da fiação, mas o horizonte estimado é de cerca de dois anos.

Aprendizado japonês e filosofia de trabalho

Sin chegou ao Japão por viagens de negócios há trinta anos e, em 2000, foi apresentado à cena local por uma namorada. Frequentou clubes SM, bares e espaços culturais, tornando-se amigo de vários kinbakushis. Cita Ero Ouji como uma influência central, além de Shigonawabingo, com quem teria estudado protocolos e filosofia antes mesmo de tocar numa corda. Também teve instrução pontual com Yukimura, sem aceitar certificado de ensino, e estudou Anma e Ampuku, incorporando essas técnicas ao seu repertório.

Ele valoriza a criatividade, a noção de tempo e espaço, a anatomia, o equilíbrio e os jogos mentais presentes no trabalho com cordas. Sua trajetória mostra como o shibari contemporâneo dialoga com história, técnica, pesquisa de materiais e cuidado com o corpo.

Cuidados e consentimento

A entrevista trata principalmente de fabricação e história, mas qualquer prática com cordas exige negociação prévia, limites claros, palavras de segurança e revisão depois da cena. Quem amarra precisa conhecer anatomia básica, evitar pressão sobre nervos e articulações e ter tesoura de segurança ao alcance. Reações como tontura, dormência, formigamento, vermelhidão intensa ou dor devem interromper a prática.

Materiais também importam. Cordas industriais com JBO não são destinadas ao contato corporal; o ideal é usar fibra própria para uso humano, fazer teste de contato e observar possíveis alergias. Suspensões e amarrações mais complexas pedem treinamento específico e supervisão. Consentimento, comunicação e cuidado posterior não são detalhes: são a base de qualquer prática kink responsável.

Segurança

  • Evite cordas com JBO para contato corporal; prefira materiais destinados a uso humano.
  • Faça teste de contato e interrompa a cena diante de tontura, coceira, vermelhidão intensa ou dor.
  • Negocie limites, palavras de segurança e cuidados posteriores antes de qualquer prática com cordas.
  • Não aqueça cordas tratadas com JBO e siga as orientações do fabricante.
Fonte original

Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Kinbaku Today. Recomendamos a leitura do original.

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